Um beijo da alma

SHAY  YOUNGBLOOD


Um beijo da alma, primeiro romance de Shay Youngblood que imediatamente a imps no panorama da nova narrativa Norte-americana, conta-nos a odisseia de uma jovem,
Mariab Santos, que aos sete anos  abandonada pela me e cuja viagem at  idade adulta se pautar pela descoberta de um erotismo magoado e confuso. Amada pelas
tias, a quem ficou entregue, mas nada habituada a uma vida regrada e sem conseguir superar o estigma do abandono, Mariab  uma adolescente carente e problemtica.
Quando, acidentalmente, conhece a identidade e o paradeiro do pai, as questes acerca da sua identidade familiar e sexual intensificam-se, e ela decide ir viver
com ele. Mas a sua nsia de ter algum que a ame quase os conduzir a uma relao incestuosa...
Inteligente e ertico, comovente e humano, por vezes deliciosamente potico, um beijo da alma revela-nos uma autora de grande talento que vai certamente conquistar
os leitores habituais da coleco pequenos prazeres.


nota do digitalizador.
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fim da nota.


SHAY  YOUNGBLOOD

UM  BEIJO  DA  ALMA


TRADUZIDO DO INGLS POR
EUNICE RANGEL
REVISO LITERRIA
ANA MARIA CHAVES

ASA
LITERATURA


TTULO ORIGINAL : SOUL KISS
1997, Shay Youngblood

1. edio: Junho de 2001
Depsito legal n 164106/01
ISBN 972-41-2588-2
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 Laura e ao meu pai

I

Na primeira noite em que a minha me no volta para casa fao uma sanduche com as folhas da sua carta de despedida. Quero comer as suas palavras. Olho e torno
a olhar para a mensagem escrita naquele papel duro e amarelado, como se os gatafunhos trmulos pudessem sair da pgina e falar comigo. A Mam ama-te muito. Espera
aqui por mim. Quero que ela apague aquela parte da espera. Depois de ama-chucar o papel at o fazer em duas bolinhas, achato-as com o punho e meto-as no sobrescrito
que a tia Faith me deu depois de a minha me se ter ido embora. Sinto-me frgil como a gua e fria como a pedra quando me sento com as pernas balouando na beira
do colcho grosso da cama alta de ferro a ler  luz fraca do candeeiro. Desenrolo o leno tigrado que a minha me me deu e embrulho nele a sanduche da despedida,
um pequeno livro de versos, uma bolacha que sobrou do jantar embrulhada em papel vegetal, e o seu rdio cor-de-rosa, to pequenino que cabe na palma da minha mo.
Ato as pontas do leno em cruz  volta dos meus tesouros e aperto-os contra o peito, juntinho ao corao. Apago a luz e atravesso o quarto s escuras.
Deso as escadas p ante p. A trs degraus do fim a
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madeira geme na escurido. Deixo cair o meu fardo e o rdio ganha vida. O Elvis canta Love Me Tender. A tia Merleen aparece como um gigante ao cimo das escadas
com um pijama vermelho, chinelos de homem nos ps e o belo cabelo negro escondido por baixo de uma touca de renda. Muito alta e magra, tem a pele cor de fogo, da
cor do solo da Gergia. Tem nas mos uma caadeira apontada na minha direco.
 Mexe-te e s um homem morto. Chega-te para a luz  ordena a tia Merleen.
A tia Faith sai da escurido, como um fantasma, com uma grande camisa de noite branca de algodo e o cabelo prateado cado solto sobre os ombros. Os seus dedos
rolios apontam a lanterna para o fundo das escadas. Entro no foco de luz e olho para o rdio e para o degrau que me traiu.
 Mariah!  grita a tia Merleen, como se o meu nome fosse sinnimo de crime. Afasto-me da luz com passos pequeninos.
 O que fazes a p a esta hora da noite?  A voz da tia Faith  suave como o leno da minha me.
 A Mam est  minha espera. Vou para casa  respondo, olhando para o fundo das escadas.
 Porque no ficas aqui  espera dela?  insiste a tia Faith.
 Vocs no gostam de mim. Quero a minha me  respondo calmamente.
Ao andar, a tia Faith vai transferindo o peso imenso do seu corpo de um lado para outro. Os seus seios volumosos misturam-se com os rolos de carne  volta da cintura. 
As coxas e as pernas so longas e slidas como troncos de rvore. A pele  de um bege quente, da cor do p de arroz da minha 
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me, e o cabelo  comprido e prateado. Macia, redonda e cinzenta. Desce as escadas e senta-se no ltimo degrau. Fala comigo  distncia. A sua voz, doce e triste, 
flutua at mim atravs da escurido. Estou quase a aproximar-me dela. Preciso do conforto dos seus braos.
 No passamos de umas velhas. H muito tempo que no convivemos com crianas. Mas vamos habituar-nos. Vem para cima. A tua me vai voltar logo. Ela tinha uns... 
 a sua voz doce denota hesitao  .. .assuntos a tratar.
A tia Merleen, alta e tempestuosa, repete a palavra assuntos dando-lhe um toque de mistrio, comprimindo os lbios contra os dentes como a minha me fazia quando 
no acreditava nalguma coisa ou quando estava farta. Mas que tipo de assuntos a teriam obrigado a deixar-me com estas velhas to azedas?
 J s uma mulherzinha  dizia a minha me confiante quando tinha de me deixar sozinha no apartamento por uma ou duas noites. Nunca me tinha deixado com estranhos. 
Estas so as tias dela; ela sempre as conheceu, mas eu s as conheci esta manh e no gosto delas. E parece que elas tambm no gostam de mim.
 Vamos pr os pontos nos is. No permito que se oua msica do Elvis Presley nesta casa  ruge a tia Merleen.  Ele disse ao mundo inteiro que a nica coisa 
que um negro podia fazer por ele era engraxar-lhe os sapatos e comprar os seus discos, ele, que roubou dos lbios dos pretos cada nota que canta. Desliga essa porcaria.
Olha-me friamente do cimo das escadas e volta para a cama com a caadeira ao ombro.
Desligo o rdio, apanho o livro, a bolacha e a sanduche
de palavras. Subo atrs da tia Faith, um degrau triste de cada vez, e entro no quarto onde vou ficar a dormir. Sento-me na cama e esfarelo a bolacha entre os dedos 
at ficar reduzida a p, deixando-a cair para o papel. Espalho as migalhas  volta da cama para que os fantasmas que possam aparecer durante a noite as comam e 
no me perturbem o sono. Foi a minha me que me ensinou a fazer isto depois de terem aparecido inmeros fantasmas que tinham conseguido passar pelo sal espalhado 
nas portas e nas janelas para me interromperem os sonhos. A minha me acredita em espritos e sabe do que so capazes. Passado um bocado deito-me na cama com o 
leno sobre o rosto, aspirando o cheiro a bergamota do cabelo da minha me e sentindo o sabor amargo das minhas lgrimas. Como pedacinhos da sanduche, tendo o 
cuidado de saborear cada uma das suas palavras, mesmo as que no entendo, engolindo cada uma delas com uma ou duas lgrimas.
Quando eu e a minha me vivamos juntas, o mundo era um lugar perfeito para uma menina. Eu adorava a minha me e ela tambm me adorava a mim. Mais ningum interessava. 
Uma das minhas primeiras lembranas  v-la vestir-se para ir trabalhar. Junto  pele castanho-avermelhada, amaciada todas as noites com uma fina camada de vaselina 
e creme hidratan-te, usava uma combinao de cetim cor-de-rosa. O rosa era romntico, dizia ela, a cor do amor e do riso. Os olhos amendoados da minha me, herana, 
dizia ela, do seu av cherokee, recordavam, sonhadores, como o meu pai lhe dizia que parecia uma princesa quando se vestia de cor-de-rosa. Por fora usava branco. 
O seu uniforme de enfermeira era engomado e
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rgido, muito branco; de tamanho pequeno, um 34, com uma touca pequenina encarrapitada no cabelo curto de caracis apertados pintado de louro, mas no completamente, 
deixando aparecer as razes de tom escuro. Umas meias brancas de seda velavam-lhe as pernas longas e esbeltas. Calava sapatos brancos silenciosos, que me deixava 
apertar e que lhe assentavam na perfeio no seu p nmero 36. Todos os dias de manh, a caminho do hospital militar, levava-me  escola que ficava por trs das 
casernas cinzentas do exrcito, nos barraces de ao em forma de po onde nos alinhvamos para jurar fidelidade  bandeira.
Armada com uma sanduche, uma pea de fruta e uma palavra escrita num pequeno quadrado de papel cor-de-rosa dobrado duas vezes, estava pronta para tudo. A palavra 
estava escrita a tinta azul na caligrafia bonita da minha me... bonita. .. doce... azul... msica... sonho... s vezes dava-me palavras em espanhol... bonita... 
dulce... suenos... agua... azul... A palavra, essa guardava-a na boca e repetia-a como uma orao quando sentia saudades dela. A minha me dizia-me que pensaria 
na mesma palavra todo o dia. Este pensamento fazia com que o tempo que passvamos longe uma da outra fosse suportvel. Antes de me deixar  porta da escola sussurrava--me 
a palavra ao ouvido. Eu fechava os olhos e ela beijava-me rapidamente no pescoo e largava-me a mo. E depois ficava a olhar para mim pela janela enquanto eu me 
dirigia para o meu lugar ao fundo da sala. Murmurvamos a nossa palavra ainda mais uma vez antes de ela desaparecer.  tarde, quando a minha me ia buscar-me, eu 
dava-lhe a mo e balanvamos os braos como se fssemos duas meninas a dar um passeio.
Azul. A-Z-U-L. Azul  a cor da msica triste, dos blues.
Eu pronunciava, soletrava e dava significado  nossa palavra. s vezes, durante os nossos passeios, inventvamos palavras e falvamos entre ns em novas lnguas. 
Para me elogiar, a minha me fazia-me ccegas no queixo, apertava-me o rosto entre as suas mos quentes e delicadas e fechava os olhos. Depois pousava os seus lbios 
nos meus e dava-me aquilo a que chamava um beijo da alma. Todo o meu corpo vibrava com o abrao da minha me.
 Amo-te, Mam  dizia eu, olhando-a nos olhos.
 E eu amo-te ainda mais  respondia ela, olhando-me fundo.
Eu j sabia ler antes mesmo de saber andar, dizia a minha me. Aos trs anos j me sentava ao colo dela a ler-lhe o jornal. No me lembro disso, mas a minha me 
dizia que era verdade. Eu era to esperta que at tinha tratamento especial na escola. A queridinha dos professores era um dos nomes que os outros meninos me 
chamavam e que eu aprendi a odiar. No tinha amigos, mas tambm no precisava, pois tinha a minha me. Todos os dias de escola eram passados  espera,  espera 
que a minha me viesse para me libertar daquela caixa de po de metal. Foi ela que me ensinou todas as coisas importantes que havia para saber.
Vivamos numa base militar perto de Manhattan, no Kansas. Grandes quadrados de relva, planos, ocupados por longos blocos de apartamentos cinzentos a perder de vista. 
Havia um baloio no nosso quintal onde a minha me passava horas a empurrar-me em direco ao cu. s vezes punha-me a cantar canes ao vento e entravam-me pedacinhos 
das nuvens para a garganta, que eu engolia para os guardar bem guardados.                              >..
Vivamos num apartamento minsculo. As paredes nuas eram de um verde-claro desagradvel, transformado  noite num ventre de veludo cor-de-rosa pelas lmpadas coloridas 
da minha me. No centro da sala de estar, em cima da tijoleira de linleo pintalgada de cinzento, estava um sof de veludo vermelho com os estofos muito duros. 
Havia uma mesa numa ponta da sala e em cima dela um candeeiro com uma franja vermelha e um grande rdio preto. A antena do rdio estava enrolada em papel de alumnio 
para melhorar a recepo dos blues e do jazz que todas as noites vinham de um lugar to distante que as msicas eram acompanhadas de interferncias da esttica. 
A minha me mantinha os estores fechados at abaixo para que ningum se metesse na nossa vida, dizia ela. A sala de estar dava para a cozinha onde havia uma toalha 
de plstico amarelo-forte com flores cor-de-rosa estendida em cima de uma mesa de jogo rodeada de trs cadeiras desdobrveis prateadas. No centro do tecto branco 
estava suspensa uma simples lmpada branca. Armrios de metal branco cobriam uma parede e, por baixo, havia um lava-loia duplo  moda antiga com um dos lados mais 
fundo do que o outro. A minha me dizia que costumava lavar-me na parte mais funda quando eu era to pequenina que bastava uma mo para me segurar. Esta histria 
dava-me sempre vontade de rir, pois eu no conseguia imaginar-me assim to pequena. s vezes queria ser suficientemente pequena para poder rastejar novamente para 
dentro da barriga dela, onde ela dizia que eu j tinha sido suficientemente pequena para caber. No conseguia imaginar um lugar mais confortvel para estar. O quarto 
era suficientemente grande para l caberem a cama e a cmoda onde estavam guardadas todas as nossas roupas, cuidadosamente
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dobradas e colocadas entre bolas de cedro perfumadas. A casa de banho de azulejo branco tinha uma sanita onde corria gua toda a noite e um lavatrio que pingava, 
mas tambm uma banheira de porcelana branca, funda e macia, suficientemente grande para l cabermos as duas na perfeio.
 noite comamos directamente das latas aquecidas no micro-ondas enquanto ouvamos msica na rdio. No Vero ela dizia que estava demasiado quente para acender 
o fogo, no Inverno dizia que estava demasiado cansada para cozinhar. Em ocasies especiais fazamos piqueniques, escolhamos latas de carne de conserva, tomates 
estufados, salada de fruta, sumo de ma e carne de porco com feijo, para espalhar em bolachas de gua e sal ou petiscar com palitos e empurrar com ch gelado 
de limo. A minha me no tinha jeito para cozinhar e isso nunca me fez falta, pois s conhecia aquele tipo de comida. Depois de jantar tomvamos banho juntas, 
ensaboando-nos uma  outra com uma esponja macia cor-de--rosa. s vezes ela deixava-me tocar-lhe nos seios e ento parecia-me que estava a segurar nuvens nas minhas 
mos pequeninas. Pareciam fruta demasiado madura. Os mamilos eram crculos escuros que se transformavam em botes espessos quando eu os pressionava suavemente, 
o que me fazia sentir como uma ascensorista. Ajoelhava-me na gua morna e cheia de espuma entre as suas pernas, deixando que a gua que escorria atravs dos meus 
dedos pequeninos casse nos seus seios e ficava a v-la recostar-se na banheira de olhos fechados, com o cabelo emaranhado e coberto de vapor e a boca ligeiramente 
entreaberta como se estivesse a suster a respirao. Sentia-me to perto dela como se a minha pele fosse a sua e fssemos um nico corpo moreno. Ela no parecia
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importar-se com a curiosidade dos meus dedos tocando e ensaboando todas as curvas e todos os mistrios do seu corpo. No havia fronteiras nem lugares que eu no 
pudesse explorar. Depois do banho deitvamo-nos no sof com os nossos pijamas brancos muito limpos, a ouvir rdio at adormecermos. Eu adorava dormir com a sua 
barriga quente encostada s minhas costas e o seu brao  volta da minha cintura. s vezes ela segurava-me na mo enquanto dormamos.
Aos fins de semana jogvamos ao Oceano.  hora de ir para a cama ela vestia-se com roupas lindas e ia danar. Deixava-me sozinha com instrues para que ficasse 
no sof, avisando-me de que, se de l sasse, mesmo que fosse para ir  casa de banho, podia afogar-me no oceano. Deixava-me as torradas que tinham sobrado do pequeno-almoo, 
que eu partia aos pedacinhos para atirar aos tubares das guas perigosas da minha ilha, para que eles no me trincassem os dedos enquanto dormia. Lembro-me de 
um candeeiro cor-de-rosa com uma lmpada cor-de-rosa e do rdio a tocar baixinho. Algumas gotas de usque e montes de ponche cor-de-rosa, que rodopiava numa taa 
de porcelana azul estalada, queimavam-me na garganta. Fui levada to longe pela corrente que imaginei que era capaz de nadar. Os tubares comearam a rodear-me 
enquanto as minhas plpebras se fechavam e o horizonte do oceano comeava a ficar turvo. O som das pequenas ondas embalava-me como se fossem braos, conduzindo-me 
para a parte mais profunda do meu sono. Normalmente comeava a sonhar mal a minha me saa.
Pareo-me com a minha me. O meu cabelo est pintado de louro, os meus olhos so rasgados, como 
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amndoas, delineados com tinta preta. Os meus '' lbios esto cobertos de beijos suaves, cor-de-rosa. Os seus cabelos. Os seus olhos. Os seus lbios. At tenho 
os seios da minha me. Os seus mamilos carnudos, deliciosos. No meu sonho mais secreto, no meu sonho preferido, visto-me com as suas roupas, vestidos cor--de-rosa 
de tecidos brilhantes e cintura fina, e dano num crculo de luz. Dano at os meus ps se tornarem to leves que comeo a flutuar na pista de dana em direco 
ao tecto repleto de estrelas cadentes, e depois saio a voar pela janela em direco a outros oceanos.
Quando acordava, a minha me estava sempre em casa. Uma vez acordou-me a meio da noite a chorar. Contou-me que um amigo muito especial, um mdico, ia ser destacado 
para fora e que, como no era sua mulher  ele j tinha uma , ela no podia ir. Quando a minha me estava triste, eu ficava triste. As suas lgrimas eram as minhas 
lgrimas. Quando a minha me chorava parecia que o mundo inteiro chorava tambm.
De repente a minha me comeou a mudar. Fiquei assustada e confusa. Quando saa da escola queria falar-lhe dos meus novos colegas da segunda classe: a menina coreana 
que tapava a cara com a mo e chorava em silncio todo o dia; o cenourinha de olhos azuis do Arkansas, que falava como se tivesse a boca cheia de pedras; a menina 
de pele morena e olhos grandes chamada Meera, que tinha o cabelo todo feito de nuvens pretas que me deixava tocar no recreio, e cuja me era uma indiana da ndia. 
Tinha uma amiga nova, livros novos
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e uma professora nova, mas a minha me j no se interessava por nada disso. Parecia uma sonmbula a vaguear pelas nossas vidas. Cada vez mais tinha de ser eu a 
tratar de tudo. Ela deixava-me fazer tudo.  tarde era eu que nos levava a ns as duas para casa. Os seus movimentos tornaram-se mais lentos, caminhava como se 
tivesse uma bola de ferro presa aos tornozelos. Os seus olhos estavam sem vida e a sua voz parecia cansada. s vezes nem falava comigo, limitando-se a murmurar 
a nossa palavra do dia enquanto eu lhe desapertava os sapatos e lhe massajava os dedos dos ps. Soltava as meias das ligas e enrolava-as cuidadosamente at carem 
das suas pernas exaustas. Adormecia e eu enchia uma pequena panela azul com gua quente e punha-lhe os ps de molho, massajando-os suavemente. Desabotoava-lhe o 
uniforme branco e pendurava-o no armrio. A peruca que ela tinha comeado a usar era escura e encaracolada. Tirava-lha da cabea e punha--a no manequim. Pegava 
num pente, raspava-lhe a caspa do couro cabeludo e massajava-o com leo de bergamota enquanto ela dormitava, perguntando-me porque  que o seu cabelo tinha comeado 
a cair. Estava seco e j no era louro. E eu ficava a v-la afundada no sof com a combinao cor-de--rosa de cetim e os seios a subir e a descer. Enroscava-me 
no seu colo e alisava-lhe o cetim por cima do peito com ambas as mos, pressionando os contornos do seu corpo dos ombros at  cintura vezes e vezes sem conta. 
Os seus olhos manti-nham-se fechados e a sua respirao era fraca e vazia. s vezes a minha me dormia dias inteiros quando no tinha de ir trabalhar. Quando acordava, 
queria gua. gua fria.
A minha me tinha uma resposta para tudo, at para as coisas que no sabia.
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 Onde est o meu pai?  perguntava-lhe  luz rosa indolente antes de adormecermos.
 No Mxico, a pintar o cu de azul.  Ela pintava retratos com as palavras.
  bonito?  perguntava eu, desejando secretamente saber mais.
 Muito bonito. Tens as mos do teu pai  dizia-me ela, beijando cada um dos meus dedos.
A sua voz era sonhadora e as histrias que me contava acerca dele pareciam contos de fadas a entrar pela porta aberta dos meus sonhos. Lembrava-me delas ou sonhara-as? 
Ela s me falava dele nestes momentos entre o acordar e o sonhar.
Eu fechava os olhos para ouvir, procurando cada detalhe e preenchendo os espaos em branco com a imaginao.
 Como  que o conheceste? Conta-me tudo sobre ele  exigia. A minha me fechava os olhos e flutuava para fora do meu alcance. Atirava-me migalhas para eu mordiscar. 
E eu devorava as noites e os dias das suas memrias, engordando cada vez mais com todos esses tesouros. Os detalhes das suas histrias mudaram com o passar do tempo. 
A estao, a cidade, a catstrofe natural que tinha acontecido no dia em que se conheceram, a cor dos seus olhos.
 Eu era feliz  comeava sempre.  Era muito feliz. Uma das lendas comeava assim:  Era Primavera na
Califrnia. Uma leve brisa soprava do oceano. Tinha acabado de entrar ao servio, quando ele entrou nas urgncias. Estava a sangrar de um corte na cabea. Cara 
de uma escada. Tinha tinta azul-clara no rosto e nos braos. Pensei que tinha cado do cu, era to belo, parecia um anjo. Os seus olhos eram to negros que tive 
medo de ser hipnotizada por eles. Estava a
medir-lhe a tenso quando a sala comeou a tremer. A terra abanou-me como se fosse uma criana nervosa e eu ca nos seus grandes braos azuis. A minha mente trabalhava 
to depressa que conseguia ver atravs dele. Conseguia ver-te a ti. Sendo eu a terra e ele o cu, sabia que amos ter um anjo. E tivemos. Quis chamar-te Angelita, 
aquela que caminha com os anjos, mas ele no concordou e por isso chammos-te Mariah, o nome da sua me.
Outras vezes a histria era diferente:  Era Inverno em Nova Iorque. No dia em que conheci o teu pai estava tanto frio que as minhas pestanas congelaram e ele derreteu 
o gelo com o seu calor.
s vezes a sua memria dizia que se tinham conhecido durante um temporal numa praia das Carabas:  O teu pai estava no cimo de uma escada a primeira vez que o 
vi. Um vento forte atirou-o directamente para os meus braos. Quando nos conhecemos ele pintava o meu retrato todos os dias. Corpos cor-de-laranja com caras amarelas, 
braos roxos e cabelo vermelho. Bebia cerveja de framboesa e esfregava-me os ps com folhas de hortel-pimenta. Quando conheci o teu pai, um vento forte batia-me 
nos cabelos, torcendo-me a mente como um furaco.
Nas histrias da minha me o meu pai era sempre belo e tinha sempre tinta azul no rosto e nos braos. Aprendi a am-lo tambm.
Na escola, eu e os meus amigos, a Meera e o David, o menino de olhos azuis do Arkansas, brincvamos s guerras durante o recreio. Inventvamos guerras e lutas contra 
exrcitos invisveis de drages e monstros marinhos. Quando acabava o
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recreio j a guerra tinha terminado e aquilo de que eu mais gostava era estarmos sempre todos do mesmo lado.
A bela letra azul da minha me foi substituda por letras de imprensa, incertas e escritas a lpis ou com lpis de cera vermelhos. As palavras nos pedaos de papel 
comearam a mudar. Vieja... lluvia... vv... lagrimas... mohosas... Xis e Os. Uma vez encheu um pequeno quadrado de papel com Zs e Qus. s vezes o papel ficava 
molhado com as suas lgrimas. A sua letra comeou a ser difcil de ler. As linhas j no estavam separadas nem encurvadas, parecia que no tinham um destino para 
onde ir. Ela parecia nervosa e magoada, como se tivesse medo de tudo. Uma manha esqueceu-se at de me dar a palavra desse dia. Quando lhe chamei a ateno, tirou 
um pedao de papel amarfanhado do bolso da bata. Mas os seus dedos tremiam e no conseguiam segurar no lpis que lhe dei. Por isso, pressionou o papel contra os 
lbios duas vezes e depois esmagou-o na minha mo.  hora do almoo, depois de ter comido a fatia de po seco e a banana pisada que trazia na lancheira, desdobrei 
o papel que a minha me me tinha dado e pressionei-o contra os lbios. E, fechando os olhos, tentei sentir o calor dos seus beijos de papel.
Uma vez a minha me levou-me at ao hospital onde trabalhava. Esperei nas urgncias. Uma das enfermeiras deu-me um chupa-chupa e perguntou-me se eu sabia alguma 
das novas danas.
 No, mas sei cantar  respondi.
Pus-me em cima de uma cadeira e abri a boca. No sei porque  que me saiu a Billie Holiday. God Bless the Child encheu o ar. A minha me cantava-a quando estava 
triste. As enfermeiras e alguns doentes aplaudiram quando acabei. O tal
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mdico amigo da minha me estava l e disse que parecia que eu tinha um anjo na garganta. Expliquei-lhe que guardava nuvens na garganta para que ficassem bem guardadas 
e ele disse que eu era igualzinha  minha me. Gostei dele apesar de saber que era ele que fazia a minha me chorar. Deixei que me beijasse, porque a minha me 
disse que no fazia mal. De perto tinha um cheiro doce, um cheiro a uma mulher que no era a minha me.
Foi em Abril que deixmos o Kansas. Tinha a certeza de que ia ter saudades dos carros de gelados no armazm de abastecimento do exrcito, de me balouar at ao 
cu e dos meus amigos, a Meera e o David, mas tinha esperana de que aquilo de que sentia mais falta acabasse por voltar  o riso da minha me. No dia em que partimos, 
a minha me foi buscar--me  escola logo a seguir ao almoo. Tinha um leno tigrado apertado por debaixo do queixo e os seus olhos estavam escondidos atrs de uns 
culos escuros enormes. Trazia um vestido azul-marinho de manga cava que lhe realava as formas. Botes brancos em forma de pequenos barcos navegavam desde o cimo 
do vestido at abaixo do joelho. O vestido era to apertado que quando ela respirava eu conseguia ver pedaos da combinao cor-de-rosa a aparecer entre os botes. 
Trazia umas meias escuras com malhas cadas e os sapatos eram de salto alto e j usados. Numa mo segurava uma mala verde, a camisola vermelha e a carteira de imitao 
de crocodilo e na outra a minha mo. amos apanhar o comboio para a Gergia. E ento meteu cinco beijos no meu bolso.
Prdios, portes e passeios passavam por ns. S olhei
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uma vez para trs, quando saa da base num enorme autocarro azul. Acenei aos meus amigos como se eles pudessem ver-me. A enorme bandeira  qual jurvamos fidelidade 
esvoaava a meia haste na imensido azul do cu. Vi dois soldados fazerem continncia um ao outro em frente  biblioteca. Este seria um dia perfeito se no fosse 
o facto de estar de partida. A minha me disse que tinha morrido uma pessoa importante. Chorava tanto que at pensei que ela conhecia esse tal Martin Luther King 
Jr. pessoalmente.
 Mam, porque estamos a ir embora?  perguntei enquanto embarcvamos no comboio.
 No estamos a ir embora, estamos a ir para outro lugar  respondeu ela tristemente.
 Mas porqu, Mam?  choraminguei.
 Porque gosto de viajar  disse ao fim de um longo silncio.
A minha me deixou-me sentar  janela. Pequenas povoaes e grandes cidades passavam  nossa frente. Vi uma tabuleta que dizia: est a sair do kansas, o estado 
dos girassis. Uma estao, depois outra. Bebs choravam e jornais eram abertos e fechados. O ritmo do comboio embalou-me at adormecer e acordar novamente. O cobrador, 
alto e ossudo, com cabelos cor de vassoura que lhe saam do chapu cinzento como se fossem palitos, sorriu para a minha me, exibindo os dentes podres, e piscou-lhe 
o olho. A minha me deu-lhe o bilhete sem se dignar sequer erguer os olhos. As pessoas entravam e saam do comboio. As que estavam do lado de fora da minha janela 
despediam-se e cumprimentavam-se. A cara macia e morena do novo cobrador aproximou-se e disse baixinho  minha me que j tnhamos entrado no Mississippi.
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Tivemos de mudar de lugar duas vezes. A minha me disse que a vista era melhor, mas no gostei de ir sentada de costas nem perto da casa de banho. Eu s me perguntava 
quem  que estaria  nossa espera no final desta viagem. Continuei a olhar pela janela at s conseguir ver-me a mim prpria e ao reflexo da minha me bebendo delicadamente 
o contedo de um frasco de medicamentos que trazia na carteira
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II

A minha me acordou-me quando o comboio entrou na Gergia. BEM-VINDO AO ESTADO DA GERGIA. rvores verdes enormes e terra vermelha. Montes de metal enferrujado 
sepultado em terrenos sem demarcao. Mquinas de Coca--Cola metidas nos alpendres de pequenas casas de madeira com aspecto de estarem prestes a ruir. A minha me 
parecia assustada. Comeou a falar como se quisesse convencer-me de alguma coisa. Deixava espaos em branco para que eu pudesse fazer perguntas, como se eu soubesse 
o suficiente para fazer as perguntas certas. O seu tom de voz mudou. Estava diferente, parecia quase uma menina. Parecia acreditar em metade das coisas que me dizia. 
Ofereceu-me as suas palavras como se fossem um doce veneno.
 Vou levar-te a visitar as tuas tias-avs. A tia Faith e a tia Merleen. Porta-te bem. Porta-te bem, ouviste? Obedece--lhes.
Molhou a ponta do dedo indicador e penteou-me as sobrancelhas com ele.
 So severas, mas so boas pessoas. Quando eu era pequena costumava ficar com elas. Gostam de ter tudo muito limpo.
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Semicerrei os olhos enquanto ela me tirava os restos do sono dos cantos dos olhos.
 Eu ficava com as tias quando a minha me tinha de trabalhar ao sbado  noite e s vezes quando ia para a Flrida apanhar fruta. Chegava a passar o Vero todo 
l. Elas eram boazinhas. So umas senhoras... e sabem cozinhar  calou--se e olhou para a janela como se estivesse a recordar e a ver toda a bondade das tias. Os 
seus olhos tinham fome  se calhar estava  espera de um prato repleto de coisas boas.
 Talvez te ensinem a fazer um bolo de veludo vermelho ou at mesmo sangria. J no bebo sangria desde... j nem me lembro. Elas sabem realmente cozinhar. Ah, e 
a tia Faith toca piano. Talvez te ensine. Ela s toca msica clssica e religiosa.
A voz rouca da minha me sussurrava trechos de uma msica, Os problemas do mundo podem fazer-nos chorar... Um dia a vida ser mais doce... A sua voz desvanecia-se 
num murmrio. Mesmo quando j no conseguia ouvi-la ainda podia ver a msica a percorrer o seu corpo.
 Elas tm uma bela casa. Vo tratar-te muito bem. Vais ver. Vo tratar-te bem  dizia a minha me, enquanto pegava nas minhas mos e as encostava ao rosto. E eu 
perguntava-me porque  que elas teriam de me tratar bem.
 Porque choras, Mam?  Tive medo e, com as mos, tentei limpar as lgrimas que lhe corriam pelo rosto e pelo pescoo.
 Estou feliz. Estamos quase a chegar a casa  disse ela, voltando a colocar delicadamente as minhas mos no meu colo. Calou-se. O seu rosto no parecia feliz; 
lanou um olhar frio para a paisagem que passava l fora.
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Gradualmente passavam por ns pequenas casas to prximas umas das outras que pareciam estar a escutar-se. O comboio entrava na cidade onde a minha me tinha crescido. 
A estao no era mais do que uma plataforma erguida ao lado da estrada. No havia ningum  nossa espera. A minha me aproximou-se de um txi amarelo e perguntou 
ao motorista se nos dava boleia. O homem disse alguma coisa  minha me que a fez afastar-se como se tivesse sido mordida por uma cobra. A minha me chamou-lhe 
branco estpido. Estava furiosa, mas recusava-se a dizer porqu. Outra mulher de cabelos longos ruivos e belos dentes brancos entrou no txi e o carro arrancou, 
deixando para trs uma nuvem de p. A minha me tirou o sapato de salto alto e atirou-o em direco ao txi. Depois sentou-se no passeio e comeou a chorar.
 No faz mal, Mam. Podemos apanhar outro comboio e ir para outro stio qualquer  disse eu, sentando-me ao seu lado.
 No querida, chegmos ao fim da linha  disse ela a choramingar, enquanto coxeava em busca do outro sapato.
A minha me deu-me a mo e seguimos os trilhos durante muito tempo at comearmos a ver pessoas. Caras simpticas, sorrisos, todos nos acenavam e alguns at diziam 
Bom-.-dia. Perguntei  minha me se conhecia todas aquelas pessoas e ela disse-me No, as pessoas do Sul so assim mesmo, amistosas. Comecei tambm a acenar 
e a dar os bons--dias a pessoas que nem sequer conhecia. Passmos por uma escola de tijolo vermelho com uma bandeira a esvoaar, uma mercearia, uma loja de bebidas 
e umas casas compridas de madeira que a minha me dizia serem casas com uma arquitectura tipicamente sulista. Finalmente chegmos ao nosso
27destino. A minha me parou para olhar para a casa grande e branca que tnhamos  nossa frente, cuspiu no leno e limpou-me o rosto. Penteou-me o cabelo preto 
com a mo. Quando se deu por satisfeita, comps o leno de pescoo e entrou pelo enorme porto preto.
Quando nos aproximmos da parede de tijolo muito limpa e ornamentada com flores, vimos as cortinas de renda serem afastadas da janela e voltarem ao seu lugar. A 
minha me subiu rapidamente os degraus arrastando-me com ela.
 Tia Faith, tia Merleen, esta  a minha menina, a Mariah. Tem sete anos e j canta como um anjo  anunciou a minha me, enquanto se aproximava da porta fechada. 
 Canta, minha querida  disse-me ela.
A minha me apertava-me a mo com ansiedade. Doa--me um bocado, mas no me queixei. Mantive os olhos baixos, presos s pintas de p nos sapatos da minha me. Senti 
um frio no estmago. Antes de ter tempo de abrir a boca ouvi a porta a abrir-se, ergui os olhos e vi duas senhoras de idade a olharem para ns.
A tia Merleen olhou para mim atravs da rede como se eu fosse um presunto estragado e depois deu meia volta e entrou em casa. A outra, a tia Faith, parecia ter 
medo de nos deixar atravessar a soleira da porta da casa grande e branca com grandes janelas fechadas e um alpendre com o tecto pintado de azul-mar.
 J no te vamos h algum tempo, Coral  disse acusadora a mulher doce e gorducha.
 Foste visitar a tua me?  inquiriu de dentro da escurido a mulher alta e tempestuosa.                 <
 Ainda no  respondeu a Minha me timidamente.
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Abateu-se sobre ns um pesado silncio. A minha me batia no pescoo com as pontas do leno e brincava com o meu colarinho. E a estvamos ns a passar o peso de 
um p para o outro,  espera de um sinal de boas-vindas.
 Est mesmo quente  disse finalmente a minha me. A tia Faith disse algo para a mulher alta que estava atrs
dela e, relutantemente, abriu a porta. L dentro estava escuro e fresco. Agarrei-me ao vestido da minha me como costumava fazer no meio da multido para no me 
perder dela. Seguimos a tia Faith at uma sala grande com pesados cortinados nas janelas. Sentmo-nos num sof de costas altas, bastante desconfortvel, coberto 
com um tecido de l que picava, enquanto a tia Faith se sentou  nossa frente numa cadeira a condizer.
 Preciso de falar consigo, tia Faith. Estou em apuros.
A tia Merleen entrou na sala e parou ao lado do grande piano preto.
 Parece que ests sempre metida em apuros, Coral. No saste daqui debaixo de uma nuvem negra?  disse a tia Merleen, enchendo a sala com a sua voz dura.
Sentei-me no colo da minha me e tentei desabotoar-lhe o vestido para encontrar algum conforto nas suas almofadas de suavidade, mas ela afastou-me.
 A pequena parece grande de mais para isso  disse a voz dura que me toldava os ouvidos.
Senti vergonha pela primeira vez ao sentir-me examinada por elas. Comecei a diminuir at ficar do tamanho de um beb que podia caber na palma da mo da minha me. 
A minha me pousou as minhas mos no colo dela e ps o boto na casa errada. Depois tirou o leno e deu-mo, e, segurando-me
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o rosto entre as mos, beijou-me os lbios. Apertou-me contra ela, levantou-se 
e afastou-se de mim, olhando-me como se estivesse a tentar tirar-me um retrato. Os seus olhos estavam tristes e molhados. Comeou a chorar alto e saiu da sala com 
a mo da tia Faith no seu ombro. Eu e a tia Merleen ficmos a olhar fixamente uma para a outra at que eu desisti e comecei a procurar padres no tapete, contando 
as flores do rebordo por debaixo dos meus ps. 
- Sabes falar? - gritou ela como se eu fosse surda.  
- Sim  sussurrei.  
- Sim, o qu?
- Sim, sei falar - respondi atrevendo-me a olhar para o seu rosto duro e enrugado, os olhos claros, o nariz grande e achatado, e a boca pequena e 
fina. 
- Sim, senhora. A tua me no te ensinou a ter maneiras ?  perguntou em tom de acusao. 
Tornei a voltar os olhos para o labirinto de flores que desabrochavam na carpete por debaixo dos meus ps. Tentei pensar em palavras para defender a minha me. 
Pressionei as mos contra o meu prprio centro e tentei tirar a dor do estmago. Subitamente ouvi a porta bater e o som dos saltos da minha me a bater nos degraus 
da entrada. Escorreguei do sof, arranhando as palmas das mos na aspereza do tecido, e corri para a porta. Mas estava fechada, fechada  chave. A mala verde era 
tudo o que restava da minha me. 
- Onde est a Mam ?  perguntei  porta fechasda, sentindo o pnico crescer-me no peito
- Teve que sair. Mas volta.  Quis que ficasses connosco durante algum tempo. E ns tambm queremos que fiques  sussurrou-me a tia Faith atrs das costas. A sua 
voz era a nica
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que eu ouvia. Queria chorar, mas no chorei. Voltei a sentar--me no sof e fingi que eu e a minha me estvamos a brincar ao Oceano.

O meu pai est no Mxico a pintar o cu de azul, mas eu estou perdida numa floresta de rvores escuras. rvores to altas e escuras que no deixam ver o cu. As 
rvores comeam a cantar-me cantigas em espanhol. E eu tambm canto mesmo sem saber a letra. Vejo uma luz e encaminho-me para ela. Depois de ter andado tanto tempo 
que at pareciam dias, vou ter a um stio onde esto sentadas duas bruxas  volta de uma fogueira. Elas dizem-me que estavam  minha espera e que me vo cortar 
em pedacinhos para fazerem uma sopa para dar de comer s suas crianas mortas. Uma das bruxas segura-me pelos braos enquanto a outra me arranca os olhos. Grito, 
mas no sai nenhum som da minha boca.

Quando ca do sof dei por mim a afogar-me num oceano de flores vermelhas.

Enquanto esperava que a minha me voltasse, fingia que as minhas tias queriam que eu vivesse com elas. Fingia ter outro lugar para onde ir, mas no tinha. Fingia 
que todas ns tnhamos poder de escolha. No queria segui-las pelas escadas alcatifadas acima e depois pelo corredor fora at ao quarto que elas me tinham dito 
ser da minha me. Mas segui-as, a arrastar os ps. Era um quarto bonito. A janela estava emoldurada por
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cortinas floridas bem engomadas e a cama de ferro, coberta com uma colcha de cores alegres, tinha um colcho to alto que eu tive de trepar para cima dela. Aos 
ps da cama havia uma pequena cmoda branca com um espelho redondo pendurado por cima, inclinado de tal forma que eu conseguia ver a cama vazia atrs de mim. Sabia 
que ia sentir-me muito s naquela cama, mas no podia saber como as almofadas iriam suportar as minhas lgrimas, murros e dentadas ao longo dos anos que estavam 
para vir. A secretria e a mesinha de cabeceira estavam cobertas por rendas finas semelhantes aos panos que se pem nos altares. Tudo muito limpo, branco e sem 
quaisquer objectos pessoais. As minhas tias falavam comigo e diziam-me coisas que eu nem sequer tentava lembrar, pois no contava ficar l muito mais tempo. Amarfanhei 
na mo o leno da minha me e esfreguei-o contra a parte de dentro do brao como se fosse uma pomada. Tinha calor, fome e comicho nos braos. No vi a mala da 
minha me, mas as roupas que tnhamos posto nela estavam dobradas cuidadosamente numa arca por baixo da janela. O meu livro de versos estava pousado numa pequena 
pilha, e eu olhei para ele repetindo cada um dos versos que sabia de cor.
 Queres comer alguma coisa?  perguntou a mais alta. Mordi os lbios para no chorar. Estava vazia por dentro.
 H comida no forno. Anda comigo l abaixo  disse a tia Faith, enquanto me pegava na mo e me levava at  cozinha.
Lavei as mos no lava-loia. Ela ps uma coxa de frango aquecida e uma bolacha num lindo prato cor-de-rosa  minha frente.  esquerda do prato estava um guardanapo 
de papel dobrado em tringulo onde estava pousado um lustroso garfo
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de prata.  direita, um pequeno copo de leite e uma faca. As duas mulheres sentaram-se  mesa a ver-me pegar no pedao de carne com as duas mos. Quando eu estava 
quase a dar uma dentada, a tia Merleen disse:
 No rezas antes de comer?
Pousei o frango no pequeno prato cor-de-rosa e vi-as fechar os olhos e rezar pela comida que iam receber. Esperei que comeassem a comer antes de pegar no garfo. 
Comi devagar e cuidadosamente, observando-as a observarem-me. Foi a melhor e a pior refeio que alguma vez comi. O melhor paladar, mas, sem a minha me, o sabor 
no tinha a menor importncia.
 Quando acabares pe os ossos num daqueles sacos de plstico. Lava os pratos e deixa-os a escorrer que eu depois trato do resto  disse a tia Faith, afastando-se 
da mesa pesadamente.
 Ela deixou ficar isto para ti  disse a mais alta pousando um pequeno sobrescrito ao lado do meu prato. Uma carta da minha me. O meu nome estava escrito no sobrescrito 
com a sua letra. As tias deixaram-me sozinha. Podia ouvi--las a bichanar na outra sala, mas mantive os olhos pregados na carta. No consegui comer a bolacha, pois 
s pensava na minha me e desejava que ela voltasse depressa.
A nossa rotina alterou-se um pouco nessa primeira Primavera e Vero. s cinco da manh a tia Merleen comeava a tossir; depois os seus ps pesados batiam no cho 
de madeira como se fossem um trovo. Alguns minutos mais tarde ouvia-a pr a gua a correr para o banho e depois a sua voz grave a
cantar blues. Os chinelos de flanela da tia Faith sussurravam junto  minha porta e pelas escadas abaixo. A chaleira apitava como um comboio. Duas pancadas fortes 
na minha porta, truz truz. A tia Merleen berrava pelas escadas acima para eu me alar da cama. Papas de aveia. Bolachas de manteiga. Caf preto bem forte para 
elas, e para cada uma de ns um pequeno copo de sumo de cenoura, um dente de alho e meia dzia de vitaminas coloridas. A tia Faith acreditava no poder das vitaminas 
e das ervas para curar todos os males reais e imaginrios. Ser que ela pensava que as ervas iam curar-me das lembranas e pesadelos? Lavava-me todas as manhs,
sentindo falta das mos da minha me a acariciarem-me todas as partes do corpo com um pano ensaboado e a deitarem-me gua quente pelos ombros na pequena bacia na 
cozinha. A minha me estava sempre comigo, a sussurrar, a tocar-me, a contar--me coisas. No passava um s dia sem que eu contasse v-la entrar no quarto como se 
nunca tivesse partido.
A tia Merleen acreditava que mos preguiosas eram o instrumento do diabo e mantinha-me ocupada com a jardinagem. De incio sentava-me no alpendre das traseiras 
a v-la espalhar estrume e deitar sementes  terra. Usava umas jardineiras e botas de borracha. s vezes chamava-me para lhe levar alguma ferramenta, um pacote 
de sementes ou um copo de gua que a tia Faith deixara no alpendre.
 Enterra o dedo o mais fundo que puderes  dizia-me ela apontando para um monte de terra.
Eu olhava-a como se ela tivesse duas cabeas.
 J te disse para vires aqui plantar alguma coisa. Escolhe alguma coisa para depois a veres crescer  dizia ela, falando como se eu fosse um co assustado.
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Hesitei e escolhi finalmente um pacote com belos tomates vermelhos na fotografia. Todas as manhs esperava que crescessem.
 Podes reg-los, mas no podes obrig-los a crescer  dizia a tia Merleen para si prpria.  Tens de cuidar deles.
Em segredo, plantei palavras escritas em pequenos pedacinhos de papel. Cuidava delas, falava com elas e esperava que palavras como amor e cor-de-rosa, msica e 
Mam crescessem entre as fiadas de vegetais. No primeiro Vero que passei com as minhas tias o jardim ficou inundado durante uma semana com chuva constante. Tinha 
esperana de que as minhas palavras tivessem criado razes, mas apercebi-me de que tinha de comear tudo outra vez. Ouvimos dizer que tinha chovido tanto que havia 
caixes a boiar na rua principal. Estaria a chover no stio onde a minha me estava?
Almovamos ao meio-dia. Vegetais da horta, po de milho e carne estufada ou cozida. Elas comearam a notar que a minha roupa estava a ficar pequena. A tia Faith 
costurou vestidos de Vero muito simples. Depois do almoo dormamos a sesta. Eu tinha lies de piano, coisa que detestava, no grande piano preto. A tia Faith 
adorava msica clssica e estava determinada a fazer com que eu tambm gostasse. Era to diferente dos blues e do jazz envolvidos em luzes cor-de-rosa suaves a 
que eu estava habituada... Comecei a fazer a minha prpria msica. Quando via a cor azul dava voz aos gemidos guturais que evocavam o esprito de Billie Holiday. 
Havia um pequeno televisor a preto e branco numa mesa ao canto da sala. O televisor s era utilizado para ver o noticirio das seis com Walter Cronkite, para ver 
pessoas de cor como Aretha Franklin e Sammy Davis Jr. a cantar e danar, ou para ver
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homens a andar na lua, ou, como julgava a tia Merleen, a andar no deserto nos arredores de Las Vegas
- Acredito tanto que Deus ps um homem na lua como que a tenha feito de queijo - disse ela na noite do grande acontecimento. A maior parte das vezes o televisor 
encontrava-se silencioso por baixo de um vu de renda florida.
Depois do jantar a tia Merleen lia em voz alta algo sado do Readers Digest ou do catlogo das sementes. Elas encomendavam flores exticas e vegetais gigantes para 
o jardim e revistas familiares para cultivarem a mente. QUando tinha os olhos cansados, a tia Merleen mandava-me ler Eu no me importava muito, pois as palavras 
e a leitura faziam-me lembrar a minha me. Quando podia escolher, lia o livro de versos que a minha me me deixou, mas geralmente obrigavam-me a ler poemas enormes, 
retirados de livros fininhos com capa de couro escritos por homens e mulheres que elas diziam ser de cor como ns. Claude McKay, Langston Hughes, Gwendolyn Brooks 
e Gergia Douglas. No havia fotografias destes poetas, mas pelas suas palavras podia ver que eram como eu Escreviam acerca dos blues, da solido, do amor da amargura 
da dor e de serem de cor. s vezes roubava Um dos livros dormia com ele debaixo da almofada para poder ter Sonhos especiais. s vezes rasgava pginas desses livros 
e comia os poemas, palavra por palavra, para os manter dentro de mim.
s oito horas a casa grande e branca estava a dormir. As suas janelas longas e azuis estavam fechadas, as suas carpetes floridas livres de pegadas. Ouvia msica 
soul, essa msica da alma, com o rdio cor-de-rosa encostado ao ouvido at mergulhar na escurido dos sonhos. Perseguida por espritos sem rosto, perdida, sozinha 
dentro de rvores ocas. Acordava a chorar
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pela minha me e o meu corao lembrava-se de que ela no estava ali. Deitada na escurido tentava lembrar-me de todas as palavras que a minha me me tinha dado 
at adormecer novamente. .. verde... corao... dana... crculos... Ia luna...
No primeiro domingo a tia Faith entra no meu quarto com um vestido amarelo nos braos.
 Esta manh vamos  missa. Despacha-te e veste-te.
Pousa o vestido na cama e desaparece no corredor. Sento-me na cama a olhar para ele. Toco-lhe,  to macio e to leve. A minha me costumava levar-me ao quartel 
para escolher as minhas roupas. Escolhia geralmente uniformes que me faziam parecer um soldado. Bombazina bege, l escura e camisolas caqui. Sempre vesti o que 
quis. Cheirei o vestido. Tinha o cheiro da tia Faith, velho e doce. Estou sentada na cama a olhar para o vestido, quando a tia Faith volta a entrar no quarto.
  menina, o vestido no vai saltar da cama e vestir-se sozinho. Hoje vamos  igreja.
 Ns no costumamos ir  igreja  disse eu, voltando a enfiar-me nos cobertores.
 Nesta casa vamos  igreja. V, toca a vestir o vestido e vamos embora  diz ela, colocando a mo na anca.
No me mexo.  No gostas do vestido? A voz dela eleva-se, expectante.   to bonito!
 No uso vestidos desses  digo eu, levando os joelhos ao peito e enterrando os ps no colcho.
 Todas as meninas vestem vestidos quando vo  igreja ao domingo.
 Como  o nome dela?  pergunto, tocando nos folhos do vestido.
 O nome dela?
A tia Faith senta-se aos ps da cama virada para mim. Comeam a aparecer pequenas contas de suor por cima do seu lbio, que depois lhe descem pela face rechonchuda.
 A menina que costumava usar este vestido.
Levanto a bainha do vestido como se uma menina pequenina pudesse estar ainda dentro dele. O tecido produz um som semelhante a dois discos a roarem um no outro.
 O nome dela era Grace, acho eu. A nossa vizinha, a Mrs; Williams, trabalha para a famlia dela. Ela cresceu e o vestido deixou de lhe servir, mas penso que te 
vai assentar como uma luva. A Mrs. Williams mandou-te uma caixa grande cheia de roupa, alguns livros e outras coisas. Podes ver o resto das coisas quando voltarmos 
da igreja.
A tia Faith pega no vestido e encosta-mo ao corpo.
 Vamos l ver como te fica.
 Ela morreu?  pergunto.
No hospital onde a minha me trabalhava havia uma caixa com roupas de crianas mortas. Ela disse-me para nunca usar roupa de pessoas mortas, pois podia ter pesadelos 
ou ser perseguida pelo esprito dessa pessoa se ela me visse com as suas roupas vestidas. Tinha de ter a certeza absoluta.
 No. Ela cresceu e as roupas j no lhe servem. Mas no morreu  diz a tia Faith, ainda com o vestido na mo. Mas eu no estou convencida.
A impacincia da tia Merleen enche a entrada da porta. Vamos chegar atrasadas por causa dela. Se no quiser vir que fique.
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 No podemos deix-la aqui sozinha  diz a tia Faith, tentando erguer o seu peso da cama.
A tia Merleen aproxima-se de mim enquanto enrola o belo cabelo preto.
 Veste j esse vestido  grita.
Fico to surpreendida que caio da cama. No me magoo, mas coxeio um pouco e a tia Faith aproxima-se para me confortar.
 No quero chegar atrasada  missa  diz a tia Merleen, saindo do quarto.
De repente receio que elas sejam as bruxas do meu pesadelo. Tenho medo que faam de mim uma sopa e a minha me nunca mais me encontre. Depois de me lavar, visto 
o vestido, rezando para que nenhum esprito me reconhea no seu vestido amarelo.
Quando a tia Faith me escova o cabelo com demasiada fora, comeo a chorar mas no digo nada. Gravo na memria todas as palavras duras que elas me dirigem, todas 
as malda-des que me fazem, para poder contar tudo  minha me quando ela voltar.
Sento-me no banco traseiro do grande carro azul. Os assentos cobertos de plstico colam-se s minhas pernas que ficam penduradas. Olho para o cu pela janela. A 
tia Merleen conduz como se a polcia estivesse a persegui-la. A tia Faith deixa escapar um pequeno grunhido sempre que passamos um sinal vermelho. A tia Merleen 
entra bruscamente no parque de gravilha da igreja, a primeira Igreja Baptista da Macednia, um edifcio simples de tijolo, ladeado de rvores e com a auto--estrada 
do outro lado. Grito quando caio do assento ao cho.
 Ests bem, querida?  pergunta a tia Faith.
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Digo que sim, mas sei que atia Merleen fez de propsito. /  Talvez a tia Faith te ensine a conduzir quando ela prpr aprender  diz a tia Merleen A tia Faith 
endireita o chapu, fingindo no ter ouvido o comentrio, antes de entrarmos pela porta dupla da igreja levando-me pela mo. Parecem no se dar conta de que no 
vou ficar com elas tempo suficiente para me poderem ensinar muitas coisas
Nunca tinha visto o interior de uma igreja Os meus olhos fotografam este novo lugar. Entramos numa sala pequena e escura com uma fonte de gua  direita e uma janela
 esquerda, onde a tia Faith pra para pagar os seus deveres religiosos. Ficamos  espera em frente a outro par de portas duplas Ouo o sussurrar de preces abafadas. 
De repente ouo cnticos que parecem brotar de um lugar profundo, rico e frtil, e msica to alegre que me apetece danar. A musica puxa por mim. os cnticos agarram-me 
pelos braos e abanam-me. Comeo a mexer os ps e as ancas at a tia Merleen me agarrar pela gola de folhos e me dizer ao ouvido: _ Aqui no te quero ver a meter 
o dedo no nariz. - Sinto o Corao a bater nos ouvidos quando dois pares de mos caladas com luvas brancas abrem as portas para nos deixarem entrar. Um homem de 
fato e uma mulher de uniforme branco como o da minha me sorriem para mim. Todas as pessoas se levantam. As minhas pernas nervosas seguem a passadeira vermelho-sangue 
at ao fundo da igreja, caminhamos entre duas filas de bancos de madeira repletos de mulheres mais velhas, Atadas, perfumadas e bem vestidas, com chapus elaborados 
e raparigas com o cabelo desfrisado a embalarem bebs que choram. Os poucos homens esto junto  parede, de p, Com uma mo enluvada de branco sobre o peito ou 
sentado num stio que mais tarde
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vim a saber ser o cantinho dos beatos, na parte da frente da igreja  direita. O canto dos beatos da esquerda estava cheio com as mes da igreja  mulheres j velhas 
com lenos brancos na cabea. A partir desse dia sentamo-nos sempre na terceira fila a contar da frente. No Domingo de Pscoa ou no Dia da Me a igreja est to 
cheia que tenho de me sentar no colo da tia Faith. O meu primeiro domingo na igreja no  desagradvel. Entretenho-me a ver a luz entrar pelos vitrais das janelas 
e brilhar incandescente at  passadeira vermelho-sangue.
A msica  bonita e quando o pregador se alonga, adormeo e babo o vestido da tia Faith at acordar com o barulho de algum que transborda de felicidade. Uma das 
mes da igreja est tomada pelo esprito. Com os olhos fechados, a velha senhora salta do seu lugar para dar testemunho, dizendo; men sem parar.
 O que  que aquela senhora tem?  pergunto baixinho  tia Faith.
 A irm Rose est feliz. Ela grita para que Deus a oua  responde a tia Faith a sussurrar, batendo-me na mo como para me acalmar. Todos os domingos a me da 
igreja recebe o esprito juntamente com outras senhoras. Se alguma delas desmaia, uma ajudante vestida de branco chega-lhe um frasquinho de sais ao nariz e os homens 
ajudam-na a ir para uma sala nas traseiras da igreja onde  abanada at estar livre do esprito. Um domingo tambm eu decido gritar. Grito simplesmente a Deus pela 
coisa que mais quero: Mam. Mam. Mam. men. Depois sento-me e volto a adormecer.
Depois do servio religioso  oferecida a mo direita da amizade. Toda a gente cumprimenta toda a gente enquanto sai da igreja. Mulheres jovens beliscam-me as bochechas 
e
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dizem-me que sou amorosa. As mais velhas soltam Ohs e Ahs, tocando-me na cabea e sussurrando palavras como vergonha e pena. Sento-me  sombra de uma rvore de 
ramos grossos a observar as senhoras que olham para mim e abanam a cabea em resposta ao que quer que seja que a tia Merleen est a dizer-lhes debaixo da rvore 
do parque de estacionamento. Uma rapariga mais velha do que eu, com um vestido verde-escuro grande de mais para ela, aproxima-se do lugar onde estou a remexer a 
terra com um pauzinho. Os seus caracis curtos e brilhantes emolduram-lhe o rosto como uma coroa. Sorri e um dente de ouro brilha do lado esquerdo da boca. Parece 
demasiado feliz para guardar esse sentimento s para ela.
 Tens uns olhos muito bonitos. Aposto que tambm tens um sorriso muito bonito  diz ela, sentando-se ao meu lado na raiz grossa da rvore.  Chamo-me Joanne. Queres 
vir comigo  loja dos doces?
Os seus grandes olhos redondos so de uma cor de caramelo estranha e as suas pestanas so espessas e longas. Gosto do cheiro dela, o cheiro da flor com que as abelhas 
sonham quando se lhes acaba o mel. Sem esperar pela resposta, agar-  ra-me na mo e levantamo-nos juntas. Quem dera que ela fosse a minha me e eu pudesse ir para 
casa com ela.
 A tua tia disse que no havia problema se viesses comigo. No  longe,  Ela fala com a mesma voz da minha me quando entrmos na Gergia, doce e infantil, com 
um modo de falar que lhe amacia as palavras na boca, que as torna estranhas, mas calmantes. Olho para o stio onde as minhas tias esto a falar e a tia Merleen 
acena-nos. Viro-me e sigo a Joanne pelo caminho de terra at s traseiras de uma casa de madeira a alguns metros da igreja. A Joanne fala e eu ouo.
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Diz-me que mora ao fundo da minha rua com a me, que fuma demasiado, e com a av, que escreve cartas s pessoas mortas, v televiso o dia todo e insulta o carteiro 
quando s lhe traz contas para pagar.  Eu tenho um namorado, mas a minha me  to severa que s me deixa v-lo na igreja. O Henry no  do tipo religioso  diz 
ela, rindo.
A Joanne bate duas vezes na porta velha. Aproxima-se um homem numa cadeira de rodas. Tem a cabea e as bochechas cheias de cabelos brancos. Sobre as suas calas 
verdes e largueironas da tropa est pousada uma grande caixa de madeira cheia de diferentes tipos de doces.
 Boa tarde  diz Joanne.  Dois de coco, por favor.
O Homem dos Doces d a Joanne duas barras de coco s riscas vermelhas, brancas e amarelas. Ela paga-lhe com uma nota de um dlar novinha em folha. Sem uma palavra 
tira o troco do bolso do peito da T-shirt do homem, branca e suja.
 Obrigada e fique com Deus  diz Joanne, enquanto descemos cuidadosamente os degraus.  Ele no fala. Foi ferido na guerra ou coisa parecida. Uma vez tentei entrevist--lo 
para um projecto da escola, mas ele nunca fala nada. Mas aceita o nosso dinheiro.
Caminhamos lentamente em direco ao parque de estacionamento onde a tia Merleen e a tia Faith esto sentadas no carro  nossa espera. Antes de chegarmos junto 
delas, a Joanne pra e olha para mim com muita afabilidade.
 Sabes danar?  pergunta-me. Digo que no com a cabea.
 No fiques triste  diz ela, enfiando os dentes na barra de coco.  Se parares de fazer essa cara vou perguntar s tuas tias se podes ir a minha casa e eu ensino-te.
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 Obrigada  digo eu, engolindo o rebuado pegajoso. Estou-lhe grata pela amabilidade e certa de que vai salvar-me das minhas tias, mas nunca mais torno a v-la. 
A tia Faith diz que ela fugiu para ir viver com o namorado, um soldado aquartelado algures na Flrida. Comeo a aperceber-me de que nada dura para sempre, nem mesmo 
a esperana.
Todos os domingos depois da missa vamos visitar a minha av ao Ressurrection Rest Home. Um cheiro forte a amonaco inunda o corredor comprido e luminoso ladeado 
de idosos amarrados a cadeiras de rodas. A av Gert chora quando nos v. Mas a sua dor  breve.
 O que  que me trouxeram?  Os dedos finos e secos da minha av percorrem o prato de comida como se fossem garras. Ela torce o nariz largo como se j soubesse. 
 Espero que no tenham voltado a trazer aquele po que sabe mais a cinza do que a milho. Quero sopa de rabo de boi como a minha me costumava fazer. Rabos com 
muita carne num molho espesso e o arroz  parte.
Retira a folha de alumnio e, assim que a desiluso se confirma, empurra o prato para o lado e cruza as mos sobre o colo.
 Aquela manta que vocs me deram, dei-a a uma senhora do fundo do corredor. Os vossos pontos ainda so irregulares e arranham. A l foleira que usam faz-me comicho. 
 Coa os braos cor de cinza como se sentisse a l na pele. Ponho-me atrs da tia Faith e tento perder o ouvido e o olfacto. Tento desaparecer, mas nada acontece.
 Eles tiveram de prender a pobre Mrs Donnell  cama,
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mas agora j est bem. No queria tomar mais remdios. Dizia que a punham a dormir todo o dia. Dorme tanto que at j podia estar morta. Estas enfermeiras querem 
manter-nos drogadas que nem viciados. Faith, ests grande como uma casa. Como queres tu arranjar marido com esse tamanho? A famlia da minha me era toda grande. 
A tia Dot pesava cerca de cento e quarenta quilos, no era?  Ela no pra de falar sozinha, continuando a picar a tia Merleen e a tia Faith como se fossem perus 
do Natal.
A minha av queixa-se das suas dores e achaques, da comida e da maldade das enfermeiras. Nunca fala comigo e nem sequer parece aperceber-se de que estou no quarto. 
Odeio-a desde o momento em que abre a boca, torcida para norte e para sul por uma trombose. Parece seca e vazia e cheira a urina e a p. A tia Faith empurra a cadeira 
de rodas para o jardim onde nos sentamos com outras famlias sem falar muito durante a hora que se segue. A av Gert, falando muito depressa e muito alto, comenta 
a quantidade de cabelos grisalhos que as irms tm. Sente prazer em perguntar se a Faith ainda no est grvida. Depois ri-se delas e chama-lhes irms como se 
isso fosse um insulto, e depois comea a chorar e pede-lhes que a levem com elas para casa, dizendo que podia limpar a casa e fazer um bom po de milho. Nunca pergunta 
pela minha me.
 Eu conheo os segredos do sexo. Posso ensinar-vos a arranjar um homem e a mant-lo, se me levarem para casa  diz num sussurro alto, com um sorriso manhoso.
A tia Faith chora no carro a caminho de casa. Depois de voltarmos, a tia Merleen fica ainda mais fria e distante, a jardinar no escuro. Deito-me na cama e sinto 
pena da minha me.
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Se eu tivesse uma me m e malcheirosa como a velha Gert Rainey tambm tinha fugido de casa e feito um beb que me amasse. Tenho fome de amor de me. Continuo  
espera que as palavras cresam no jardim do meu corao, palavras mgicas que tragam a minha me de volta.
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III

Pego fogo  cama e fico  porta a v-la arder. A chama do primeiro fsforo brilhou e depois morreu. O segundo fsforo ardeu e enrubesceu tudo diante dos meus olhos. 
Olho para as chamas e vejo as mos da minha me a estenderem-se na minha direco, e o n traioeiro que tenho na garganta cresce mais e mais  medida que me aproximo 
dela. Peguei fogo  cama. A cama onde sonho os sonhos da minha me e onde transpiro os pesadelos dela, fugindo dos seus inimigos. Fico  porta a v-la arder. Tenho 
saudades da minha me, mas no quero ter. Tenho sete anos e ontem  hoje, o amanh nunca chega.
Afastando-me para o lado, a tia Merleen agarra no jarro branco de porcelana cheio de gua, sempre pousado na mesinha de cabeceira, e apaga o fogo.
Ouo a tia Faith cantar: A minha cama. A minha linda cama, num doce soprano.
A tia Merleen limita-se a abanar a cabea ao som de humm, humm, humm, num baixo ressoante.
O fumo enche-me os ouvidos e forra-me a lngua de tristeza. O sonho incendirio enche-me os pulmes de ansiedade.
 El a est morta?  pergunto da porta, olhando para os minsculos ps descalos da tia Faith.
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 No, querida, ela no est morta  responde a tia Faith com tristeza.
A sua resposta esmaga toda a esperana contra a parede. Se ela estivesse morta, eu podia parar de esperar. Se ela estivesse morta, eu podia morrer tambm.
 Porque  que ela me abandonou?  Grito-lhes e bato com a cabea contra a esquina da porta vezes e vezes sem > conta at a tia Faith me puxar para ela, segurando-me 
a cabea contra a sua barriga. Ela deixa-me chorar e gritar durante
 dias a fio no seu avental macio e impregnado de fumo. No volto a perguntar pela minha me durante muito tempo, i Comeo a dormir numa manta no cho duro de 
madeira que  cheira a leo de limo. Deixo de sonhar e comeo a ver sombras por baixo da cama.
Um domingo, depois de termos ido visitar a av Gert, a tia Faith diz  tia Merleen para a deixar no hospital para ir visi-= tar uma das senhoras da igreja que 
est doente. Fico sozinha com a mulher tempestuosa. Entro atrs dela pela porta das traseiras. Tiro os meus sapatos de domingo, pretos e brilhantes, e arrumo-os 
na caixa ao p da porta. Calo uns sapatos de ballet cor-de-rosa que elas me pediram para usar em casa. \ Depois arrasto o banco at  banca da cozinha onde esfrego 
as mos com lquido de lavar a loia e uma escova dura, tal e qual como elas me ensinaram. Caminho pelo corredor estreito e alcatifado, repleto de poemas e oraes 
encaixilhadas, e sento-me no degrau debaixo das escadas da frente a olhar para a porta fechada, como se ela se fosse abrir a todo o momento e a minha me estivesse 
l com as mos nas ancas
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pronta para me levar dali para fora. Quase consigo ver a sua mo macia e suave a chamar-me para ela.  por isto que eu rezo todos os domingos; por isso, sento-me, 
espero e tenho esperana. Geralmente a tia Merleen ignora-me. Quando a ouo a resmungar, a dizer qualquer coisa sobre a cama, tento evitar as lgrimas, mas no 
consigo.
 Tens saudades dela, no tens?  A sua voz  um sussurro tempestuoso ao meu lado.
No posso falar, mas digo que sim com a cabea, limpando as lgrimas.
 Vem comigo.  O seu vociferar torna-se mais suave  medida que se afasta.
 Vem comigo. Eu no mordo.  Est a sorrir levemente. Sigo-a at  cozinha. Ela d-me um macaco azul, uma
camisola de flanela azul de rapaz e um par de sapatilhas pretas. Deixo escorregar o vestido amarelo domingueiro de boneca para o cho de linleo e entro num mundo 
masculino. Entre a Primavera e o Vero sujo as mos a olear parafusos do cortador de relva e a plantar roseiras. Os meus dedos ficam ensanguentados de fazer pssaros 
e peixes de madeira. Corro. Trepo s rvores. Atiro pedras a latas. Distraio-me da dor que me d vontade de me incendiar. Durante muitas noites durmo enfiada nas 
minhas novas roupas de rapaz, sonhando com a minha nova vida.
A tia Merleen  dura por fora, mas aprendo onde guarda a sua bondade. Ela no suporta ver dor da mesma forma que outras pessoas no suportam ver sangue. Eu guardo 
os seus segredos e ela guarda os meus.
No me deixa ir brincar com as outras crianas da vizinhana, pois pensa que so todos ladres e futuros criminosos.
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IAs crianas Que eu conheo na catequese moram demasiado longe e por isso brinco sozinha, fazendo jogos que recordo e outros que invento para passar o tempo. Leio 
os livros que a tia Faith me compra e invento histrias  frente do espelho. Sou Clepatra, Dalila, Maria Madalena e a Rainha do Sab, uma personagem aps outra 
ou todas ao mesmo tempo. Sou tambm Harriet Tubman no Underground Railroad e Frederck Douglass a fazer um discurso, Mighty Mouse e Batman.
para l dos trilhos do comboio fica o Bairro da Previdncia Da janela do meu quarto vejo as crianas a saltar  corda, a jogar  amarelinha na terra, a jogar  
bola e a andar de skate nos passeios esventrados. Imagino-me a entrar nos seus jogos, mas acabo sempre a brincar sozinha. Durante todo o Vero finjo ser rapaz, 
fao coisas de rapaz e uso roupas de rapaz.
A escola vem quebrar a rotina. No meu primeiro dia na escola de tijolo vermelho ao fundo da rua, insisto em usar roupa de rapaz.
__As meninas no usam calas na escola  diz pacientemente a tia Faith, esperando que eu mude de ideias.
__A tia Merleen anda sempre de calas  digo eu,
enfiando os polegares nas alas das minhas jardineiras como tinha visto fazer a tia Merleen quando fazia uma pausa na jardinagem para admirar as flores, os frutos 
e os vegetais que tinha cultivado.
- Isso  diferente.  a minha roupa de trabalho. Se eu
fosse para a escola levava roupa de escola.
A tia Merleen est a perder o seu tempo comigo e a ficar cansada, Pois comea a andar para trs e para a frente no
corredor, a tentar arranjar um bom argumento para me convencer. Tinha descoberto uma maneira de as amolecer e de levar a minha avante. Raramente diziam no ao que 
eu pedia. Pensava que, muito em breve, podia estar a conduzir o carro para ir buscar a minha me  estao.
 Por favor?  disse eu, dirigindo-lhes o olhar mais infeliz que consegui arranjar.
Ambas riram e baixaram os braos como se eu tivesse ganho este assalto.
 s tal e qual a tua me. Pega na camisola e na pasta e vamos embora antes que percas completamente o teu primeiro dia de aulas  diz a tia Merleen enquanto desce 
as escadas pesadamente. Trazia um vestido simples de l s pregas que nunca lhe tinha visto antes e os sapates que costuma calar quando vai trabalhar para o jardim. 
Leva-me de carro at  escola, ao fundo da rua, e acompanha-me  porta.
 Presta ateno ao que a professora diz e faz o melhor que puderes  diz ela, ao mesmo tempo que abre a porta da minha sala de aula. Acena  professora do cimo 
das escadas e larga-me a mo. Olho para as filas de rostos muito srios a olharem para mim. S um rosto sorri, uma menina com uma fita cor-de-rosa no cabelo. Quando 
olho para trs, a tia Merleen j se foi embora. Desde o momento em que deso as escadas em direco  grande sala de aula na cave, a professora recusa-se a ensinar-me, 
as crianas metem-se comigo e no querem brincar comigo por eu ser diferente. Nenhuma das outras meninas usa calas. Elas so todas umas bonecas, com os seus vestidinhos 
de folhos e fitas de cetim. Chamam-me nomes e atiram-me pedras. Brinco sozinha nas grades inventando letras de canes. Quero chorar, mas no choro. No dia seguinte
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levo um dos vestidos que a tia Faith remodelou para mim, um vestido  marinheira, azul-escuro com botes brancos a flutuar na frente de cima at abaixo. O vestido 
faz-me lembrar a minha me.
Fao amizade com uma menina que usa vestidos s flores e fitas esfarrapadas cor-de-rosa no longo cabelo escuro. Ela mora numa das casas do Bairro da Previdncia. 
O seu nome  Joyous, mas chamo-lhe Joy porque ela est sempre a rir, mesmo quando no h nada para rir. Ela tem a lngua presa e por isso chama-me Myra. Gosto da 
maneira como o diz. Na sua boca o meu nome ganha uma felicidade inesperada. Torna-mo-nos to amigas que quando encontramos na rua uma vara comprida, uma rvore 
ou um pneu velho, damos as mos e contornamo-lo juntas pelo mesmo lado. Sabemos que d azar quebrar uma vara. Deve sempre seguir-se a pessoa que amamos quando nos 
deparamos com um obstculo na estrada. Ela vem comigo para a casa grande e branca. Apercebo-me de que a tia Merleen no aprova, mas no diz nada, nem sequer boa-noite. 
A tia Faith  mais simptica. D-nos um prato de bolinhos polvilhados com acar em p e pequenos copos de leite. Tenho de mostrar  Joy onde deve deixar os sapatos 
e como calar os pequenos sapatinhos de ballet cor-de-rosa por cima das meias e esfregar as mos no lava-loia at ficarem limpas.
Brincamos no alpendre que d para o jardim. A Joy diz--me que , em parte, ndia. Pergunto-me qual ser essa parte. Digo-lhe que isso faz de ns irms, pois a minha 
me tem sangue cherokee. Digo-lhe que tambm tenho sangue espanhol. Para o provar ensino-lhe algumas palavras que a minha me me deu.
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Bonita... encaje... dulce... azul... msica... sueno...
Fazemos bonecas com as revistas francesas da tia Faith, garrafas de Coca-Cola, atacadores partidos, botes e cola. Enchemos as garrafas com limonada doce, colorimo-la 
com tinta, e bebemos at os nossos lbios ficarem da cor de rosas azuis e to macios como elas, quando ela me ensina a beijar. E beija-mo-nos durante horas, passam 
anos e os nossos lbios e os nossos olhos permanecem fechados, unidos. Descobrimos os nossos sentimentos secretos no meu quarto com a porta fechada. Gosto de tocar 
nos seus olhos fechados com os lbios, tocar com a lngua no seu umbigo e encostar as minhas bochechas s suas coxas suaves e gordas. Escondo lpis de cor e dedos 
nervosos entre as suas pernas para ver at onde podem ir. Escondemo-nos debaixo da cama para brincar s casinhas e no armrio para brincar aos mdicos. Quando brincamos 
ao Bingo do Cobertor, debaixo de cobertores postos em cima de cadeiras, eu passo a ser a Frankie e ela a Annette. Sou sempre eu quem manda.
Apesar de morar do outro lado da linha do comboio num pequeno bloco de apartamentos de cimento virados para um beco, mesmo em frente do cemitrio e ao lado do Bairro 
da Previdncia, a Joy continua a ser uma menina do Bairro da Previdncia. Diz ela que, quando chove, tm de pr panelas no cho para aparar a gua que cai do tecto. 
Mora numa casa de trs assoalhadas com a me, Nag, o padrasto, Jack, duas irms e um irmo. Ela e a irm mais velha, a Nicky, dormem no quarto numa cama grande 
e encovada, e o irmo, o Lark, num catre perto do fogo da cozinha. A me, o padrasto e a beb Eria, um nome tirado de uma personagem de telenovela, dormem no 
sof-cama da sala.  to diferente da casa onde eu
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vivo. A casa onde vivo tem um lugar para tudo e tudo no seu lugar. Cheira a flores frescas, leo de limo e  doura hmida da tia Faith. O apartamento onde vive 
a Joy est impregnado de cheiro a fritos, fraldas sujas e a cigarros Lucky Strike que a me fuma constantemente. s vezes queria que a Joy pudesse viver connosco. 
H espao suficiente para a famlia dela caber toda na casa grande e branca, mas acho que nem a tia Faith nem a tia Merleen iam gostar da ideia. A me dela diz-me 
para a tratar por Nag.
Um dia somos apanhadas a beijar-nos. A me dela apanha-nos e eu volto a ser uma rapariga como se tivesse sido uma borboleta que se depois se transformou numa rocha.
  uma abominao aos olhos de Deus  declara a me, e faz-nos rezar juntas de joelhos no cho sujo da cozinha. O choro da Eria rivaliza com a televiso, no quarto 
ao lado e com o volume no mximo, e confunde-se com as nossas oraes de perdo ditas em voz alta. A me dela l as escrituras para o ar pegajoso durante horas 
a fio. Depois leva--me a casa. Caminha trs passos  minha frente com uma camisa sem mangas de um verde desbotado que j teve um fecho mas que agora est presa 
com dois enormes alfinetes de ama. Os seus chinelos azuis batem no cho como se fossem mos molhadas a bater no pavimento. A noite cai sobre mim, fechando-me dentro 
dela. A me da Joy leva-me at  porta da casa grande e branca. Tenho tanto medo que comeo a chorar antes de a Nag poder falar. Mas ela fala. Conta tudo o que 
sabe e diz qual vai ser o meu futuro se eu no mudar as minhas atitudes perversas. A tia Merleen ouve-a da soleira da porta. Manda-me entrar para casa, mas no 
convida a Nag a passar alm dos degraus do alpendre.
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 No tem de se preocupar mais com ela. Ela no volta mais l. Obrigada por a ter trazido a casa. Boa noite, Miss Dyson.  A tia Merleen fecha-lhe a porta na cara. 
Ainda consigo ouvir a Nag a amaldioar-nos do alpendre na escurido.
 Ests atrasada para o jantar  diz a tia Merleen, dando grandes passos em direco  cozinha. Sigo-a, perguntando--me o que ir acontecer-me. Ela escolhe cuidadosamente 
cada palavra.  A tua tia Faith est no ensaio do coro. No precisa de saber o que se passou aqui.  Faz uma pausa, morde os lbios e diz:  Eu tinha-te dito para 
no brincares com aqueles midos do Bairro da Previdncia.
A tia Merleen comea a falar para uma lata de sopa que est a abrir para o meu jantar.  Devias esperar at seres mais velha para andares por a aos beijos. Beijar 
e todas essas coisas so para gente crescida.   esta a ltima vez que fala sobre o assunto. Um segredo que guardamos da tia Faith. Passo horas no meu quarto a 
pensar no dia em que vou ser mais velha, no dia em que vou voltar a transformar-me numa borboleta e comear novamente a beijar raparigas.
Eu e a minha amiga somos amigas h muito tempo depois disto, mas j no nos beijamos na boca nem procuramos lugares secretos para brincar no corpo uma da outra. 
No falamos desses tempos, mas nunca mais os esqueci. No consigo parar de pensar nos beijos. A minha amiga entusiasma-me a usar vestidos. Pareo adaptar-me, mas 
nunca consigo.
 Onde est a mala da minha me?  pergunto quando tenho tantas saudades dela que o peito me di. Os dois anos que esperei por ela parecem-me uma sentena de priso 
injusta.
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Tenho nove anos e sinto que fui muito paciente, mas tambm' me tornei muito curiosa. As respostas s minhas perguntas so'' to raras como as preces atendidas.
- Ns estamos no lugar dela  diz a tia Faith sem tirar os olhos da costura.
 Posso v-la? Talvez tenha deixado a morada  sento---me ao lado do piano puxando um fio do fundo da minha camisa.
 A tua me no tem morada certa, querida. Ela anda a' viajar,
 Tiveram notcias da minha me?  pergunto arregalando os olhos.  Quando  que ela me vem buscar?
 Na verdade no tivemos notcias dela  responde calmamente a tia Faith.
 O genro do Reverendo Wilson viu-a em Atlanta o ano* passado. Ela disse que te mandava chamar assim que pudesse  diz a tia Merleen monocordicamente da sua cadeira, 
trocando com a tia Faith um olhar que diz mais do que os meus-ouvidos podem ouvir. Depois vira ruidosamente as pginas do; jornal aberto  sua frente.
 O que est ela a fazer em Atlanta?  Continuo a puxar os fios, que caem na carpete construindo padres como o1 ninho de um pssaro.
 Acho que ele disse que ela estava a trabalhar e a preparar-se para ir para Memphis.  A tia Faith continua a manejar a agulha e o fio fazendo pequenos pontos 
que sero invisveis ao olhar.
 Ela vem buscar-te quando puder. Mas enquanto ela no vem estamos a sair-nos bem, no estamos? Porque  que no me ls uma das Histrias Simples de Langston Hughes?
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Ele escreve umas histrias engraadas, no escreve?  A tia! Merleen dobra rapidamente o jornal e comea a falar muito depressa como se estivesse a tentar tirar-me 
a minha me do pensamento, mas eu no deixo.
 Mas ela no deixou morada nenhuma? Eu podia escre-~ ver-lhe para os correios de Memphis. Ela deve estar  espera de uma carta minha. Posso ir ver  mala dela?
 No h nada naquela mala que te possa interessar. O que est l  para a tua me, quando ela voltar. Agora deixa---nos em paz.  O tom de voz da tia Merleen acerta-me 
como1 um murro no estmago. Apanho os fios da carpete e levo-os para o meu quarto para os enfiar na rede da janela como se" fossem constelaes no cu. No quero 
que elas me vejam chorar.
Quero procurar a mala, mas nunca me deixam sozinha-em casa. Desconfio que a guardam no quarto que eu s vi da entrada, perto da casa de banho.  um quarto grande 
com' duas camas iguais cobertas com colchas de padres coloridos. As camas esto separadas por uma pequena mesa de cabecei--ra. Tem tambm um toucador de madeira 
escura por baixo de um espelho fumado, um cabide a condizer, com um lugar para a tia Faith pendurar os seus chapus de domingo, e uma cmoda alta com gavetas. A 
caadeira da tia Merleen est dei--tada como um soldado adormecido debaixo da cama. Est1 tudo no seu lugar. H lugar para tudo menos para mim. Estou do lado de 
fora com o nariz colado  janela  espera de algo que me pertence.
Passam os Veres ndios e os dias de co. As frias e os
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dias de anos passam  mesma velocidade do crescer da relva. Nem uma palavra dela. Estou to zangada com a minha me por me ter deixado que nem tenho a certeza de 
conseguir perdoar-lhe. A vida  to difcil sem ela. Nas reunies da Associao de Pais tenho de ficar sentada ao lado da tia Faith, que a minha professora pensa 
ser minha av. No Dia da Me as minhas tias Faith e Merleen levam para a igreja flores brancas presas aos vestidos, porque a me delas est morta. Sou obrigada 
a levar uma flor vermelha, porque a minha me est viva, mas eu sinto-me como se ela estivesse morta. Gostava de usar uma rosa de cetim cor-de-rosa, porque a minha
me est desaparecida.
Na escola as outras crianas fazem troa de mim.
 Onde est a tua me?  perguntam, como se isso lhes interessasse.
Sem esperarem pela resposta, algumas pem-se a especular.
 Se calhar est presa.  E desatam todas a rir, todas menos o Dwight James cuja me est presa por ter matado o pai, porque ele lhe bateu mais do que ela podia 
aguentar.
 Ou ento est na segurana social  espera de conseguir uma ajudinha do governo.  O riso delas magoa-me como se fosse um enxame de abelhas.
Antes de pensar em alguma coisa inteligente para dizer, outra rapariga diz:  Aposto que ela nem sequer tem me.  Aprendi a fingir-me surda a estes insultos. Num 
piscar de olhos posso encher os meus ouvidos de cimento. Se me concentrar na cor azul, s vezes consigo ouvir msica na minha cabea... doce... azul... msica... 
O cu  tudo o que preciso ou a pgina dum livro ou a barra de uma saia, desde que seja azul.
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Durante o tempo que tenho de estar na biblioteca peo licena para ir  casa de banho. A bibliotecria, a Miss Belton,  uma graciosa senhora de meia-idade que 
usa o cabelo apanhado em duas tranas pretas amarradas no topo da cabea como duas cobras enroscadas. Ela gosta de mim e por isso no tenho de implorar como os 
outros alunos. Acena-me  sada da sala e a sua mo acaricia o ar to delicadamente como se fosse um leno de senhora. O som dos meus passos ecoa no corredor comprido 
e largo. A casa de banho das raparigas, na cave, ao fundo de dois lanos de escada,  uma sala grande e aberta com uma fila de sanitas brancas de porcelana viradas 
para uma fila de lavatrios brancos e espelhos quadrados com molduras cromadas. Estou a lavar as mos no lavatrio. Quando olho para cima, vejo duas raparigas mais 
velhas a entrar. A Sonya  a pior rapariga da escola.  tambm a maior. J fez duas vezes a quarta classe. Acho que foi isso que a tornou to m. A Victoria, a 
sua sombra, est com ela. A Victoria faz tudo o que a Sonya manda. Uma vez bateram numa rapariga depois da escola e tiraram-lhe o dinheiro do almoo todos os dias 
durante um ms antes de a me dela ter feito queixa ao director. A Sonya foi mandada para casa por uma semana. Quando voltou, tinha um brao partido e diziam que 
tinha sido o irmo. Voltou ainda pior do que era. Quando me vem comeam a rir. Continuo a esfregar as mos com a suave barra 'de sabonete cor-de-laranja que cheira 
a remdio. A Sonya comea a meter-se comigo.
 Olha-me pra esta a olhar pr espelho como se fosse uma beldade  diz ela num tom de voz duro e acusador.
Depois  a vez da Victoria.  Achas-te uma grande coisa, no ? Achas-te muito gira.                            ,    -,-
 E com um nome estpido como Mariah Santos deves ser mexicana ou outra coisa parecida.
 s mesmo uma santinha mexicana de ps de barro.  por isso que te achas to boa?
Pisco os olhos duas vezes, mas estou to furiosa que consigo ouvi-las atravs do cimento que me preenche os ouvidos. -Olho em volta, mas no consigo encontrar a 
cor azul. At o (cu est cinzento. No sei o que dizer. A Victoria empurra-me ,contra o lavatrio. Estou quase a atirar-lhe sabo para os olhos, quando a Joy entra. 
A sua saia desenha crculos no ar quando ela, num rodopio, se interpe entre mim e elas, de mos nas ancas como se fosse o Marshall Dillon em Gunsmoke. Como se 
fosse um assassino contratado em Wild, Wild West.
 Esto a meter-se com a minha amiga?  pergunta, empertigando-se toda como se tivesse dois metros de altura em vez de um metro e cinquenta.
 O que  que tu tens com isso?  pergunta a Sonya, (dando um passo em frente.
 Se vocs esto a meter-se com a minha amiga, esto a meter-se comigo, e se se meterem comigo a minha irm Nicky d-vos cabo da sade. A Joy atira o cabelo para 
trs dos ombros e mantm-se firme na mesma posio. A vida move-se em cmara lenta. A Sonya desiste. A Nicky est sempre metida em sarilhos por andar  pancada 
no liceu e corre o boato de que ela mordeu uma rapariga de tal maneira que ainda podem ver-se as marcas dos dentes na cara dela.
 Ningum se est a meter contigo nem com essa tua amiguinha convencida. Anda Vic, vamos embora. Isto aqui cheira mal  diz a Sonya, despedindo-se de ns com um 
aceno de mo ao sair da casa de banho.
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Quando elas saem volto a respirar e largo o lavatrio. Estou aliviada por no ter sido obrigada a lutar com a maior rapariga da escola. Nem sequer sei lutar. Nunca 
ningum me ensinou. At quela altura s tinha precisado de me defender com palavras. No sei o que dizer. Quero beij-la, mas ela, toda recatada, afasta-se de 
mim.
 No posso voltar a fazer isso. Vou meter-me em sarilhos. A minha me diz que vamos para o inferno metidas numa cesta.  Encosta-se no lavatrio e sorri.
 Desculpa. No quero que vs para o inferno.  Mantenho-me estranhamente no centro da casa de banho a morder o dedo, no me importando se vou para o inferno ou 
no.
 No faz mal. Continuo a ser tua amiga at ao fim. s a minha maior amiga, mas no podes deixar que as pessoas te pisem. No vou aparecer sempre como o Batman 
mesmo a tempo de te salvar a pele. Se algum se meter contigo pega num tijolo, numa pedra ou na maior coisa que encontrares e antes de elas poderem pestanejar d 
cabo do focinho  maior e as outras deixam-te logo em paz.  A seguir ensina-me a usar uma garrafa de Coca-Cola vazia como arma. Antes de sairmos da casa de banho 
pisca-me o olho. Pisco-lhe tambm o meu tal como ela me tinha ensinado h dois Veres atrs.
Quando uma rapariga muito maior que eu diz:  Santos, eu vi a tua mezinha a fazer biscates na bomba de gasolina!, eu digo: Quero ver-te repetir isso quando 
eu voltar!. Vou at  casa grande e branca e encho uma garrafa de Coca-Cola com gua. Ponho AIka-Seltzer na gua e deixo borbulhar. Saio de casa e grito-lhe: Repete 
l isso agora! Queimo-te o couro com este cido. Viras churrasco. E atiro-lhe com a garrafa, que voa pelo ar e aterra a poucos centmetros dos tnis sujos
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da rapariga. E ela foge a gritar: Ests doida, Santos. Doida varrida. Deviam internar-te no manicmio. A partir da nunca mais ningum se meteu comigo. Deixaram-me 
em paz. Os boatos espalharam-se rapidamente: A Santos est louca. Com-pletamente passada.
Os professores recompensam o meu bom comportamento e as minhas excelentes notas, cinco a tudo, e eu continuo a servir de exemplo aos outros alunos, mas isso no 
me traz grandes amigos. A Miss Belton deixa-me levar livros sobre o Mxico. Eu sei que no devo estragar os livros da biblioteca, mas corto um dos mapas coloridos 
para poder dormir com ele debaixo da almofada. Cada noite sonho com uma cidade ou vila mexicana diferente, e nesses sonhos passeio por ruas e estradas poeirentas 
e sem pavimento,  procura do meu pai, esperando que ele tenha encontrado a minha me e estejam os dois  espera que eu v ter com eles para, todos juntos, podermos 
pintar o cu de azul.
Sinto a falta da minha amiga. O seu riso fcil e os seus jogos. A Neicey s brinca comigo porque a minha tia lhe d lies de piano e tem de esperar que o pai a 
venha buscar no seu txi. No conversamos muito. Ela  realmente convencida. Vive numa casa na Randall Estates e frequenta a escola catlica apesar de a sua famlia 
ser baptista. Depois das lies de piano aos sbados de manh jogamos ao Monoplio ou s damas at ela ouvir o pai tocar  campainha. Nem se d ao trabalho de se 
despedir quando ele chega, limita-se a passar as mos pelo seu vestido de veludo como se se tivesse sujado a brincar comigo. As minhas tias pensam que ela  uma 
menina amorosa, mas uma rapariga que faz batota a jogar s damas s demonstra falta de classe, seja qual for a escola em que ande.
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IV

Ns no somos realmente irms  diz a tia Merleen casualmente um domingo  noite quando estamos sentadas no alpendre das traseiras a fazer mochos em blocos de madeira 
aromtica. Eu olho-a pelo canto do olho e espero. Mantenho a cabea baixa, tal como ela, concentrando-me nas asas abertas do mocho.
 Mas somos parentes, primas. Os nossos pais eram irmos. Trabalharam juntos nos caminhos de ferro. Morvamos uma ao lado da outra desde que nascemos.
A faca escorrega e corta-me o polegar. Levo o dedo  boca e chupo-o.
 Ainda somos parentes da av Gert? Ela ainda  minha av? No gosto nem nunca vou gostar daquela velha m. Quem me dera no ter nenhum sangue dela misturado no 
meu.
 Ela  que  mesmo irm da Faith. J ests a ficar cres-cidinha e eu disse  Faith que estava na hora de ficares a saber algumas coisas sobre a famlia.  Hesita, 
olhando-me para tentar avaliar o que pode dizer-me. Tenho dez anos e estou grande para a idade. J no me servem dois pares de jardineiras nem a minha camisa de 
cowboy preferida. A tia
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Merleen volta os olhos para o mocho e comea a contar-lhe tudo. Quase tudo.
 Eu e a Faith sempre fomos grandes amigas. Foi a Gert que tentou destruir a nossa amizade. Sempre teve inveja da beleza da Faith. Os rapazes queriam sempre falar 
com a Faith e no ligavam a mais ningum. Bonita por dentro e por fora. Uma Pscoa, a Gert roubou meia dzia de fsforos e uns cigarros sem filtro e obrigou-nos 
a v-la representar como se fosse uma estrela de cinema. ramos adolescentes, mas sabamos que os nossos pais nos esfolavam vivas se nos apanhassem a fumar cigarros 
roubados. Ouvimos barulho e a Gert atirou o cigarro aceso para debaixo da cama. Pegou fogo a alguns jornais e as chamas devoraram as cortinas onde a Faith estava 
escondida. A Faith iluminou-se como uma rvore de Natal. Gritou e chorou, mas a Gert limitou-se a olhar para ela da porta e fugiu do quarto a rir. Atirei uma colcha 
para cima dela e, no sei como, consegui tir-la da casa. Conseguimos sair todas vivas, mas a casa ardeu totalmente, no sobrou nada excepto a chamin e um punhado 
de cinzas. A famlia delas mudou-se para a minha casa. E desde a somos irms.
No sei como  que as chamas no lhe deixaram cicatrizes no rosto, nas mos ou nos ps, mas a verdade  que no deixaram. Ela parece bem exteriormente, mas aquela 
mulher : pequenina e corajosa vive atormentada pela dor. Por causa de tudo isso, de ter ficado desfigurada como ficou, pensou que nunca viria a casar-se; eu sabia 
que eu no viria. Vivemos juntas h quarenta e sete anos. s vezes amo a Faith como uma irm, mas a maioria das vezes... a maioria das vezes amo-a apenas.
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As lgrimas parecem acumular-se e depois abandonam os seus olhos. Ela fecha o canivete e guarda o resto da histria.
Depois de a Tia Merleen me ter contado a histria, sinto que j nos compreendemos. Ambas sabemos algo acerca da relao entre o amor e a dor. Ela comea a ensinar-me 
a conduzir em segredo. Aprendo depressa. A conduo tira-me a minha me do esprito durante algum tempo. Finjo que vou estar  espera dela na estao quando o seu 
comboio passar outra vez por aqui. Tenho a certeza disso e estarei l  sua espera.
A tia Faith  uma professora incansvel. Mesmo quando no consigo concentrar-me e estou irritada, ela espera pacientemente que o mau humor passe antes de continuar 
a lio. s vezes sentamo-nos numa poa de silncio espesso, no banco da sala de msica, depois de ter dado erros atrs de erros.
 Mariah, hoje ests a pr  prova a minha pacincia.  s vezes odeio-a por tentar ser a minha me, mas principalmente hoje. Dou erros de propsito s para a irritar. 
Pela maneira como respira sei que est a contar at vinte. Sentamo--nos em silncio na sala, com as portadas fechadas por causa da luz do sol. Sinto-me m e apesar 
de achar que sei a resposta  pergunta pergunto na mesma.
 Porque  que nunca casou e teve filhos seus?  pergunto, entrelaando as mos no colo.
Ela deixa cair na carpete a rgua amarela que usa para marcar os tempos e, depois, segue o som da minha voz. Os seus olhos detm-se nos meus e depois tornam-se 
tristes e distantes.
- Eu j tive dezassete anos. O meu rosto era jovem e
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bonito e sobre o meu corpo bem torneado tinha o meu vestido de Vero favorito cor de alfazema. Ria o tempo todo e tocava piano s porque me dava prazer. Conheci 
o Lincoln, pouco antes de ele ser recrutado, numa aula de francs dada por uma velha senhora crioula de Nova Orlees. Ele tocava aquele violoncelo que est ali.
E aponta para a caixa escura e alta, em forma de mulher, encostada  parede a ouvir-nos.
 Tinha alma de poeta. Conseguia encontrar msica em quase todos os sons. Estava sempre a trautear, a tamborilar com os dedos nos tampos das mesas e a compor as 
mais belas melodias soul. O Lincoln tinha um grande amor pela msica e pela poesia. Era um homem muito sensvel. Muitas vezes me questionei sobre como seria a minha 
vida se ele tivesse voltado ou se o tivssemos encontrado. Depois da guerra escreveu--me uma carta de Frana.
A tia Faith tira uma frgil folha de papel do interior do seu livro de hinos e l-ma em voz alta.

Faith, meu tesouro:
Decidi continuar os meus estudos aqui em Frana e formei um trio. Vou continuar neste porto de abrigo pois aqui  seguro ser-se um negro educado e inteligente. 
Ainda no fui chamado de preto nem maltratado. Devias considerar a possibilidade de teres uma vida livre num pas estrangeiro. Espero ver--te novamente. Sinto saudades 
da ternura do teu doce encanto sulista.   
Sinceramente teu
Lincoln A. Porter

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 Ouvimos dizer que casou com uma mulher branca e que se mudaram para a Sua. Mas no podia acreditar nisso. Ele odiava os brancos. Ela devia ter a pele clara. 
Ele gostava de raparigas magras de pele clara e cabelos longos; dizia que fariam bebs bonitos.
Tento com toda a fora imaginar a tia Faith bonita e magra num vestido de Vero cor de alfazema. Pergunto-me se ela pensa que a minha pele clara e o meu cabelo 
forte so bonitos.
 Ele era de pele clara com um cabelo forte e ondulado. No digas  tia Merleen que eu te falei no Lincoln. Isso entristece-a sempre. Tnhamos o hbito de amar 
as mesmas coisas.
Fez uma pausa para me mostrar uma fotografia de um jovem sorridente posando com o brao  volta do brao de um violoncelo.
 Podamos ter feito bebs to lindos, mas a Merleen dizia que ele era bonito de mais para marido.
Acho que sa vencedora, porque a fiz chorar, mas ela limita-se a continuar a lio com a mesma determinao de me tornar civilizada atravs da msica.
Abro a mala poeirenta e toco na madeira polida, dourada e envernizada, acariciando as curvas e puxando as cordas. Encontro o arco e tiro o violoncelo do seu lar. 
Nunca vi nada mais belo. Desejo-o desesperadamente. Aperto-o contra o corao e toco. A tia Faith deixa-me ficar com o violoncelo no meu quarto e puxo-lhe o lustro 
todos os dias.
Quando j sou mais crescida, a tia Faith contrata o Mr. Giovanni para me dar lies. O Mr. Giovanni  um senhor
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velho e elegante que usa lao com fatos escuros e brilhantes e cheira a queijo.  um judeu italiano de Nova Jrsia.  um velho professor da escola de msica onde 
a tia Faith estudou. Senta-se perto de mim com os olhos fechados, flutuando ao som de outra msica enquanto toco. Faz barulhos com a garganta quando est satisfeito 
e estala a lngua quando est descontente. Geralmente nunca fica satisfeito quando toco. Os meus dedos so desastrados e eu sou impaciente. Quero tocar como a msica 
no rdio, suave, triste e cheia de sentimento. Mas a minha msica soa como se eu estivesse a atirar pedras para a lama.
 Pareces uma menina to triste. O que  que tens para ser to triste?
Tenho vergonha dele e no digo nada. No tenho palavras para descrever a solido profunda que sinto. Ele no insiste. s vezes o Mr. Giovanni conta-me contos de 
fadas no fim da aula. O som da sua voz  como msica. Fecho os meus olhos para ouvir o partir de ossos de crianas a serem comidas por gigantes alemes, ou o sibilar 
de uma cobra gigante pronta a esmagar um ladro de ovos na ndia, ou o crepitar de velhas malvadas que transformam meninas ms em troncos e depois os atiram para 
o fogo para se aquecerem.
 Tem alguma filha?  pergunto, imaginando que ele conta estas histrias a outras crianas.
 Que idade tens?  diz ele, respondendo-me com outra pergunta.
- Onze.
 O aniversrio da minha Anna  na prxima semana. Ela tocava violino.                                     
   bonita?  Sinto inveja.
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 Era. Tocava como o Paganini, mas ainda melhor.
E o Mr. Giovanni conta-me a histria da sua vida.  triste, cheia de perdas e arrependimento. A maior parte da sua famlia foi morta durante a guerra.
 A Guiditta, o tio Pepi, o Benjamino, a Anna. Todos mortos  diz ele.
Recorda a cor dos seus olhos, a forma das suas mos, o som da sua felicidade. Tem nmeros tatuados no brao e cicatrizes profundas que ningum pode ver. Eu j tinha 
visto fotografias da guerra e lido histrias. Percebo que ele deixa de fora o som dos ossos a partir, o cheiro a carne queimada e a viso de flocos delicados de 
cinza humana nos cus escuros e cinzentos. Durante muitos anos disse que no queria viver, mas tinha de contar a histria e tinha msica para tocar.
 Se vais viver no deixes os outros ou tu mesma passar fome - diz-me com a voz da experincia, tocando-me no ombro de forma estranha.
Eu no passo fome. Como at muito. Tento encher o buraco que a minha me deixou aberto. Mas todos os motivos que me costumavam fazer chorar parecem mesquinhos depois 
de ter ouvido a histria do Mr. Giovanni. Todos menos a falta da minha me.            ;
A tia Merleen diz que o Judeuzinho  to bonito como uma menina. O seu verdadeiro nome  Samson, mas todos o tratam por Judeuzinho, pois nasceu na Alemanha e quando 
fala parece que tem a lngua cortada a meio. Uma vez, quando o Mr. Giovanni me estava a dar uma lio de violoncelo, o Judeuzinho chegou mais cedo para uma aula 
de piano. Mete a
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cabea na sala e comea a fazer-me caretas. Comea a flutuar na msica tal como o Mr. Giovanni. Fico irritada, pois penso que ele est a fazer troa do Sr. Giovanni.
 Pra, Judeuzinho. Isso no tem graa nenhuma digo eu, ameaando-o com o punho fechado.
Ele foge como um ladro em direco  cozinha.
 O que  que lhe chamaste?  pergunta o Mr. Giovanni, virando-se para mim.
Judeuzinho.  a alcunha dele.  Coo com o arco uma picada de mosquito no calcanhar.
 Porque  que lhe chamam isso?
 Porque tem uma maneira de falar esquisita. Ele nasceu no estrangeiro, na Alemanha.
O Mr. Giovanni olha para mim com os olhos muito tristes.
 Os Alemes chamavam-nos nomes e matavam os Judeus por eles serem diferentes. L por falares bem isso no te d o direito de fazer troa dele. Compreendes? Eu 
sou judeu e isso  uma coisa boa. Tu s de cor e  uma coisa igualmente boa.
 Desculpe. No disse por mal. Todos o tratam assim.  Toro-me desconfortavelmente sob o seu olhar.
 No imites os outros em tudo  diz ele e eu olho para os nmeros tatuados no seu brao. O Mr. Giovanni conta-me mais uma das suas histrias e depois d-me um 
pequeno pio azul de madeira. Nunca mais chamei o Samson pela alcunha e no tarda ele estar a falar como as outras pessoas de cor da Gergia, perdendo o fim das 
palavras e inventando outras novas.
Pouco depois de o Mr. Giovanni me levar a um concerto de msica clssica no novo auditrio integrado, deixa de me dar lies de violoncelo. A tia Faith diz que 
ele morreu durante
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o sono. No estou triste. Sei que ele est no cu a contar contos de fadas  filha.
Sem lies, continuo a tocar violoncelo procurando os meus prprios sons. Bato-lhe do lado direito, usando-o como se fosse um tambor e como se estivesse em transe. 
Improviso de acordo com a disposio do momento, movendo os dedos para cima e para baixo ao longo das cordas a todo o comprimento do seu brao e passando o arco 
pela reentrncia da sua cintura horas a fio. A princpio parece que estou a serrar madeira, mas depois comeo a sentir a msica nos meus ossos. s vezes consigo 
fazer o violoncelo cantar. Outras fao-o chorar. O meu violoncelo produz os sons mais belos de todos. Eu sei que  um violoncelo, mas para mim  uma mulher, tem 
corpo e voz de mulher. Por isso, ponho-lhe o nome de Rosemary. E passa a ser a minha companhia, a minha melhor amiga. s vezes adormeo a apertar a Rosemary nos 
meus braos.
A minha cabea est pousada no cimo do corpo da Rosemary. Pus um lao como o do Mr. Giovanni. As minhas pernas esto pousadas por baixo das suas ancas. Os meus 
ps esto descalos e tatuados com nmeros azuis. Os meus braos esto ligados  madeira da sua cintura. Formamos uma coisa s, um todo inseparvel. A minha mo 
esquerda toca uma cano de embalar, os dedos puxam as cordas at elas gemerem, e a outra mo escorrega pelo seu corpo para cima e para baixo at ficarmos as duas 
a pingar. Fazer amor com a Rosemary  como fazer amor comigo prpria, delicioso e proibido.
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V

No tenho bem a certeza do que  que estou  procura. A princpio tenho medo que as minhas tias me apanhem a mexer nas coisas delas, mas quando encontro o meu tesouro, 
esqueo a preocupao e o medo. No tinha visto a mala desde que cheguei a esta casa. Desde o dia em que a minha me me deixou com elas. Encontro-a escondida no 
fundo do armrio trancado da tia Faith, debaixo de vrias caixas de sapatos. As chaves de todos os stios trancados foram deixadas na mesa da cozinha. Elas foram 
para a igreja sem mim. Disse--lhes que estava doente, vomitando no cho da cozinha para ser mais convincente e poder ficar em casa. Estou farta, farta de ir  igreja 
todos os domingos. Farta de a av Gert, aquela velha m, me tratar como uma barata que ela se recusa a ver durante as visitas que lhe fazemos ao lar.
A primeira pgina azul-plido do dirio da minha me diz, A curiosidade matou o gato, mas a satisfao trouxe-o de volta. Matisse manchou-me com paixo. De dois 
de Janeiro a quinze de Setembro as pginas esto rasgadas. A entrada seguinte  no dia vinte e dois de Setembro, o dia dos meus anos. Aqui a minha me escreveu: 
Fartei-me de gritar, mas esta noite tenho um anjo nos braos. As pginas restantes
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esto vazias. Degusto cada palavra que ela escreveu, saboreando a memria da sua dor to doce. Leio entre cada linha deixada em branco, procurando as pontas dos 
seus dedos, uma lgrima, o seu cheiro, uma gota de sangue.
Sento-me no cho do quarto das minhas tias. Desdobro duas camisas de cetim cor-de-rosa, uma liga preta, um par de meias pretas e uma fotografia desfocada de mim 
e da minha me deitadas na cama que costumvamos partilhar. Tem o brao  minha volta. As pernas esto nuas e cruzadas. Veste uma combinao de cetim. Sorri, olhando 
directamente para a objectiva, com um copo de usque erguido num brinde. Lembro-me de estar deitada no cobertor de l escura que picava. Lembro-me de tudo to claramente. 
A minha me tinha convidado o amigo mdico para o nosso apartamento.
        Sou canadiano, como o bacon  disse ele e todos rimos e fizemos rudos roufenhos, como os porcos. Ele era alto, magro e plido. As suas mos eram macias 
e hmidas 
quando me tacteava o rosto  procura de traos da minha me. Ele movia-se como um fantasma atravs dos nossos pequenos quartos. Eu deitava-me na cama, com a porta 
aberta, e fingia dormir. Ele e a minha me sentavam-se  mesa da cozinha a beber de uma grande garrafa de usque. A minha me comeou a danar pelo apartamento, 
seguida pelo mdico. O mdico pediu-lhe para tirar o uniforme. Ela desabotoou trs botes antes de entrar no quarto a danar e cair na cama comigo. Ele tirou a 
mquina e comeou a tirar fotografias de ns duas, mas principalmente da minha me com a sua combinao de cetim cor-de-rosa. Nessa noite a minha me riu-se muito, 
mas tambm chorou quando o mdico se foi embora. Pergunto-me se estar com o mdico agora.
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Na mala esto trs cartas do meu pai, Matisse Santos. So dirigidas  minha me no Kansas. Os sobrescritos azuis-claros so idnticos aos belos selos azuis-escuros 
com bordas vermelhas do Mxico. As cartas esto atadas com uma fita preta brilhante. Dentro do primeiro sobrescrito est uma pequena pintura, feita num quadrado 
de madeira embrulhado num guardanapo de papel, de uma mulher nua cor de tangerina. A mulher parece-se com a minha me. Nesse momento comeo a sentir a falta dela 
e a sofrer pelo meu pai. Na parte de trs do quadro est escrito um poema numa letra firme, em duas lnguas:                       

Um dia o poeta Guilln escreveu:                      .

Un rio de promesas                                                              
Baja de tus cabellos...                                                           

Um rio de promessas
Cai dos teus cabelos...                                                  

A voz do meu pai persegue-me e tortura-me o corao. A segunda carta  para mim:

1 de Outubro
Angelita Mariah,
O teu pai est no Mxico a pintar quadros e casas perto do oceano. A tua me prometeu trazer-te aqui para comearmos a conhecer-nos. Diz que andas na escola e que 
j sabes ler. Quem me dera ter
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podido ensinar-te. Talvez te possa ensinar outras coisas. Mando-te uma fotografia para que fiques a conhecer-me. Mando-te tambm todo o meu amor. 
Havemos de nos juntar um dia.
Teu pai, Matisse Santos

 como se o meu pai estivesse a falar comigo, como se o tempo no tivesse passado e ele tivesse renascido da terra com a to esperada promessa de unio. Uma pequena 
fotografia cai das dobras da carta para o meu colo. A fotografia de um homem sem camisa, de cales de praia, em frente ao oceano. Ele sorri.  belo. Procuro vestgios 
de tinta azul no seu corpo, qualquer vestgio de mim. O ltimo sobrescrito est cheio de cinzas. Sou surpreendida por um maremoto de
lgrimas que se acumulam nos meus olhos e depois se entornam sobre a frente do vestido. Sinto-me como se tivesse perdido uma vida inteira e estivesse a preparar-me 
para uma nova. At este momento nunca tinha a certeza se o meu 
era de carne e osso ou simplesmente um produto da imaginao complicada de minha me. Tenho nas minhas mos provas da sua existncia e do seu amor por mim. Quero 
estar com ele mais do que tudo. 
Tocar a Rosemary acalma-me um pouco enquanto espero pelas minhas tias na sala. O violoncelo e eu fazemos o som das rvores a cair, do vento a uivar, de ps descalos 
por cima de vidro partido. Enchemos o ar com o nosso luto.
Ainda estou de pijama quando as minhas tias chegam a casa. A mala verde jaz aberta ao meu lado. A tia Faith est com um p dentro da porta e a chamar por mim quando 
me v. Medimo-nos uma  outra como se fssemos lutadores num
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combate. A tia Merleen quase esbarra nela. Entreolhamo-nos para ver quem pestaneja primeiro. A tia Merleen costumava dizer que Um co grande uivar e faz o que 
diz, pois comea a falar primeiro, tentando defender-se, usando desculpas para tentar justificar-se por ter mantido a minha vida escondida de mim mesma.
 No tinhas o direito de mexer nas nossas coisas...
 O meu pai ainda me escreve cartas?  Aperto os sobrescritos azuis contra o peito.
 Isso foi h anos. Desde que ests connosco nunca mais te escreveu.  A tia Merleen evita os meus olhos.
 Ele telefonou para c uma ou duas vezes  admite a tia Faith.
 Porque  que no me disseram nada?  pergunto calmamente apesar de estar toda a tremer por dentro.
 No havia nada a dizer. Ele s queria saber se estavas bem. Ests bem aqui connosco.  A tia Faith brinca com o cinto.
 Pensvamos que ela estivesse quase a voltar.  A tia Merleen defende-se.
 No tnhamos o direito.  A voz da tia Faith soa fraca, quase assustada.
Os meus olhos abrem caminho at  porta da entrada. Imagino-me a passar por elas a correr em direco  rua e a encontrar a estrada que me leva  minha vida verdadeira 
com o meu novo pai que jurou o seu amor por mim. Mas em vez disso continuo sentada no sof com a Rosemary entre as pernas. Enrolo os braos  volta do seu corpo 
e encosto o rosto  sua superfcie fresca e macia. Fecho os olhos para o caso de ter de ir para outro lado, para o caso de o que elas me disserem ser
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duro de mais para suportar. Finalmente, e com relutncia, as vozes sobrepem-se e a tia Faith e a tia Merleen comeam a cantar.
 A tua me...  comea a Faith com os lbios a tremer.  Custa-me dizer-te isto.
 A tua me  uma drogada  diz a tia Merleen.
 Estava metida em sarilhos...  a Faith tenta acabar a histria.  Quando veio ter connosco, estava desfeita por causa de um mdico casado. Estava grvida dele. 
Quando ele disse  tua me que a ia deixar, ela ficou histrica. Ento o mdico comeou a dar-lhe drogas para a acalmar. E quando a deixou de vez ela comeou a 
roubar drogas do hospital e eles ameaaram tirar-te de junto dela. Ela implorou-lhes que a deixassem trazer-te para junto de ns.
As minhas entranhas estremecem. Percebo pelas suas hesitaes que entre cada nova declarao h ainda mais segredos que tenta desesperadamente esconder. Tornou-se 
numa tira de renda desbotada pela qual posso ver tudo.
 Ela no queria ser encontrada. Para te dizer a verdade, querida, telefonou para c umas vezes, mas nem parecia ser ela mesma. Dissemos-lhe que ests muito bem. 
Dissemos-lhe que ias muito bem na escola e que tocas violoncelo maravilhosamente.
 Onde est ela agora?  pergunto com medo de ouvir as nuvens negras que elas tm na garganta.
 A ltima vez que soubemos dela estava numa clnica a tentar recompor-se. Saiu antes de tempo. Mandou buscar-te, mas o conselheiro disse-lhe que ainda no estava 
pronta. Saiu de l e no falamos com ela j h algum tempo. Ela no queria que tu soubesses tudo isto.  A tia Faith suspira e tira os
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sapatos de domingo, arrumando-os muito direitinhos ao lado da cadeira.
 E o dirio dela?  Aperto o brao da Rosemary cada vez com mais fora at as cordas me entrarem na pele.
As minhas tias trocam olhares.
 No era para tu veres  responde a Merleen.
 S teria desgraado a tua me se lhe acontecesse alguma coisa.  A Faith desvia o olhar como se estivesse a lembrar-se de todas as palavras vergonhosas que tinha 
engolido com os olhos.
 Ela no est morta. L por no terem tido notcias dela no quer dizer que esteja morta. No tinham o direito de destruir o que ela escreveu.  Consigo ouvir 
o relgio da cozinha a fazer tique-taque demasiado alto. Todos os sons, todas as manchas de cor e palavras novas que caem dos meus lbios parecem arranhar-me a 
pele.
 A nossa Coral era uma beb muito mansinha, nunca deu problemas nenhuns.  A tia Faith est sentada na sua cadeira ainda com o chapu de domingo na cabea. Parece 
estar a falar para a jarra de gladolos amarelos em cima do piano.
Os ps pesados da Merleen, calados com meias de vidro, desenham sulcos na carpete. A Faith est quase a chorar, mas no olha para mim. Nenhuma delas vai olhar 
para mim. Apetece-me espica-las at mais no. Quero que sofram como eu estou a sofrer. A tia Merleen volta a repisar os sulcos longe do meu alcance. Fala num 
tom de voz demasiado alto para tentar desviar a minha ateno das suas mentiras silenciosas e dos seus actos demonacos.
 Ela no queria que tu visses isso tudo.
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 E o meu pai?  A minha voz estala, as lgrimas comeam a formar-se por trs dos meus olhos muito fechados.
Elas dizem-me que o meu pai  um pintor instvel que vive em Los Angeles.
 Porque  que ele no veio buscar-me?  grito, perdendo subitamente o contacto com a Rosemary, que cai no cho com um sonoro baque.
 No sabamos nada sobre ele. No te amos mandar para junto de um homem que nunca vimos sem a permisso da tua me. Ele  um solteiro. E a tua me, quando te 
mandou chamar h alguns meses, no estava pronta, o seu conselheiro disse-lhe que ela no estava pronta  repete a Faith.
Sou um furaco que gira em torno da sala partindo taas e copos.
Abro uma a uma as gavetas do louceiro e atiro o contedo para a carpete.
 Onde est ela? Onde est ela?  Grito pragas, esfarrapo o jornal de domingo, arranho a tinta da parede e choro. A tia Merleen agarra-me pelos braos e segura-me 
afastada dela.  to forte quanto parece.
 Perguntmos  tua me se podamos ficar contigo  diz a tia Faith. Dirigiu-se para a porta com o chapu na mo.
 Ficarem comigo?  O meu corpo congela nas mos da tia Merleen.
 Adoptar-te. Mas ela no quis assinar os papis. Diz que vai voltar assim que estiver boa.
Estou atordoada. A verdade  como um martelo a bater--me na cabea. No perteno a ningum. Sou o pacote que no foi entregue, a torrada a mais, algo que ningum 
quer mas que no pode ser deitado fora.
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 Recebemos isto a semana passada.  A tia Faith entrega-me uma carta que tira da sua carteira de domingo.
 um bilhete da minha me. Na sua letra trmula estava escrito: Entreguem isto  minha menina e digam-lhe que a amo. Um pequeno quadrado de papel cor-de-rosa-plido 
flutua no meu colo. Est em branco, mas consigo ver a marca dos seus lbios. Dedos frios e invisveis acariciam-me a nuca. Enrolo os braos  volta do corpo e encosto-me 
 parede a tremer.
 Ela ainda anda a viajar, minha querida  diz a tia Faith, pousando-me a mo no rosto. Deixo de resistir, o meu corpo amolece.
 No posso tambm ir viajar?  pergunto, aninhando--me nos seus braos.
 Queremos-te aqui connosco  sussurra a tia Faith para o meu cabelo.
No  o suficiente, penso. No  um amor de me ou um amor de pai. Odeio a minha me por me ter deixado s no mundo.
 Quero falar com o meu pai  digo. A ideia cresce na minha mente  medida que a sua imagem azul ganha vida.
Na cozinha, a tia Faith disca o nmero. Os meus olhos seguem os seus dedos. Memorizo os nmeros, fazendo verges vermelhos na face interna do brao com a unha. 
Estou ansiosa e com medo do som da voz do meu pai.
 Daqui fala a tia da Coral, a Faith. A Mariah quer falar consigo.  Passa-me o telefone. Sinto-o quente nas minhas mos.
 Pap?  sussurro, afastando-me dos olhos argutos e dos ouvidos atentos das minhas tias.
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 Mariah. Como ests, querida?  A sua voz  uma cano de blues que sai bem. Ele diz as coisas certas. Posso sentir (> seu amor paterno atravs dos fios telefnicos 
da Califrnia e ele salva-me. Mal consigo ouvir o que diz, porque choro muito, e muito alto. No final da nossa primeira conversa o meu pai promete escrever-me e 
diz que quer ver pelos seus prprios olhos o quanto cresci. Agarro-me s suas palavras como se estivesse a afogar-me e ele viesse salvar-me. Nessa noite misturo 
as cinzas da carta do meu pai com mel e lambo a colher at ela brilhar. Imagino que nessa carta perguntava por mim e afirmava o seu amor eterno. No saio do meu 
quarto o fim de semana inteiro. Toco a Rosemary em silncio, sem dar s minhas tias o prazer de ouvirem a sua voz. Encontro uma marcha fnebre nas suas cordas. 
As memrias da vida da minha me ameaam apagar-nos a ambas. Consigo ouvir as minhas tias no corredor a sussurrarem iradamente. Esto  porta do meu quarto a ouvir 
o meu sofrimento. Quando chega a manh estou a dormir com a Rosemary nos braos.
Uma semana mais tarde aparece na minha cama uma caixa castanha.  do meu pai. Dentro da caixa est um dicionrio novo de capa dura, um caderno de desenho e uma 
caixa de lpis de cor afiados. Abro o dicionrio e na primeira pgina est uma nota de dez dlares aberta. Debaixo dela est uma dedicatria elaboradamente desenhada 
a tinta vermelha: Para a minha filha, Mariah, com todo o amor, do teu pai Matisse. Por baixo da inscrio est um desenho de um homem a ler um livro a uma menina 
sentada no seu colo encostada ao seu brao. Ele  o meu pai e eu sou a sua menina. Todas as noites leio o dicionrio e encontro novas palavras bonitas de se verem, 
adorveis quando as deixo sair da minha lngua. Sublinho palavras a tinta vermelha. Promessa... aspirao...
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fidelidade... lao... palpvel... Quando encontro uma palavra nova que acho que ele vai gostar, fao um desenho sobre ela, encho-o de cores e mando-o para o meu 
pai juntamente com algumas palavras minhas. Falamos ao telefone todos os meses durante uns minutos e, no Natal e nos meus anos, ele manda--me uma grande caixa castanha. 
Dentro dela est um vestido que  sempre grande de mais ou pequeno de mais. A tia Faith altera-os e s os uso ao domingo para ir  igreja. Envia-me papel colorido 
e canetas e livros com fotografias sem palavras. Todos os meses manda s minhas tias um sobrescrito com dinheiro. s vezes sinto-me uma prisioneira. Quero fugir 
para onde o paraso deve estar, junto do meu pai.
No final desse Vero uma flor de sangue vermelho mancha-me a roupa interior. A tia Faith tinha-me avisado de que esse dia iria chegar e mostrou-me uma gaveta na 
casa de banho onde eu iria encontrar o que precisava todos os meses. Parece envergonhada e no me olha nos olhos enquanto me d breves instrues sobre como tratar 
do meu novo corpo e manter-me limpa. Mas sou eu que sinto vergonha, como se tivesse feito algo de errado.
 Isto significa que j s uma mulher. Tens de ter cuidado na maneira como te comportas com os homens. Podes meter-te em trabalhos  diz ela, fazendo uma pausa 
entre cada ordem para se assegurar de que eu compreendi o peso das suas palavras. Olho para a garrafa de vinagre branco que est entre ns em cima da mesa da cozinha. 
Pergunto-me se isto tambm se aplica ao meu pai.
 Quando eu era nova as pessoas no costumavam falar acerca disto. Costumvamos rasgar bocados de lenis para
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usar nessa altura do ms. Mas agora h livros para explicar essas coisas. Se tiveres alguma dvida podes vir aqui procurar  e pousa na mesa um pequeno panfleto, 
deixando-me sentada a olhar para ele.
A irm da Joy, a Nicky, j me contou o significado deste acontecimento. Diz que se eu beijar um rapaz de que goste posso ter um beb. A minha me devia estar aqui 
para me dizer estas coisas. Comeo a escrever palavras na parede por trs da minha cama. Deito-me com a barriga contra o cho frio de madeira, por baixo das vigas 
de metal ferrugento, com um lpis na mo. Escrevo numa letra miudinha cartas para a minha me e para o meu pai, a minha ltima vontade em testamento, uma cano, 
as minhas cores preferidas e o nome das minhas duas melhores amigas, a Rosemary e a Joy, nenhuma das quais me pode abraar agora. Escrevo na escurido para ver 
o que ir sair dali  luz do dia.
Uso vestidos para que, debaixo deles, possa viver na pele de cetim cor-de-rosa da minha me. Pressiono as minhas mos contra os meus pequenos seios e por todo o 
meu corpo, vezes e vezes sem conta, at comear a sentir os seios da minha me a crescer sobre o frio cetim cor-de-rosa. Quero acreditar que ela me deixou aqui 
por segurana, por eu ser o seu tesouro. Sinto-me confortada com estas pequenas coisas.
Todas as noites pego na mo da minha me e descemos as escadas como se ela nunca me tivesse deixado. Samos pela porta da frente e caminhamos pelos trilhos do comboio, 
apanhando pirilampos com as mos e deixando-os ir. Nestas visitas nocturnas no falamos, mas compreendemo-nos perfeitamente.
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VI

Torna-se mais fcil andar com a Joy quando entramos para o stimo ano e vamos para a escola que fica para l do cemitrio, do outro lado dos caminhos de ferro, 
depois da fbrica das bolachas. Apesar de estarmos proibidas de nos vermos, eu e a Boneca encontramo-nos todos os dias na passagem de nvel e vamos juntas para 
a escola. Este ano o nosso primeiro dia de aulas  especial, pois vamos para o liceu O. Williams juntamente com outros alunos do oitavo e nono ano e, pela primeira 
vez, vamos frequentar uma escola com crianas brancas. L na base, em Manhattan, no Kansas, lembro-me de ir para a escola com todo o tipo de midos e ningum se 
importava com isso, mas as coisas so diferentes no Sul. A tia Merleen e a tia Faith avisaram-me que devia ter cuidado com as maneiras. At o pastor fez um discurso 
acerca da relao entre as raas dizendo que, aos olhos de Deus, somos todos Seus filhos. Homens brancos velhos e sem flego, com forte pronncia sulista, gritam 
muito corados para os reprteres e para todos os que esto a ver o noticirio da noite para terem cuidado com o regresso dos agitadores do Norte e dos radicais 
que defendem os pretos, sejam l eles quem forem. Mes e pais brancos apertam contra o peito filhos de olhos esbugalhados
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como se eles fossem os seus ltimos tesouros e juram lutar contra o plano de converter os seus filhos ao comunismo. Pensava que o comunismo era uma nova religio. 
A tia Merleen e a tia Faith disseram-me para no dar importncia a toda aquela confuso.
 A tua nica preocupao deve ser estudares e fazeres alguma coisa da tua vida  disse a tia Faith, dando-me uma agulha para coser por ela.
 O resto no interessa para nada.  A tia Merleen desligou o televisor e comeou a ler o jornal.
A escola de tijolo vermelho em que eu andava desde os meus sete anos era frequentada s por negros que iam desde Dwigth James, sardento e cor de banana, at ao 
Mr. Champion, o reitor, cor de carvo. O vice-reitor, a secretria, os professores, todas as senhoras que trabalhavam na cantina, as vigilantes e todos os midos 
eram negros. Alm de ensinarem a ler, a escrever e a fazer contas, ensinavam-nos tambm a no denegrir a nossa raa atravs do nosso comportamento e a ter sucesso, 
no apenas pelos nossos pais ou por ns mesmos, mas pela prpria raa. Os pais eram chamados s no agssemos como as senhoras e senhores em ponto pequeno em que 
era suposto tornarmo-nos. Frequentemente diziam aos professores para nos baterem nas mos com correias e pequenas rguas de madeira se no nos portssemos como 
devia ser. Em casos mais raros, os pais eram chamados  escola para baterem nos filhos  frente de toda a turma, para dar o exemplo aos restantes para que obedecessem 
sem duvidar. Os nossos professores tinham grandes esperanas em relao a ns. Vocs so o futuro, repetiam vezes sem conta. Uma dessas professoras era a Mrs. Towns, 
uma mulher j velha, alta e
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magra que usava uma peruca castanha curta saliente na nuca e tanta maquilhagem que, pelas costas, lhe chamvamos a Enfarinhada. A Mrs. Towns ficou comigo todas 
as tardes depois das aulas, durante semanas, at eu conseguir aprender as fraces. Dizia que era seu dever garantir que eu possusse as ferramentas bsicas para 
vencer na vida.
 J  suficientemente duro ser-se negro. Tens de ser melhor do que boa. Tens de ser excelente, Mariah  dizia ela como se estivesse a fazer um discurso. A princpio 
eu sentia que estava a ser castigada, mas assim que percebi o modo de fazer fraces quase abracei aquela velha mulher enfarinhada. Ela limitou-se a sorrir e a 
dizer-me para no me entusiasmar de mais.
Por isso, a Joy e eu no sabemos o que esperar do nosso primeiro dia de integrao. Vimos muitas vezes o governador George Wallace na televiso, parado  porta 
da escola em Alabama, para tentar evitar que crianas negras se sentassem ao lado de crianas brancas. Perguntamo-nos se iremos aparecer nas notcias. Damos as 
mos como costumvamos dar, enquanto caminhamos ao longo dos trilhos a cantar como a Aretha no seu novo disco de quarenta e cinco rotaes. No aparecem muitos 
midos brancos no primeiro dia de aulas. Os trs autocarros vm meio cheios com rapazes de rosto comprido e raparigas vestidas com novas roupas de escola e novas 
atitudes. O liceu O. Williams continua a ser constitudo na maior parte por midos negros que vivem em casas sociais ou apartamentos e casas a 3 Km da escola, ao 
lado do matadouro. Eu e a Joy estamos em salas diferentes, mas prometemos encontrar-nos no fim do dia na casa de banho, no outro extremo da escola.
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 quase tudo igual. As oraes. O juramento de fidelidade  bandeira. A chamada. A nossa professora, contudo,  uma jovem branca com o cabelo louro comprido e liso 
e uns olhos verde-tartaruga. O cimo da sua cabea mal chega ao meio do quadro preto. Parece to nova como a irm da Joy, a Nicky, que ainda no tem dezasseis anos, 
e tambm parece assustada.
 Bom dia, turma. O meu nome  Miss Phillips. Hoje  um dia especial e gostava que comessemos com o p direito, ajudando-nos a conhecermo-nos uns aos outros. 
 Tem tambm a voz de uma menina. A sua voz  alta e fina e vibra como a ltima folha numa rvore de Inverno. Quando nos diz para encostarmos as cadeiras  parede 
para formarmos um crculo  volta da sala, ns obedecemos. Ficamos de p ao lado das nossas mesas e vemo-la pr-se de joelhos e usar giz branco para desenhar um 
enorme mapa dos Estados Unidos no cho de cimento enquanto vai enumerando os estados existentes na ponta inferior do mapa. Nunca tinha visto uma professora de joelhos. 
Ela levanta-se, sacode a saia azul-marinho e volta para a secretria.
 Quero que se ponham no lugar do mapa que corresponde ao stio em que nasceram.
Todos corremos para o stio que pensamos ser a Gergia. Todos tm a sua opinio, mas finalmente chegamos a acordo sobre o local em que deve ser. Uma menina branca 
magrinha com uma camisola vermelha com buracos numa manga est sozinha na Flrida.
 Muito bem  disse a Miss Phillips sorrindo.  Agora apresentem-se a algum que no conhecem e digam-lhe onde gostariam de viver.
Ningum quer ser o primeiro, por isso vou at  Flrida e
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digo  menina branca, de um s flego, por que razo quero viver no Mxico: para poder nadar todos os dias no oceano. A princpio ela no diz nada. Depois olha 
em volta como se estivesse a ser observada e sussurra:
 Chamo-me Maryann. No tenho licena para falar com pessoas de cor, mas quero morar na Carolina do Norte com a minha av, porque ela vive numa quinta com galinhas 
a srio.
Nessa altura todos comeam a falar e a professora tem de se pr em cima de uma cadeira para nos fazer calar.
 Ateno meninos, agora imaginem que este mapa  um mapa da cidade. Isto representa a zona ribeirinha oriental, a baixa ocidental, a alameda norte e a auto-estrada 
do sul. Ponham-se no stio onde moram actualmente.
A Maryann e eu separamo-nos, como fazemos todas as tardes quando a escola acaba, em branca e negra. Observo-a no outro lado da sala e pergunto-me se algum dia saberei 
mais do que o seu nome.
 Vamos falar do significado de integrao  diz a Miss Phillips.
Nem tudo est calmo no nosso novo universo. No primeiro dia de aulas comea uma luta. A Joy fala-me disto durante o almoo de feijes secos, arroz pegajoso e carne 
castanha a boiar em molho.
 O Judeuzinho foi mandado para o concelho directivo antes do primeiro toque  disse a Joy, e depois bebeu do pacote de leite chocolatado com a cabea inclinada 
para trs.
 O seu nome  Samson  digo eu, tentando encontrar a carne no meio do molho.
 Sim,  isso. A irm dele vai ficar fula se tiver de vir de to longe para o vir buscar.  O garfo da Joy mexe-se to
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depressa que a comida voa para a mesa. Se calhar no tinha comido nada alm do chupa-chupa vermelho de cereja que lhe dei esta manh a caminho da escola.
 O que  que aconteceu?  pergunto, empurrando o tabuleiro na sua direco. Observo como limpa o meu prato. Ela fala com a boca cheia e, por isso, tenho de lhe 
pedir que repita algumas coisas.
Diz-me que o Samson pegou numa rapariga branca que estava no corredor  espera que as aulas comeassem e a levantou no ar, por brincadeira, acima da cabea. Ele 
j me tinha feito o mesmo algumas vezes desde que nos ltimos dois Veres ficou mais alto e espadado do que eu. Eu desatei a berrar e a bater na sua enorme cabea 
quadrada at ele me pousar no cho, mas esta rapariga que ele levantou no ar acima da cabea como se fosse o Mister Universo tinha um irmo que o atirou contra 
a parede. Os amigos do Samson meteram-se ao barulho e o inferno desceu  terra. O Samson estava sempre a meter-se em sarilhos para fazer jus  fora bblica de 
Sanso.
O que aconteceu depois foi que a Joy encontrou um anel no lavatrio do segundo andar. Mostrou-mo por baixo da mesa.
 Vais lev-lo ao concelho directivo?  perguntei olhando para o belo anel com uma pedra vermelha na palma da sua mo.
 Ests  doida. Se fosse realmente importante no o tinham perdido. Vou tomar bem conta dele  disse a Joy metendo-o no bolso do seu vestido justo s flores.  
Nunca tive nada to bonito na minha vida.
No digo nada. As minhas tias ensinaram-me a no tirar nada que no fosse meu, mas consigo perceber o ponto de
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vista da Joy. Para a Joy o anel foi-lhe deixado como um presente por uma mo descuidada.
Como se isso no fosse suficiente, antes do toque de sada das trs horas, a Joy cola pastilha elstica ao cabelo de uma rapariga branca. A rapariga branca senta-se 
em frente dela e no pra de atirar os seus grandes caracis escuros para trs das costas e para a secretria da Joy, e eles batem sem parar no trabalho da Joy. 
A Joy atirou vrios pedaos de pastilha elstica para dentro da boca at fazer um grande balo, deixou-o rebentar no cabelo da rapariga e depois colou-lhe na cabea 
o que restava do balo enquanto ela gritava: Assassina!. Fico furiosa quando a Joy  suspensa por uma semana, pois no tenho ningum com quem andar.
A Neicey tambm anda nesta escola, mas  uma convencida. Anda com os brancos e mal me fala quando me v no corredor. Queria poder falar com o Mr. Giovanni sobre 
pessoas brancas, mas sei que ele ia dizer-me que Somos todos iguais ao olhos de Deus. Mas somos diferentes. Gostamos de msicas diferentes, vivemos em stios 
diferentes, comemos comidas diferentes e frequentamos igrejas diferentes.
Um dia, quando a Miss Phillips ficou doente, veio uma professora substituta chamada Mrs. Peabody. Tal como a Miss Phillips, era nova e branca. Mas o seu cabelo 
era castanho e fino e caa sem vida pelo seu rosto comprido abaixo. Nunca se ri e por isso no parece bonita. O seu fato de l est apertado no pescoo e tem uma 
malha cada nas meias castanhas muito grossas. Pergunta  Maryann qual  a lio para hoje. Quando a Maryann no responde, pergunta a um rapaz do Bairro da Previdncia 
que tambm no responde. Quando chega a minha vez, os seus olhos tinham-se transformado em
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punhais de fogo. Ignoro-a e continuo a escrever palavras que no so palavras, mas sim letras unidas em pensamento, com tinta azul, na superfcie de madeira da 
minha secretria: Siaijd... ownciuy... tyoijow... nvgvvd... qoriuf...
 <s estpida?  pergunta-me ela, como se eu fosse responder-lhe. Ignoro-a como todos os outros, mas  a mim que ela decide punir enviando-me para a aula de Educao 
Especial. A Educao Especial  onde juntam os midos retardados com os midos que tm problemas a soletrar, os midos que gritam o dia todo, os midos em cadeira 
de rodas, os midos que no sabem ler, os midos que falam de mais, os midos que fazem chichi nas calas, os midos que gostam de andar  pancada, os midos que 
gostam de meter o dedo no nariz, e os midos, como eu, que precisam que o seu esprito seja domado. Quando entro na sala de Educao Especial, na cave do edifcio, 
o professor, um homem negro de bigode, est a segurar o brao de uma rapariga mantendo-o afastado dela como se ela fosse bater nela prpria com a rgua que tem 
na mo se ele a largasse. No h midos brancos na Educao Especial. Todos os midos que esto na sala esto a fazer barulho ou a falar com outra pessoa. Vejo 
outra mida normal de castigo.  a Tree. A meia irm do Morto vive no Bairro da Previdncia. Todos lhe chamam Tree, mas o seu nome  Teresa. A Joy disse-me que 
o Morto tinha sido preso aos catorze anos por ter partido o nariz a um polcia. Ele tinha vindo do reformatrio com cicatrizes de faca no pescoo. O Morto ficou 
com esse nome por causa do av. Ele costumava dormir com o av. Quando tinha cinco anos acordou a meio da noite com um pesadelo. O av tinha morrido, mas o Morto 
pensava que ele estava a dormir e, por isso, aninhou-se no
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velhote e voltou a adormecer. O av dele era conhecido por se levantar com as galinhas e, na manh seguinte, quando ele no desceu para o pequeno-almoo, encontraram 
o Morto a dormir nos braos do av. Desde esse dia deram-lhe o nome de Morto e todos os que o conhecem juram que ele consegue falar com os mortos durante o sono. 
As pessoas pedem-lhe para ele no sonhar com elas, pois se ele sonhar  quase certo que, dentro de um dia ou dois, j esto na mo dos espritos. O Morto viu o 
pai ser morto em sonhos e, no espao de alguns meses, o pai foi morto por um comboio na estao de caminhos de ferro onde trabalhava. A Tree  mais sossegada. Costumo 
v-la passar  minha porta e  com inveja que a vejo ir de mo dada com a me.
A Tree est a ler uma revista numa secretria ao fundo da sala. Levanta os olhos e chama-me. A sua voz  baixa e pesada como fumo de cigarro.
 Porque  que ests aqui?  pergunta dobrando a revista e guardando-a no bolso de trs.
 Roubo  mo armada. E tu?
 Assassnio qualificado  Rimo-nos.
Descubro que ela est aqui h uma semana. Est aqui porque a professora dela disse que ela estava a falar sozinha. A Tree disse que estava a recitar um poema que 
tinha inventado para no se esquecer, mas a professora no acreditou.
 s a irm do Morto?  perguntei.
 Culpada.  E levantou a mo direita no ar.
 Porque  que tens um nome como Tree?  pergunto ousadamente.
 O meu irmo tem uma lngua preguiosa. Quando era pequenino no conseguia dizer Teresa. Dizia que, de qualquer
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das formas, queria um irmo. Ele diz que, para irm, at dou um bom irmo. Dou-lhe uma coa a jogar basquete.  Ri-se, dribla uma bola invisvel e atira-a graciosamente 
para o ar.  No vives nas casas da Previdncia, pois no?  pergunta.
 No. Vivo na grande casa branca do outro lado dos trilhos.
 No te iludas. S porque vives do outro lado da rua continuas a ser uma rapariga do Bairro da Previdncia.
Os dias que passo na Educao Especial com a Tree servem para aprender coisas que nunca mais vou esquecer. A me da Tree  sindicalista e ensina  Tree e ao Morto 
coisas que no se ensinam na escola. A Tree diz que  por isso que o Morto est sempre metido em sarilhos e anda  pancada o tempo todo. Ele est furioso porque 
a me deles lhes disse que a vida no  justa para os negros. Segundo a Tree, segundo a me dela, o nosso mundo, a casa onde vivemos, as roupas que vestimos, os 
livros que lemos no nos tornam especiais aos olhos das pessoas brancas se formos negros ou aos olhos das pessoas ricas se formos pobres.
A Tree e eu no voltamos a andar juntas depois dessa semana  ela est numa turma mais avanada , mas  um rosto simptico com que posso contar para um piscar 
de olhos ou um sorriso quando a encontro no corredor ou na cantina e mesmo quando est com os amigos. A maior parte das vezes que a encontro est sozinha e os seus 
lbios esto a mover-se como se estivesse a tentar lembrar-se de outro poema. Conhec-la faz-me sentir especial, como se pertencesse a algum lugar.
A Joy e eu no prestamos muita ateno s aulas e quase no passamos a disciplina nenhuma excepto Educao Fsica.
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Chegamos sempre atrasadas  escola, porque antes da escola vamos para a casa de banho para rirmos e fazermos planos juntas. Pintamo-nos uma  outra com sombra verde-plida, 
risco azul-escuro nos olhos e brilho rosa-vivo nos lbios.
A Joy mergulha os seus dedos cor-de-rosa num pequeno boio de creme brilhante e pegajoso e aplica-o nos meus lbios. Sinto como se ela estivesse a tocar-me algures 
debaixo da minha saia. Ela faz-me comprimir os lbios para espalhar a mistela pegajosa por ambos. As minhas mos tremem quando lhe fao o mesmo a ela. Ela olha-me 
nos olhos e eu sei que ela sabe porqu. Pousa a mo dela na minha para me acalmar. Tento afastar os antigos sentimentos. Aos treze anos somos consideradas avanadas 
para a idade ao desfazermos as nossas tranas e transformarmos os rabos de cavalo em puxos africanos que saem do alto das nossas cabeas como esponjas felpudas. 
A Joy fala muito sobre rapazes. Ela acha o Morto muito giro. Eu acho que a sua meia irm Tree  mais gira, mas no o digo  Joy. Falamos muito em fugir juntas, 
mas tenho medo que a minha me, quando voltar, no saiba onde me encontrar.  tarde eu e ela passamos muito tempo em frente ao espelho da casa de banho a limpar 
os rostos com vaselina e a pr outra vez o cabelo com tranas como estava.
Quero contar  Joy acerca da minha me e mostrar-lhe a fotografia do meu pai. Quero contar-lhe tudo, mas  difcil falar da minha me, porque at a palavra me 
me deixa a garganta apertada e os olhos rasos de lgrimas.  como se ela estivesse morta. Quero falar-lhe das cartas do meu pai, mas em vez disso deixo que seja 
a Boneca a falar. Deixo-a contar-me os seus segredos. Ela sabe que nunca direi nada a ningum Quando a Joy me diz que est grvida quase me engasgo com
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a garfada de gelatina. Dentro de seis meses ela ter algum que a ame completamente. Eu desejo o mesmo. Ela diz-me que est apaixonada por um homem chamado Willie 
T. Lovell. Ele j  um homem feito, com 19 anos e a conduzir o seu prprio carro. Ela mostra-me fotografias dele e ele parece muito bem no seu uniforme de soldado. 
 da Virgnia, mas est aquartelado na base ao p da auto-estrada.
 Conhecemo-nos no ringue de patinagem na Noite dos Pretos. Ele pensava que eu tinha dezoito anos  diz ela acendendo um cigarro  janela da casa de banho depois 
de almoo.
 No uses essa palavra.  Tiro-lhe o cigarro da mo e dou uma passa.
 Todos lhe chamam assim. s demasiado religiosa.  Ela cruza as pernas e comea a esfregar a barriga como se sentisse o beb a mexer-se l dentro.
 O que  que a religio tem a ver com isso?
 Tal como eu estava a dizer, ele deixou-me falar com a me dele ao telefone. Isto  a srio.
Sinto-me um pouco invejosa, mas finjo estar feliz por ela.
 Ele vai casar comigo quando o beb nascer. Vamos para o estrangeiro e eu vou ter o meu prprio apartamento. Mrs. Joyous Lovell.  E d uns passos de dana como 
se fosse uma bailarina.
 Vais terminar a escola?
 Para qu? O meu homem trabalha para o governo. Tens de arranjar um homem se quiseres sair desta cidade, menina. O Willie tem um primo que te levar daqui.
 Tudo bem.  Sinto-me envergonhada por ela pensar que tem de arranjar algum para mim.
 Se no te despachares a arranjar um namorado, as
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pessoas vo pensar que s esquisita ou qualquer coisa.  Parece no se lembrar dos nossos beijos, mas eu tenho as minhas lembranas bem guardadas. D uma ltima 
passa no cigarro e atira-o para a sanita a alguns metros de distncia.
 Vou ter um beb. Se aquele pre... se o Willie T. alguma vez me deixar terei algo meu  diz ela, j a milhares de quilmetros de mim.
Uma vez plantada, a ideia cresce dentro de mim como uma semente. Comeo a procurar um homem que me faa um rio de promessas, que me manche de paixo. Quero um anjo 
nos meus braos.
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VII

 Vero, tenho catorze anos. Esperei, mas o meu pai no veio buscar-me. Ele j no inventa desculpas e eu j no espero por elas. J no tenho idade para Viver 
aventuras entre as pginas dos livros ilustrados que ele manda. Em vez de ir  igreja ao domingo, vou sozinha ao GoverriOrs park ver jogos de beisebol.
_ Deus deu-te dois olhos, um para olhares pelo que tens e o outro para olhares para o que queres ter _ diz sempre a tia Merleen.
Durante todo o ms de Julho mantenho os dois olhos no porto de trs do Golden Park procurando o nmero vinte e dois, o meu nmero da sorte segundo a mdium que 
est sentada  janela na Fourth Street por baixo da tabuleta com a mo azul. No sei em que estou a pensar. Talvez tenha esperana que ele repare em mim no meio 
de todas as outras raparigas que ficam  espera do fim do jogo  procura de um nmero. Cabelo escuro, olhos escuros encaixados num rosto moreno simptico. Lbios 
que falam espanhol imagino que ir ensinar-me coisas, dar-me coisas, levar-me para longe de tudo isto. Quatro horas, sbado, treze de Julho, Jesus Miguel Monteverde, 
nmero vinte e dois, jogacior da equipa Astro,
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olha-me nos olhos e sorri. Atira-me uma bola clandestinamente. Apanho-a e devolvo-lha num arco que nos faz esticar os pescoos. A meio do voo a bola transforma-se 
numa laranja perfeita que ele me d juntamente com uma nica palavra: naranja.
Tinha visto outras raparigas apanharem bolas de outros jogadores durante quatro semanas e sabia que ele estava a escolher-me. Disseram-me que nunca devia falar 
com estranhos, mas quando o Jesus Miguel me pegou na mo segui-o at  Steak house do outro lado da rua. Ele come curvado sobre a comida como um animal faminto. 
Devora um bife enorme com batatas fritas como se no comesse h dias. Sorvo um pouco de vinho e debico as batatas fritas j frias da beira do seu prato como se 
no tivesse fome. No estou certa que ele v pagar-me o jantar, e por isso bebo a gua que a empregada deitou  frente de cada um de ns e volto a encher o copo 
com vinho, sempre que posso, tentando parecer ter dezoito anos e pensando no que a Joy faria.
Descubro pelo programa de beisebol que a empregada da casa de banho me deixa ler que ele  da Repblica Dominicana. No falo espanhol e ele s fala algumas palavras 
de ingls, pelo que passamos muito tempo a olhar para os olhos um do outro, sorrindo timidamente. Apesar de tudo, com-preendemo-nos. A sua mo est a danar um 
merengue com a minha mo esquerda no espao vago de vinil vermelho. No consigo respirar e o meu peito parece crescer quando ele me toca.
O hotel da baixa onde o Jesus Miguel vive durante a poca de beisebol fica a curta distncia. O ar da noite  quente e pegajoso quando caminhamos de mos dadas 
pelas ruas
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desertas. Tento afastar da minha mente o pensamento de que a tia Faith e a tia Merleen esto em casa  minha espera. No quero voltar para trs, pelo menos a parte 
de mim que deixou a grande casa branca logo depois do pequeno-almoo sem nada no bolso a no ser uma nota de dez dlares novinha em folha enviada pelo meu pai. 
Quero que algo acontea, uma grande mudana para o meu novo eu que acordou com um novo corpo, uma nova maneira de ver as coisas e novos sentimentos que ainda no 
tm nome. O Jesus Miguel beija-me delicadamente na face e diz-me adeus ao entrar pelas portas do hotel.
 So nove da noite! Onde estiveste?  A fria da tia Merleen recebe-me na porta dos fundos. A tia Faith est ao lado dela. Passo pelo meio delas e abro o frigorfico 
para beber um copo de gua.
 Estvamos preocupadssimas. Pensvamos que te tinha acontecido alguma coisa  diz a tia Faith, falando para as minhas costas.
 Estou bem. Vim para casa pelo caminho mais longo.  Bebo a gua fria em goles rpidos.
 Ainda no s nenhuma adulta.  demasiado tarde para chegares a casa  disse ela.
 Desculpem  digo, enquanto lavo o copo. Tento passar por elas e subir pelas escadas de trs. A tia Merleen est a tremer quando pousa a mo no meu ombro. Aproxima-se 
do meu rosto.
 Quero-te nesta casa todos os dias antes de anoitecer. Percebes?  A tia Faith observa-nos do seu lugar na mesa da cozinha. Os seus olhos esto tristes.
 Compreendo  digo, mas fiquei marcada. Percebo
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como um beijo pode fazer nascer uma flor. O Jesus Miguel Monteverde fez-me ter vontade de fugir para a noite hmida e perder-me no meio de um * beijo da alma.
Sonho com o Jesus Miguel todos os dias da semana. Quando as minhas tias vo o ao lar, no domingo seguinte  tarde, vou at ao campo de besebol.  um jogo demorado 
e enfadonho. O Jesus Miguel falha duas vezes no taco e o jogo acaba empatado 1-1. Depois do jogo deso a escada e espero. Os jogadores ainda no saram, mas j 
h vrias raparigas  espera, agarradas  vedao com unhas pintadas da cor de meles de Vero. Procuro"o o nmero vinte e dois  no fico desapontada. O Jesus 
Miguel sai dos balnerios com uma T-shirt branca e umas calas de ganga bem engomadas.  alto e tem os ombros largos, algum a quem me posso encostar sem medo de 
cair. Desta vez paga-me o jantar num restaurante do outro lado da rua. Brinca o Com a minha mo debaixo da mesa. Dirigimo-nos para o hotel dele e, sempre de mos 
dadas, entramos juntos. O recepcionista segue-nos com os olhos, mas no diz nada. No elevador consigo ouvir o meu corao a bater. Pergunto-me se o Je^sus Miguel 
tambm consegue ouvi--lo. Caminhamos lado a a lado pelo corredor alcatifado sem falar. Ele gira a chave na fechadura e eu perco-me.
Dentro do seu quarto existem duas camas iguais cuidadosamente feitas e cobertas Com colchas azuis-claras, A cmoda est repleta de moedas, revistas desportivas, 
uma laranja e cupes dois pelo preo de um de restaurantes locais. Na mesinha de cabeceira est pousado um copo de gua, um telefone e um carto laminado com 
a Virgem Maria. A minha cabea comea a girar e tenho de me sentar numa das camas. O Jesus Miguel toma um duche enquanto eu mudo de canais
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num televisor a cores. Estou estranhamente calma. Como a laranja, vermelha-escura por dentro. O sumo escorre-me pelo brao e cai na cama manchando-a como se fosse 
sangue, sangue. Chego a comer a casca que sabe a flores, flores. Ele sai da casa de banho em cuecas. Fica parado  porta a olhar para mim durante muito tempo. Mostra-me 
uma fotografia da irm.  Rosa. Mi hermana  diz docemente. Olhar para a fotografia  como olhar para o espelho. Os meus olhos, o meu cabelo, a forma dos meus lbios. 
Ele faz-me perceber que sente saudades dela. Compreendo que ambos temos necessidade de nos sentirmos preenchidos esta noite. Desligo o televisor e deitamo-nos juntos 
numa das pequenas camas, s escuras, a olhar pela janela e a contar as estrelas. Chama-me Estreita de Noche, Estrela da Noite. Pe o brao  minha volta e comea 
a cantar a cano mais doce que j ouvi. No percebo as palavras, so todas em espanhol, mas o significado  bvio, mucho claro. Fecho os meus olhos e ele beija-me 
suave e docemente a face esquerda. Nos seus braos sinto-me segura, desejada, sbia por o ter escolhido. Beijo-o nos lbios e sinto como se os nossos corpos fossem
tocados por uma cobra trovejante. Uno as coxas para me agarrar a essa sensao. As nossas roupas caem como a casca da laranja. Com a minha lngua pinto o seu pescoo
e o seu peito liso, tomo-o na boca at ele me afastar suavemente. As suas mos deixam um rasto de impresses digitais no meu corpo em todas as direces. Os seus
beijos hmidos pelas minhas coxas fazem que o meu corpo chame por ele. Ele afasta as minhas pernas com as suas mos grandes e suaves e mete um dedo deslizante dentro
de mim, mergulhando e voltando  superfcie.
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Sabe bem e j no sinto medo. Quando finalmente entra em mim, mordo o msculo duro do seu ombro e choro um pouco. Ele inflama-se dentro de mim at no se conseguir
conter mais. Aguento-o dentro de mim muito tempo depois de ele se vir, esperando que esta pequena dor se transforme numa menina perfeita que me ame. Adormecemos
e sonhamos os mesmos sonhos.
Vivemos numa casa azul-plida com um telhado de telhas vermelhas ao lado de um pomar de limes amarelos a florir. Os nossos filhos so estrelas que brilham num
cu azul-marinho. O Jesus Miguel esfrega-me os ps com folhas de menta. Com a minha lngua tatuo nas suas costas um ramo deflores vermelhas e cor de laranja. Os
nossos filhos cantam como anjos por cima das rvores. Cantam para ns em espanhol. Somente sonhos, Solo suenos.
Os meus olhos ainda lhe reconhecem os traos no escuro. Ele parece ser tudo o que h de belo, mgico e bom. Ouo a msica da sua voz nos meus sonhos. Que suenes
con los angelitos. Estamos ambos a sonhar com os anjos.
Todas as noites, trancada no meu quarto, sozinha na minha cama, apalpo a barriga  procura do nosso beb. Espremo os mamilos  procura de leite, ponho o meu dedo 
molhado em mel dentro de mim mesma para ver se o meu beb est l. Se houver vida na minha barriga ser uma menina, estou certa disso. Uma menina mais bela do que 
uma estrela. Chamar-se-
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Estrella. Estrella de Noche. Dar-lhe-ei mel numa colher de prata, am-la-ei e ela aprender a amar-me, porque  o que eu preciso.
Contnuo a tentar escapulir-me para ir ver o Jesus Miguel, para estar com ele, mas as minhas tias trancam-me no quarto a noite inteira. Quando viram que eu no 
estava em casa  meia-noite telefonaram  polcia, que ligou para o campo de beisebol, donde ligaram para a recepo do hotel, que ligou para o quarto do Jesus 
Miguel para nos avisar que a polcia estava a caminho. No chuveiro agarrei-o contra mim, no o largando durante muito tempo. Ele afagava-me o cabelo e dizia-me 
palavras doces em espanhol. Secou-me o corpo, beijando cada bocadinho com ternura. Vestiu-me e deu-me dinheiro para o txi. Quando nos separmos  porta do hotel 
no havia necessidade de promessas. Tinha a boca repleta de beijos espanhis e, quando fechei os olhos, vi bebs sorridentes de olhos escuros que se pareciam com 
Jesus a brincar entre as estrelas.
As minhas tias ameaaram mandar prender o Jesus Miguel por rapto. Levantam as mos aos cus, invocam Deus e finalmente ignoram-me, que  exactamente o que me convm. 
As nicas palavras que tenho so para o meu futuro beb. A Rosemary e eu inventamos canes.
No quero met-lo em sarilhos, mas sinto-me muito s. S queria v-lo mais uma vez. Fujo uma noite, quando a casa est adormecida, descendo muito devagarinho as 
escadas das traseiras e evitando o degrau traioeiro ao fundo. Tacteio s escuras  procura das chaves do grande carro azul. O meu corao bate to forte que parece 
fazer tremer o cho debaixo dos meus ps. No momento em que a minha mo toca nos
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pequenos pedaos de metal frio, acende-se a luz fluorescente da cozinha. Retiro rapidamente a mo e tento no parecer culpada do crime que estava prestes a cometer.
 Parece que tambm no consegues dormir.  A tia Merleen est com o pijama vestido e a touca de dormir na cabea. Parece cansada.
 Queria apenas sentar-me no alpendre.  A mentira sai-me facilmente pela boca fora.
 Senta-te aqui comigo um bocadinho  diz ela pacientemente, puxando uma cadeira da mesa da cozinha. Parece ter perdido o flego.
Relutantemente sento-me  sua frente, brincando com o saleiro em forma de galo. Entorno um pouco de sal na toalha branca. Atiro um punhado para trs das costas. 
A tia Merleen ri-se.
 A tua me costumava fazer isso  diz ela, esboando um sorriso.
No respondo.
 Aonde ias? Ias ter com o teu jogador? Minha querida, ele no quer saber de ti. S vai meter-te em sarilhos e pr-te com uma grande barriga como aconteceu com 
aquela tua amiga.
Recuso-me a olh-la.
 No deves ir ao Governors Park  diz ela. Soa quase como um apelo. Como  que ela se atreve a proibir-me de ver o homem que me transformou para sempre, o homem 
que vai dar-me uma coisa realmente minha para amar?
 No me partas o corao. s tal e qual a tua me. No comeces a viajar cedo de mais seno nunca encontrars paz. Quando tinha a tua idade, a tua me j apanhava 
comboios e
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fugia de casa, mas isso no a levou a lado nenhum. No po damos fazer nada pela sua relao com a Gert, mas podemos fazer algo por ti. No me partas o corao, 
minha menina  disse como se ele j estivesse partido. No quero magoar as minhas tias. Quem me dera que conseguisse faz-las perceber que preciso de algum que 
seja meu. Tal como a tia Merleen tem a tia Faith, como a minha me tinha o meu pai, tambm eu quero ter algum que seja s meu.
H um fio azul no pano da loia a secar no lava-loia. Tento afogar a sua voz com o bater do corao da minha menina perfeita que ir cheirar a laranja e a flores. 
Conto mentalmente os seus dedos dos ps e das mos at a tia Merleen me deixar sentada  mesa s escuras.
Duas semanas mais tarde, e como de costume, aparece--me o perodo num fluir suave. Durante o resto do Vero sou observada atentamente pelas minhas tias. Sou obrigada 
a ir com elas para todo o lado,  igreja, ao lar,  mercearia, ao ensaio do coro, e ameaam mandar-me para um acampamento de escuteiros para raparigas no Alabama. 
Acompanho-as e deixo que me vigiem, pois no tenho para onde ir. O Jesus Miguel no fez promessas nem eu lhe pedi que as fizesse. No fim da poca de basebol o Jesus 
Miguel volta para a Repblica Dominicana e sei que, muito provavelmente, nunca mais o verei nem ouvirei falar dele.
 A tua me telefonou esta manh depois da Merleen e eu termos ido  loja  diz a tia Faith.  Disse que ia voltar para casa.
Paro de respirar e tento lembrar-me do que ela tinha
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acabado de dizer. Tento que as suas palavras faam sentido. Pouso o garfo cheio de pur de batata, subo as escadas, entro no quarto e junto tudo o que tem algum 
significado para mim, o que no  muito. Todas as noites me sento nas escadas da frente  espera dela. Durante as trs semanas seguintes a mala verde que est ao 
lado da porta do quarto no faz seno acumular p. Em que dia  que ela disse que vinha? De onde  que telefonou? Estaria doente? O que ser que a faz demorar tanto?
A tia Faith procurou a minha mo por cima da mesa da cozinha e segurou-a na dela fazendo-lhe festas.
Amada... posse... mpeto... paz... lar...
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VIII

Quase no reconheo a Joy a correr na minha direco. Estou a voltar para casa no fim da escola mastigando palavras e frases que aprendi na aula de espanhol.
Onde est a minha me? iDnde est mi madre? Quem  o meu pai? Quin es mi padre? Quando? Cundo...? iCundo... ?
H semanas que no via a Boneca. Est gorda por causa do beb. A barriga enorme e redonda est meio escondida por baixo de uma blusa demasiado apertada. Enquanto 
corre ao meu encontro quase consigo ver o beb encostado  sua pele, esticada como couro numa bola de beisebol.
 Anda da, Myra. Eles esto quase prontos para a marcha.  Remi o meu nome na boca e agarra-me, puxando-me na sua direco.
Olho para a barriga  mostra sem perceber o que ela est a tentar dizer por entre a respirao entrecortada e o som das palavras que me escapam.
 Eles quem? Que marcha?  pergunto, pondo a mo no seu brao para a acalmar. Ela inclina-se para a frente para recuperar o flego e depois arrasta-me em direco 
 multido que
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corre para o centro. Consigo libertar-me dela. Ela volta-se e vejo que tinha estado a chorar.
 Ests bem?  Estou assustada, nunca a tinha visto a chorar.
 Conheces o meu primo Warren?
Aceno que sim. Trata-se de um rapaz alto e magro com um dente de ouro em forma de estrela. Est sempre a trabalhar com o av no quintal da Joy, a consertar carros 
avariados. Chama-me sempre Ruiva e pisca-me o olho quando passo por casa da Joy.
 Ele est preso e...  recomea a chorar.  O Judeu-zinho est morto. A polcia alvejou-o pelas costas. Desta vez temos de fazer uma marcha de protesto.
O Samson est morto. S conheo mais uma pessoa que est morta, o Mr. Giovanni, mas esse era velho. No conhecia os outros dois rapazes que a polcia matou no ano 
passado quando estavam a divertir-se no Bottom, quando a Black Maria, a carrinha preta da polcia, surgiu de repente e apanhou todos os negros que lhe apareciam 
pela frente. Todos disseram que eles s estavam a divertir-se. No estavam a fazer mal nenhum. S fugiram porque tinham medo de ir parar  cadeia. Um polcia branco 
atingiu na perna um rapaz de quinze anos chamado Amendoim, mas o Foguete no teve tanta sorte. Quando o apanharam espancaram-no at  morte. As pessoas revoltaram-se 
e no falaram de outra coisa todo o Vero, mas nada foi feito. O polcia nunca foi acusado de nada. O NAACP organizou uma marcha, mas no lhes foi dada autorizao. 
Por isso fizeram uma viglia a que s assistiram velhos.
Quando conseguimos alcanar a multido, cada vez mais
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numerosa, na esquina da Fourth Street, pudemos ver o Reverendo Mordell, um pregador baixo e careca da Igreja do Amor Universal  a tia Merleen diz que  apenas 
uma fachada  a tentar acalmar as pessoas, gritando por um megafone.
 O Senhor mostrar-nos- o caminho. Oremos.  Encostando o queixo ao peito, o Reverendo Mordell baixa a cabea em orao.
Algum lhe arranca o megafone das mos empurrando-o em seguida.  o Morto. O Samson era o seu melhor amigo.
 Os brancos so os donos de tudo  grita atravs do megafone.  Continuam a agir como se fossem os nossos donos.  mens e apoiado elevam-se da multido.  
No sou nenhum preto escarumba nem quero ser esmagado debaixo das botas de um branco que insiste em dizer que  isso que eu sou.  No ar paira o odor de uma fogueira 
que ningum conseguir apagar.
O Morto d o megafone  Danita, a irm mais velha do Samson, de olhos cansados, que j tem filhos da minha idade. Ela parece estar ainda mais magra e mais vazia 
do que a ltima vez que a vi, h alguns meses atrs, a descascar ervilhas no alpendre.
 No podemos deixar que continuem a matar os nossos filhos. O Judeuzinho era um mido bom e todos sabem disso  diz ela simplesmente, pousando delicadamente o 
megafone no cho como se este fosse o brao de uma criana. Sinto um n na garganta. Sinto-me triste por ela, pois sei que o amava. Foi ela que pagou as lies 
de piano que ele tinha com a tia Faith. Ela aparecia no fim de cada semana na porta das traseiras da grande casa branca para dar  tia Faith doze moedas de vinte 
e cinco cntimos amarradas num lencinho branco.
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Subitamente deixou escapar um uivo de dor arrancado das entranhas. A seguir ouvimos o som de vidro a quebrar. Viramo-nos e vemos a vidraa redonda da montra da 
Mercearia Masterson escancarada como se fosse uma boca repleta de afiados dentes de vidro.
 Os brancos so donos de tudo! Agem como se ainda fossem nossos donos! Preos de primeira para produtos de segunda!  grita o Morto atravs do megafone. Esta declarao 
incendeia a multido. Numa sbita exploso de movimento, eu e a Joy somos arrastadas pela torrente de corpos que se movem para o interior da loja atravs da montra 
partida. Agarramos sacos e enchemo-los com os produtos de segunda do Mr. Masterson  enlatados e carne de qualidade questionvel.
Agarro num frasco de picles e numa mo cheia de rebuados. Vejo a Tree, a meia irm do Morto, junto da caixa registadora. Pisca-me o olho enquanto enche a blusa 
com livros de banda desenhada. No tarda a ouvirmos as sirenes. A Tree desata a berrar para sairmos. Eu, a Joy e mais algumas pessoas seguimo-la e samos pela janela 
de trs para o beco nas traseiras da loja. Algum deitou fogo  loja. Podemos cheirar o fumo e ver as chamas do fundo da rua. Fugimos em fila indiana como se estivssemos 
a correr em cmara lenta, coladas ao muro, quando as luzes se atravessam no nosso caminho. A Tree e a Joy deixam-me  porta da grande casa branca. Vejo a Joy dirigir-se 
para casa com um saco de comida, colada s paredes dos edifcios escuros, esquivando-se s luzes dos carros da polcia. A Tree entra num beco que leva ao parque 
infantil com as tranas a esvoaar atrs dela.
Tento entrar pela porta das traseiras, mas a tia Merleen est sentada  mesa da cozinha.
 Onde estiveste?  pergunta inquisidoramente  No sabes o que est a passar-se l fora? Procurmos-te por toda a parte.
A tia Faith contorna pesadamente a mesa da cozinha fazendo estremecer os pratos no louceiro.
 O Samson est morto  digo eu.  Pegaram fogo ao Masterson  mudo o saco pesado de um brao para o outro.
 Isso no  motivo de orgulho. O Masterson era careiro, mas no matou o rapaz. Ele est a tentar fazer pela vida como todos ns.
 Qual  a preocupao? Vocs no fazem as compras l  respondo.
 Felizmente posso fazer as compras noutro lado. Nem toda a gente tem um carro para poder ir ao A&P  a tia Faith repara no saco de mercearias que tenho na mo.
 No permito que haja ladres nesta casa. D c isso  a tia Merleen arranca-me o saco das mos e atira-o para o caixote do lixo por baixo do lava-loia.
Saio a correr da cozinha e subo as escadas das traseiras para o meu quarto. Deito-me na cama a comer todos os rebuados que enfiei nos bolsos e a chorar pelo Warren, 
que poder nunca mais sair da cadeia, e pelo Samson, o mido mais bonito que alguma vez conhecera.
O dia a seguir  marcha  calmo. No bairro h recolher obrigatrio s nove horas. Na escola os professores s falam do comportamento violento dos amotinados e dos 
prejuzos materiais, e todos os alunos s falam em como lutaram. Depois da escola passo pela loja do Masterson e vejo que s restaram cinzas. O Mr. Masterson est 
sentado no carro em frente da loja com o olhar de quem acabou de perder o melhor amigo.
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No vou ao funeral do Samson, pois mandaram o seu corpo para o Alabama onde a me dele mora. Escrevo o seu nome na parede debaixo da minha cama e desenho um crculo 
de chamas  volta do seu nome para o manter quente.
D-se uma mudana no bairro depois da morte do Samson. As carrinhas da polcia deixam de vir ao bairro durante uns tempos e negros de outros bairros abrem pequenas 
lojas e outros negcios no fundo da rua e vendem carne fresca e produtos de primeira at abrir uma loja A&P apenas a alguns quarteires do stio onde tinha ardido 
o Masterson. A Joy diz--me que o NAACP teve alguma coisa a ver com a contratao da irm do Samson para trabalhar como caixa no novo A&P.
S estou autorizada a sair de casa para ir  escola e voltar. A maior parte das vezes a tia Merleen leva-me de carro e vai--me buscar. J no sinto prazer nenhum 
em guardar os livros na pasta e esconder a maquilhagem no estojo dos lpis desde que a Joy foi embora. O meu corpo est presente nas aulas, mas o resto no. A minha 
mente apanha comboios e inventa palavras que seguem uma geografia ntima. A minha distraco est bem visvel nas ms notas.
Os novos professores do liceu O. Williams, at mesmo os negros, parecem no se importar se eu passo ou no a lgebra. Mas a tia Merleen e a tia Faith importam-se; 
marcam inmeras reunies com os professores e com o vice-reitor. O reitor no se d ao trabalho de as receber quando elas vm  escola, est sempre demasiado ocupado 
a treinar a equipa de futebol e a lev-la  vitria. Mas manda-lhes uma carta a dizer que me expulsa se a minha atitude no melhorar. No melhora nada, mas eu guardo 
para mim toda a tristeza e raiva que sinto contra o mundo inteiro e o universo.
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Quando, dois meses depois da marcha, encontro a Boneca na drogaria na baixa, tenho medo do que ir acontecer se eu ficar nesta cidade. Ela diz-me que a me a ps 
fora de casa depois de ter o beb, um menino amoroso chamado Willie T. Lovell Jr.. O seu soldado foi para a Alemanha sem ela, a me dele deixou de aceitar chamadas 
dela a cobrar no destino e, finalmente, mudou o nmero do telefone. Dizia que achava que o beb no era do seu filho. A Joy diz que s no queria deixar de receber 
o cheque. Est a morar com a irm, a Nicky, e as suas duas gmeas num parque de campismo do outro lado da cidade. Olheiras profundas marcam os seus olhos.
 Vem visitar-me  diz ela, com um cigarro preso entre os seus quentes lbios rosa-vivo. D-me o nmero de telefone e prometo ligar-lhe, mas nunca o fao.
 A tua me telefonou hoje - disse calmamente a tia Faith quando cheguei da escola, como se estivesse a dar uma notcia bombstica. Est sentada  mesa da cozinha 
a dobrar um guardanapo de papel vezes e vezes sem conta.
 Onde  que ela esteve este tempo todo?  A minha voz soa como o eco numa sala vazia.
 Queres mesmo saber a verdade, querida?  pergunta a tia Faith respirando fundo, com os olhos postos no tecto como se procurassem uma pista por onde comear.
No sei se esta  a resposta certa, mas sussurro um sim e tento preparar-me para ir at onde ela est prestes a levar-me.
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Sento-me na cadeira ao lado dela deixando que os meus livros caiam ao cho.
 Ela vai voltar?  pergunto, com medo de ouvir mais e com a certeza de que morrerei por causa do medo que se espalha a partir do centro do meu corpo. Pouso a cabea 
na mesa e cubro o rosto com os braos, dobrando-os.
 Ela terminou um programa de luta contra a toxicodependncia, um programa dos bons, no Michigan. Esta foi a primeira vez que se aguentou num stio mais do que 
uma ou duas semanas. Falei com a responsvel pelo programa e ela disse-me que ela j tinha progredido bastante.  Pra de falar para ver se ainda estou a ouvir. 
Aperta a minha mo, larga-a e depois afasta-se da mesa da cozinha.  Quando a tua me era pequena ficava acordada at tarde a ouvir os comboios passar para poder 
viajar neles em sonhos. Adormecia e acordava sempre a pensar em viajar. Todas as manhs contava  Merleen e a mim onde tinha estado e todas as pessoas que tinha 
conhecido nos lugares por onde tinha andado durante a noite. Agora diz que est farta de viajar.
 E disse quando  que voltava?  pergunto.
 Disse que desta vez no te ia desapontar  a tia Faith esboa um sorriso, mas os seus lbios esto marcados pela tristeza.
Desta vez no vou fazer as malas e esperar por ela sentada  porta. Mas vou esperar. Todos os dias espero ouvir o som dos seus saltos altos na entrada, mas na segunda 
 o carteiro, na tera uma vizinha a devolver um tabuleiro de bolos que tinha pedido emprestado. Na sexta-feira sei que a minha me perdeu outro comboio. Mas  
noite ouo o som dos seus passos no corredor. Todas as noites me sento no primeiro degrau
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das escadas, a olhar para a porta  espera que se abra. Quando a promessa da minha me comea a desvanecer-se, decido que era capaz de gostar de fazer as minhas 
prprias viagens.
Todos os dias desafio as minhas tias para me expulsarem de casa. Falto s aulas, respondo torto aos professores, no entrego os trabalhos de casa, insulto o reitor, 
fumo na casa de banho e, s vezes, nem sequer apareo na escola. Tento falar com o meu pai, mas ele nunca est em casa. As minhas tias tentam falar com ele na esperana 
de ele ser capaz de fazer alguma coisa de mim. Depois de ter sido suspensa da escola pela terceira vez as minhas tias admitem que ganhei. Numa tarde chuvosa de 
Abril conseguem falar com o meu pai.
 Estamos velhas de mais para isto  oio a tia Faith repetir vezes sem conta. Estou sentada nas escadas, com os ouvidos virados para a cozinha onde elas esto 
ao telefone com o meu pai. Quando a tia Merleen me chama, o seu rosto  severo. D-me o telefone e sentam-se na cozinha, como pedras de jardim, observando-me. O 
telefone pesa-me na mo, sinto o auscultador quente contra a minha orelha. Fecho os olhos e escuto um som familiar.
 Mariah? Ests a?  A sua voz surpreende-me.  suave e preocupada.
 Estou aqui  respondo calmamente.       o teu pai. Querida, ests bem?
No hesito em testar o seu amor.
 Pap, posso ir viver contigo?  pergunto enquanto as lgrimas se formam na garganta.
 Sim, quero que venhas. Envio-te um bilhete amanh.
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Pronto, j est. Estou to feliz que choro durante o resto da nossa conversa, limpando o nariz s mangas. Quando me volto para devolver o auscultador s minhas 
tias, elas parecem tristes. Subitamente sinto-me culpada por as abandonar. Ti-nhamo-nos habituado a contar umas com as outras. Quem ir tirar as ervas daninhas 
quando a artrite da tia Merleen piorar? Quem ir ler as bulas dos remdios  tia Faith quando os olhos estiverem cansados? Elas compram-me livros e belas canetas 
e papel de carta para eu fazer aquilo que mais gosto. E amam--me, sei que me amam. Aprendemos a amar-nos umas s outras. Mas  tarde de mais para voltar a trs. 
Corro pelas escadas das traseiras acima parando apenas para danar no degrau barulhento. No tenho muita coisa para levar. A coisa mais preciosa que tenho  a mala 
verde. Depois lembro-me da Ro-semary. Apesar de a velha Rosemary se ter tornado na minha melhor amiga, pertence ao antigo namorado da tia Faith.
No dia anterior  minha partida declaramos trguas em casa. Elas no querem que o meu pai pense que no cuidaram bem de mim. No voltam a trancar-me no quarto  
noite e eu no tento roubar-lhes o carro. Contam-me mais histrias de quando eram pequenas e mais felizes. Chegamos mesmo a rir um pouco. Insistem em comprar-me 
roupa e sapatos novos.
No dia da minha partida a tia Merleen e eu percorremos o corredor como se fssemos para a priso. A tia Faith toca-me no ombro. Quando me volto diz:
 Esqueceste-te de uma coisa  est a segurar na Rosemary, metida numa caixa nova.  Cuida bem dela.  Abrao a tia Faith com tanta fora que espremo lgrimas de 
ns as duas. Elas prometem mandar-ma pelo correio antes de voltarem para casa.  O violoncelo vai estar  tua espera quando l
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chegares  promete a tia Faith. A tia Merleen passa por entre ns para ir pr o carro a trabalhar.
A caminho da rodoviria a tia Merleen passa um sinal vermelho. Antes de a tia Faith ter tempo de dizer alguma coisa a tia Merleen diz:  Quando voltares aqui esta 
velhota vai buscar-te  rodoviria.
 E podes apostar que quando eu estiver ao volante no passo o vermelho. No vou ser motorista de reserva toda vida. Bolas. Eu sei guiar, s no gosto de andar 
depressa  diz a tia Faith, e todas rimos como se fosse uma manh normal de tera-feira. A tia Merleen entra na bomba de gasolina e fica atrs de uma fila de carros.
 Porque  que no meteste gasolina ontem?  resmunga a tia Faith enquanto tira o suor da ponta do nariz.
 Ontem a fila estava o dobro. Ouve bem o que eu te digo... quando o mercado cair a srio as pessoas vo pensar que estamos outra vez na Depresso. Os preos da 
comida j esto to altos... Ainda bem que temos o quintal  diz a tia Merleen.
 Tudo por culpa daquele presidente. Inflao, recesso... So apenas palavras finas para depresso  diz a tia Faith olhando para o relgio.
 No te preocupes, vamos chegar a tempo  diz a tia Merleen falando alto enquanto puxa a bomba.
No estou preocupada, penso apenas se tomei a deciso acertada. Quando passamos a passagem de nvel que a minha me e eu atravessmos juntas, os sentimentos antigos 
voltam a crescer do fundo dos meus sapatos novos. Passei c tanto tempo que os comboios j deixaram de parar nesta cidade. A minha me vai ter de chegar c por 
outro meio, se  que algum dia
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vir, mas j no tenho tantas esperanas de isso acontecer. J no preciso delas. Na rodoviria sentamo-nos todas juntas, em silncio, vendo o relgio da parede 
comer o tempo. Quando o meu autocarro chega, a tia Faith comea a chorar. Apertam--me, apertam-me muito num abrao e recordam-me todas as coisas que nunca devo 
esquecer: Ser uma senhora... dizer as minhas oraes antes de ir para a cama... estudar muito.
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IX

Tenho um bilhete de ida para Los Angeles que o meu pai me mandou.  Primavera. Tenho quinze anos e sinto-me crescida, mas comeo a chorar quando o autocarro comea 
a afastar-se da rodoviria. Talvez tenha medo de estar a afastar--me das coisas com que posso contar e ainda no conseguir tocar nas coisas que eu quero. Durante 
oito anos soube que podia contar com a tia Faith e a tia Merleen para me alimentarem, vestirem e proporcionarem um lugar seguro para sonhar. Para alm disso deram-me 
um amor maternal que senti ser to slido como a f dos fiis da Igreja Baptista da Macednia. Estes pensamentos fazem com que as minhas lgrimas corram ainda mais. 
Elas deram-me carinho, quando essa no era a sua obrigao. Na minha escola h muitas raparigas a viver em asilos que nunca vm as famlias. Quero que a camioneta 
volte para trs para poder saltar e dizer-lhes o quanto as amo, que vou vencer na vida para que o amor delas no tenha sido desperdiado, mas  tarde de mais. Estamos 
a atravessar a ponte em direco ao Alabama.
 A nica certeza que tenho  que nada  certo  costumava dizer a tia Faith.
O meu primeiro companheiro de viagem  um jovem
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soldado. Sei que  soldado por causa do seu uniforme castanho com apenas uma insgnia nos ombros, tal como os que me lembro de ter visto no Kansas.  baixo e musculoso. 
O seu peito largo parece estar sempre cheio de ar. A sua pele cor de chocolate parece suave como seda castanha. Sei que ele vai querer meter conversa, pois apesar 
de a camioneta estar meio vazia escolheu o lugar oposto ao meu para se sentar. Pousa o saco e instala-se no banco. Comea a pigarrear e diz:  Desculpe, mas no 
a conheo de algum lado?  Aparecem-lhe covinhas nas bochechas redondas e os seus olhos sorriem. Ambos sabemos que nunca nos tnhamos visto antes.  Nunca esteve 
no clube NCO, na base?
Mal me pergunta o nome percebo que no tenho de ser a Mariah Kin Santos de quinze anos de idade. Posso ser qualquer outra pessoa.
 Chamo-me Marie.  Se ele pensa que me conheceu num clube deve pensar que tenho mais de quinze anos.
  um nome bonito. Assenta-te bem. Para onde vais,
Marie?
Gosto do modo como o meu novo nome soa na sua boca, como se eu fosse uma rapariga de uma cano.
 Para L.A.  Digo-o como se j l estivesse estado.
 No precisas de ir para l. L j existem demasiadas estrelas. Porque vais para l? Aposto que vais ser actriz ou algo do gnero.
Sorrio, lisonjeada com a ateno, e ele continua a falar. Chama-se Theotis e foi dispensado do exrcito por causa de um tmpano furado. Est a caminho de casa, 
no Mississippi. Fala do concerto Funkadelic a que assistiu no auditrio antes de se vir embora. Eu tambm quis ir, mas a tia Faith disse que
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tinha de me impor limites:  s demasiado nova para veres homens adultos a pavonearem-se com trapos na cabea e de fralda, a insultarem as pessoas e a falarem do 
que  ser funky. O barulho que eles fazem  suficiente para enlouquecer um surdo.
Em vez de ir ao concerto, fiquei a ouvi-los no meu rdio cor-de-rosa, debaixo dos cobertores, no programa Hora do lbum que deu  meia-noite.
 No concerto estavam todos pedrados. At alguns dos seguranas passaram o cachimbo da paz. Foi mesmo funky.  Ele ri-se das suas prprias piadas. Na primeira paragem 
de quinze minutos oferece-me um charro atrs da lixeira da Estao Rodoviria de Montgomery. Nunca tinha fumado droga, mas a Marie tinha, por isso fingi que no 
era nada de especial. Inalei como se fosse apenas um cigarro, mas o fumo  forte e faz-me tossir. O Theotis pe o brao  minha volta e diz-me para ter calma. Alguns 
minutos depois sinto-me leve e sem preocupaes. No existem mais lgrimas, mais medos. O Theotis compra Coca-Colas, sanduches de presunto e imensas barras de 
chocolate para ambos.
Quando voltamos para a camioneta, senta-se ao meu lado. Depois de comermos adormeo com a cabea no seu ombro. Quando atravessamos a fronteira estadual do Mississippi, 
ele diz que se apaixonou por mim. Como prova do seu amor, oferece-me um pequeno saco de plstico cheio de droga que tirou de dentro do seu saco. Ensina-me a enrolar 
um charro para ficar fino como um cigarro. Conta-me tudo que quer fazer na vida.  to seguro de si. Diz-me que em breve se mudar para Nova Orlees para pilotar 
carros de corrida.
 Os homens negros no tm este tipo de oportunidades
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no Mississippi. Vou fazer algo da minha vida.  Acredito nele.
 Marie, tu s uma rapariga muito bonita  diz ele quando chegamos  sua paragem, em Vicksburg.  Um dia irs fazer algum muito feliz. Quem me dera ser esse homem. 
Continua a ser assim, to doce.  Beija-me os lbios fugazmente e vejo as suas costas enormes a avanarem pela coxia fora e a entrarem na noite fria do Mississippi.
O Theotis acena enquanto a camioneta se afasta da estao. Guardo a sua morada no bolso e pergunto-me quem serei da prxima vez.
Sozinha com os meus pensamentos, pergunto-me se a minha me, quando saiu de casa, alguma vez olhou das janelas para Phoenix City, Union Springs, Selma, Demopolis 
ou os interminveis quadrados dos campos do Sul. Pergunto-me se esta viagem ser a ltima. Espero que Los Angeles seja para mim o final da viagem. Nesse aspecto 
no me pareo com a minha me, no gosto de viajar, gosto de ficar num lugar.
Perto da meia-noite, em Shreveport, no estado da Loui-sana, uma mulher negra j velha, com uma caixa de sapatos cheia de galinha frita e metade de um po branco 
fatiado, enfia a custo o seu corpo volumoso no lugar ao meu lado. Sinto o cheiro a galinha frita e o po cai-me no colo quando ela tenta arrumar a sua mala de carto. 
Senta-se com um grande suspiro e depois abre o rosto inteiro num bocejo.
 Pareces demasiado nova para viajares sozinha, querida. Para onde vais?  Oferece-me um pedao de galinha.
 salgada, gordurosa e muito saborosa. Nunca tinha comido nada to gostoso em toda a minha vida. Comemos
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uma galinha inteira e o po todo em menos de quinze minutos. Digo-lhe que o meu nome  Annette.
 Annette  um nome doce  diz ela.
O seu nome  Irm Lavine. Sorri muito, mas no parece ser uma mulher feliz. Parece estar s no mundo, mas diz que Jesus satisfaz todas as suas necessidades. A Irm 
Lavine est a caminho de uma conveno de missionrias no Texas para reclamar almas africanas para Cristo. Como sou boa ouvinte, ela oferece-me uma pequena bblia 
branca e alguns panfletos. Diz que ir rezar por mim. Tento no me rir quando me d um pedao de tecido vermelho com as extremidades em ziguezague e me diz para 
o guardar na carteira. Diz que  um tecido de orao, um de apenas uma dzia que ela recebeu de um pastor da televiso em troca de um pequeno donativo. Assegura-me 
que se eu tiver f nas minhas oraes a minha carteira se manter sempre cheia de dinheiro. Agradeo-lhe e guardo-o no meu bolso junto de trs notas de vinte dlares 
novinhas em folha que as minhas tias me deram para alguma emergncia. No acredito que o tecido vermelho multiplique o dinheiro que j l est, mas no custa tentar. 
Tento recordar um ritual que a minha me tinha para fazer aparecer dinheiro num sobrescrito que guardava debaixo da cama, mas no consigo. Ainda acredito em Deus, 
mesmo sabendo que me faz sonhar com coisas impossveis.
 de madrugada quando a Irm Lavine sai na sua paragem, no Texas. Fico sozinha durante muito tempo. Pela minha janela passam pequenas localidades e cidades. O tempo 
est pesado e avana lentamente no calor. Pntanos, rios, bosques fechados, campos de milho, algodo e sementes de soja estendem-se ao meu lado e afastam-se a cada 
quilmetro que
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passa. Sinto-me como se estivesse a perder a pele. A minha mente est atolada em pensamentos. Vejo trabalhadores migrantes a apanhar legumes sob o sol escaldante 
e pergunto--me se eles falaro espanhol e se algum deles conhecer o Jesus Miguel Monteverde. Queria estar grvida dele. Desejo de todo o corao que o meu pai 
me ame como eu teria amado o meu filho.
A travessia do Texas parece demorar uma eternidade. Est quente e hmido e o ar condicionado da camioneta est avariado. Chegamos  estao de Dallas antes do pr-do-sol. 
Temos trs horas de diferena horria. Vejo tabuletas indicando chuveiros pblicos e dirijo-me a eles. Dentro da enorme casa de banho h uma fila de sanitas pagas 
e vrios chuveiros enormes com uma caixa de metal na porta para introduzir dois dlares em moedas. Encontro oito moedas de vinte e cinco cntimos, meto-as na ranhura 
estreita e abro a porta, pouso a mala verde num banco baixo de metal que se estende ao longo de uma parede e dispo-me. Tiro as minhas calas de ganga funky e a 
T-shirt suada, meias e roupa interior, e enfio tudo numa bolsa lateral. Ponho as sapatilhas em cima da mala e dou meia dzia de passos at ao outro extremo do compartimento. 
Afasto a cortina de plstico florida, rodo as torneiras ferrugentas e um esguicho de gua forte cai sobre mim. A gua est quase fria, mas sabe-me bem. Abro uma 
pequena embalagem de sabonete com cheiro a remdio e livro-me do p de todas as estaes, cidades e localidades. Passo o corpo por gua fria. Quando termino, sinto-me 
to limpa como uma moeda acabadinha de cunhar. Esqueci-me que no tenho toalha. Sacudo-me para me secar o mais depressa possvel e depois uso a camisa para secar 
o resto da humidade. No outro
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lado do chuveiro passo leo de beb no rosto e no corpo, visto umas cuecas lavadas e um top elstico amarelo que faz o meu peito parecer maior, e um vestido largo 
de algodo branco com alas cruzadas nas costas. Enrolo as fitas de umas sanDallas brancas  romana  volta dos tornozelos. Quero pr-me bonita para o meu pai. 
Lavo os dentes e penteio o cabelo  volta dos ombros para secar naturalmente e dar um efeito de um penteado africano menos volumoso e de risca ao meio.  um tipo 
de penteado que a tia Faith diria fazer parecer que fui dormir antes de acabar de pentear o cabelo. Parece que ainda a estou a ouvir apesar de ela estar na Gergia. 
Procuro os fsforos na carteira e dou algumas passas num dos charros que o Theotis me deu. Fico imediatamente relaxada.
Sento-me na sala de espera. Faltam duas horas e meia para a ligao de camioneta para Los Angeles. Olho  minha volta. H muitos cowboys e ndios, mexicanos e velhos 
vestidos com roupas coloridas, de vozes estridentes e olhares curiosos. Alguns velhos passam por mim, pedindo-me trocos com a palma da mo esticada e os olhos famintos. 
Uma mulher de cabelos eriados e um avental por cima do que parecem ser trs vestidos de comprimentos diferentes caminha lentamente em crculos murmurando para 
si prpria. O que  que poder fazer que uma pessoa acabe assim? Ficar sem emprego, sem a pessoa que se ama? Pergunto-me se a minha me ter um lar algures. Pergunto-me 
se ela estar louca algures. Acho que sou afortunada. Afortunada por ter para onde ir, por ter algum  minha espera quando chegar.
O meu estmago ronca. Tenho fome, na realidade estou esfomeada e farta de comer sanduches sadas de mquinas. Um velho, com cara de ser av de algum, senta-se 
ao meu
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lado. A sua pele  escura, bronzeada como uma couraa e parece enrugada como papel amassado. Um cowboy de cabelo prateado.
 Para onde vais?  pergunta, e oferece-me um cigarro.
 Para L.A. Vou visitar o meu velho  digo eu. Tiro um cigarro do mao.
 Como te chamas?
 Tina  respondo, por ter uma sonoridade sexy e ser assim que eu me sinto.
 De onde vens, Tina?  pergunta ele lentamente, com um forte sotaque texano. Acende-me o cigarro, depois passa os dedos longos atravs do cabelo grosso e encaracolado. 
Os seus olhos escuros perscrutam-me o rosto em busca de uma resposta.
 Da Gergia.
 J estive na Gergia uma vez. Fiz l a tropa.
 Como  a vida em Dallas?  pergunto, reparando nas suas longas pernas cobertas pelas calas de ganga azuis terminando numas botas de cowboy pretas e poeirentas.
 Se ficasses c alguns dias podia mostrar-te a cidade. Toca nos pequenos botes de prata na gola da camisa de
ganga.
 Tenho algumas horas para gastar. Conhece algum stio perto onde eu possa comer alguma coisa? Estou farta de comida de mquina.
 Conheo um bom restaurante mexicano no muito longe daqui.
Observa-me, admirando a minha figura. Aceito o elogio. A razo abandona-me. Guardo a mala verde num cacifo grande. Atravessamos o parque de estacionamento at ao 
carro
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dele. Abre-me a porta do seu Pinto laranja. Promete trazer-me de volta  estao a tempo. Mantm-se em silncio enquanto acelera pela auto-estrada. Comea a escurecer.
 Ainda  longe?  comeo a ficar nervosa.
 O qu?  diz, mantendo os olhos na estrada.
 O restaurante mexicano.
 No, no fica longe.
No fala directamente para mim, apenas diz os nomes dos edifcios que se recortam no cu de Dallas  medida que passamos por eles. Finalmente sai da auto-estrada 
em direco a uma estrada estreita de terra batida e a um campo de milho. A noite est cair. Pra o carro e vira-se para mim.
 Porque parmos aqui?
 Noite bonita. Olha para todas estas estrelas. No vs estrelas como estas na cidade.
 Pensava que fssemos comer.
 Eu arranjo-te alguma coisa para comer mais tarde. Estica-se em direco ao meu banco, tenta beijar-me, mas
eu afasto-me. A sua voz  calma, nada ameaadora, mas muito sria.
 Tira as cuecas, Tina.
J no quero ser a Tina. Tenho medo, mas tento no o demonstrar. Mantenho a calma.
 Acho melhor levar-me  estao. Posso perder a camioneta. O meu velho vai ficar preocupado se eu me atrasar.
 Neste lugar no h espao para preocupaes  diz ele.  Ningum te pode ouvir.
Mostra-me uma faca que tirou de debaixo do banco. Passa o lado da lmina lentamente pela minha coxa. Comeo a chorar.
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 No quero  digo eu, tentando respirar. Ponho a minha mo na maaneta da porta e penso nas hipteses que tenho de fugir dele.
 Olha l mida, eu no te quero magoar, O.K.? Agora tira as cuecas. No quero ter de te dizer isto outra vez.  Guarda a faca e pousa ambas as mos nos meus ombros.
Mexo as ancas e empurro as cuecas pelas coxas abaixo, tirando-as pelos ps. Ele afasta-as de mim e atira-as para cima do tablier. Obriga-me a passar para o banco 
de trs e a deitar-me de costas. Consigo ouvir o cinto a ser desapertado, o fecho das suas calas a abrir. Passa tambm para trs e pe-se em cima de mim.  pesado
e mal consigo respirar. Tem um cheiro fresco, a sabonete com aroma a Primavera. Os botes de prata da sua camisa batem contra a frente do meu vestido. Esfrega--se
em mim rapidamente, repetidamente, ignorando os meus gritos. Antes de entrar em mim veio-se no meu vestido. Olho pela janela e conto estrelas no cu do campo. No
h nada azul na paisagem.
 Vira-te. Eu no me venho dentro de ti  promete. Afasta-me as pernas e entra em mim, desta vez mais devagar. Sinto-me a morrer.
A para anans... B para beb... Cpara carro... D para dinossauro... E para elevador... F  para fugir, fugir para longe. Estou debaixo de gua. Estou a afogar-me,
a afogar-me, a afogar-me. Grito, mas no sai som algum da minha boca.
Quando abro os olhos ele ainda l est.
 Desculpa  diz, choramingando.  Desculpa-me.
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Toca-me docemente com as costas da mo grande e dura como se estivesse a ser sincero. Abraa-me contra o peito como se eu fosse uma menina. Parece av de algum 
e cheira a sabonete. Apetece-me raspar a pele com uma faca e pelar todos os lugares onde ele me tocou. No apenas no exterior onde os seus dedos passaram, mas dentro 
de mim onde sinto algo frio, duro e partido. Nunca mais quero ser tocada. Quero descascar-me como uma laranja, deixando apenas  vista a polpa esmagada para que 
ningum mais queira tocar-me.
Tenho medo de respirar enquanto estou enrolada nos seus braos fortes. Finalmente afrouxa o abrao para acender um cigarro. Suga o cigarro, expelindo o fumo doce 
pela janela e para longe da minha cara. Durante algum tempo tudo est silencioso na escurido excepto o ritmo da nossa respirao.
 No queria magoar-te. Desculpa. Nunca mais volto a magoar-te.
Conduz em silncio de volta  estao. Escreve o seu nome e nmero de telefone num pedao de papel e diz-me para lhe telefonar se alguma vez me meter em sarilhos 
ou se o meu pai no for bom para mim. Saio do carro, caminho em direco  estao, tiro a minha mala do cacifo e volto para a casa de banho. No chuveiro no consigo 
pr-me limpa. Desligo a gua e ouo-me a chorar. Seco-me com lenos de papel e passo leo no meu corpo ferido. Visto umas cuecas lavadas, as calas funky e a T-shirt 
que tinha vestido antes. Calo as sapatilhas sem meias. Enrolo o vestido branco e ponho-o na lata do lixo com os lenos molhados. Rasgo em bocados o pedao de papel 
com o seu nome e nmero de telefone e atiro-os pela sanita abaixo. No quero lembrar-me de nada,
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mas lembro-me. Cada dgito est tatuado na minha carne. O seu nome est gravado na minha testa. Olho para o espelho que est por cima do lavatrio para ver se ainda 
sou a mesma pessoa.
O rosto da Mariah est l, mas ela est morta naquele campo. Lavo o seu rosto no lavatrio deixando que a gua o inunde e caia no cho. O som da gua a correr  
calmante. Escovo o seu cabelo at fazer um rabo de cavalo. Ela fuma um pouco de droga e relaxa. Passado um bocado j no sente nada. J nem sequer tem fome. No 
pensa contar a ningum.  tudo culpa dela.
Telefono ao meu pai para dizer que perdi a camioneta. Ele diz que vai ter comigo  estao e que leva um fato branco vestido.
 No fujas com nenhum desconhecido  diz ele a brincar.
H um estranho com rosto de av a dormir nos meus ossos. Brevemente ser o rosto que eu apunhalo nos meus pesadelos, mas que no consigo matar, o sabor amargo na 
minha boca, o mau cheiro no ar, a humidade pegajosa nas minhas coxas, permanente como o azul-ndigo, duro como os dentes de um fecho estragado a morder-me a carne 
mais macia. Brevemente separarei cada pequena dor, cada memria at nunca ter acontecido. A Marie, a Annette e a Tina esto mortas.
132

X

Sou a ltima pessoa a sair da camioneta em Los Angeles. Os meus olhos ressentem-se com a luz forte de Vero. Quando deso sinto os hematomas na face interna das 
coxas feitos pelo homem que esmagou o meu corpo contra o banco traseiro de um carro num campo de milho numa noite estrelada do Texas. Os seus sussurros assemelham-se 
a ondas que batem nos meus ouvidos. E se eu tivesse resistido... se tivesse fugido... ou contado a algum? O sol aquece-me a pele, mas  estranhamente fria a sensao 
de estar viva. Derramo lgrimas perguntando-me por que  que o sol brilha tanto quando dentro das minhas entranhas s existem nuvens negras. Matei de muitas maneiras 
violentas o homem que molestou o corpo que parece pertencer a outra rapariga. Atei-o a um poste telefnico e deixei-o ler-me os pensamentos homicidas enquanto lhe 
atropelo o corpo ao volante de um camio do lixo. Apunhalei-o com a sua prpria faca enquanto ele pede misericrdia, pendurei-o num carvalho e abri-lhe no peito 
buracos do tamanho de mas. Meti-o num poo repleto de cobras venenosas, meti-lhe um bicho no ouvido e fiquei a observ-lo a perder o crebro. De todas as vezes 
ele pede misericrdia, mas eu no me comovo.
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Sinto-me to cansada. Quero que a minha me me embale at adormecer. Quero telefonar  tia Faith e  tia Merleen, mas tenho medo do que elas possam pensar de mim. 
Manti-veram-me em segurana durante tanto tempo que eu no sabia que a vida podia ser to perigosa. No sei se estou a chegar ou a partir ou em que direco  seguro 
ir. No sei o que me espera no prximo quilmetro. Este  o lugar mais solitrio em que alguma vez estive. Quero ir para casa, para o lugar onde ainda tenho esperana 
de esticar os braos e sentir as mos da minha me. Para casa, onde palavras nascidas da minha lngua possam ser vertidas na boca da minha me. H medos que ningum 
pode apaziguar. Manhattan, no Kansas, no era um lugar perfeito, mas era seguro e era o meu lar. Foi l que aprendi a danar como se o mundo no tivesse cho nem 
tecto, princpio nem fim. A minha me chamava-lhe a Dana de Manhattan, Kansas, pois a maneira de se danar no importava, o que importava  que se danasse como 
se essa fosse a ltima vez.
Respiro fundo. O ar que exalo faz-me sentir leve. Os meus olhos enevoados perscrutam a estao. Procuro algum que se parea comigo. Algum unido a mim pelo sangue 
para no me voltar a sentir s e sem mos a que me agarrar. No balco de informaes vejo-o antes de ele me ver a mim. O meu corao dispara por ele ser meu pai 
ou por ser o meu cavaleiro andante vestido com um fato de linho branco? Esperei milhares de quilmetros e passei noites em branco  espera deste momento e no me 
sinto desapontada. Est encostado s colunas do lado de fora da estao, com os braos cruzados e a cabea inclinada para o lado como se estivesse a ouvir o som 
dos meus passos. A sua cabea est coberta por uma
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onda de cabelo espesso e escuro. O seu rosto  esguio, da mesma tonalidade de moreno que eu tenho, com uns olhos repletos de pestanas enormes e espessas como as 
de uma mulher. A boca  grande e sorridente, cheia de dentes enormes, brancos e perfeitos, como uma estrela de cinema. Tem um tipo de beleza que faz homens e mulheres, 
novos e velhos, mesmo na Califrnia onde todos so bonitos, pararem para olharem outra vez. Parece ainda muito novo, saudvel e sem aquele ar de pai. Pergunto-me 
se serei realmente sua filha. Pergunto-me se as pessoas  nossa volta pensaro que ele  meu namorado. O corao bate com fora no meu peito.
Sinto o efeito da droga que fumei na ltima paragem a desvanecer-se. Ainda no tinha voltado ao normal desde Dallas. A sensao de estar a flutuar afasta-me da 
dor. Enquanto caminho na sua direco, os seus olhos perscrutam o meu corpo. Fica pasmado como se no conseguisse acreditar no que os seus olhos lhe dizem. Gagueja 
ligeiramente como se tivesse medo de atirar a prxima palavra para o ar que nos separa.
 Mariah. Ests to crescida  diz, parecendo surpreendido.
 Ol, Pap  digo eu, simplesmente, com a garganta cheia da pronncia sulista e a dor de um segredo que nunca poderei revelar. Gostava de o conhecer bem para poder 
cair nos seus braos e afogar no seu peito o significado da palavra dor. Em breve, ele ser tudo para mim.
 Trata-me por Matisse  diz ele sem pestanejar. Sentimo-nos pouco  vontade, mas quando o vejo quase
esqueo Dallas. Parece que tudo aconteceu h tanto tempo. Mas o meu corpo  como um campo de batalha. Quando toca
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no meu rosto, o meu corpo reage como se as suas mos fossem pequenos fogos a apagarem-se na minha pele. Abraa-me com tanta fora que a minha respirao  interrompida 
e o meu corpo se torna rgido, mas ele no repara ou no liga. Dentro da minha cabea uma nova voz diz-me que o toque pode ser perigoso.
Toca no meu cabelo e sorri. No parece ter ficado desapontado comigo. Relaxo um pouco.
 gua  digo, afastando-me um pouco dele.  Posso beber um pouco de gua, por favor?
Isto distrai-o. Levanta a mala do cho e pega-me na mo. Leva-me a um chafariz e fica a ver-me beber, como se tivssemos todo o tempo do mundo. Molho as mos e 
comprimo-as contra o rosto. O meu pai sorri. O meu pai leva-me a mala. O meu pai leva-me para casa.  um milagre. Um sinal de que, a partir de agora, tudo correr 
bem.
Est maravilhado comigo. To novinha. Se eu fosse a sua filha recm-nascida despir-me-ia e contaria os meus dedos, observando maravilhado a textura da minha pele, 
sentindo o meu cheiro, medindo o meu nariz e os meus lbios to semelhantes aos seus. Com respeito e reverncia, beijaria e acariciaria o meu pequeno rosto, pescoo, 
mos e ps. Ficaria maravilhado com o milagre do nascimento de uma menina perfeita. Mas sou uma mulher. Cheguei at ele desfeita e desiludida com o mundo. Os meus 
lbios esto cheios de beijos de adulto, a mente repleta de pensamentos adultos. Os meus membros marcados com hematomas de adulto. Tenho o corpo de uma mulher.
O Matisse conduz velozmente o seu velho Renault cinzento pela via-rpida. O vento  barulho branco aos meus
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ouvidos. Mostramo-nos tmidos um com o outro, roubando olhares quando pensamos que o outro no est a olhar. No conversamos mais. Ele trauteia uma cano qualquer. 
Olho pela janela para as palmeiras e para o cu azul, sinto o sol no rosto e o fumo dos carros na boca. Tiro os cigarros dados pelo homem que me molestou e esmago 
o mao vermelho e branco na mo. Sei que matarei a memria daquela noite um minuto de cada vez, durante o resto da minha vida. Atiro o mao pela janela para a via-rpida.
 Porque fizeste isso?  olha-me contrariado.
 Tenho de deixar de fumar  respondo mecanicamente. Olho para a estrada  nossa frente com a mente muito longe, to longe quanto me posso afastar do Texas sem 
morrer.
 Estamos a comear bem  diz sarcasticamente.
O apartamento do meu pai, um primeiro andar,  pequeno e com pouca moblia. Um quarto. Ele diz-me que tenho de dormir na sala, na cama com uma coberta de ganga. 
Uma janela panormica velada com cortinas brancas mostra uma fila de apartamentos e restaurantes de comida rpida na zona ocidental de Hollywood. As paredes brancas 
esto cobertas com grandes quadros coloridos com rvores azuis e figuras enevoadas correndo na escurido. No canto, perto da aparelhagem e do televisor, choraminga 
uma rvore semi morta. Esta  a minha nova casa. Vou adaptar-me a esta nova vida. Quando vejo a Rosemary encostada a uma parede  minha espera quase choro. Quero 
abri-la, apert-la contra mim e deixar que ela me cure. Mais tarde, quando estivermos ss, retirarei conforto do seu corpo e enrolar-nos-emos em sonhos e em doce 
msica azul.
O Matisse pousa a minha mala no cho, junto  cama, e
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leva-me  sala de jantar onde a mesa e trs cadeiras enchem o aposento. Depois da sala h uma pequena cozinha com electrodomsticos reluzentes de ao inoxidvel. 
Cheira a carne queimada e a vinagre. Voltamos para a sala de estar e continuamos pelo corredor fora passando por um pequeno quarto de banho cor-de-rosa. Ao fundo 
do corredor est o seu quarto com uma cama das mais largas feita com lenis brancos e meia dzia de almofadas volumosas. Parece uma ilha. Subitamente, o cansao 
apodera-se de mim e sinto que poderia dormir dias a fio. Sento-me na cama e olho para ele, a sua imagem agita-se como uma bandeira  frente das persianas abertas. 
A luz  demasiado forte.
 Posso deitar-me aqui?  pergunto, inclinando-me em direco  grande ilha branca que era a sua cama, fechando os olhos.
 Claro. Tenho de sair por um bocadinho. H comida e refrigerantes no frigorfico.
Ele fecha as persianas e liga o ar condicionado.
Dobra-se e desaperta-me as sapatilhas, tirando-as ao mesmo tempo que as meias. Sinto-me uma menina acarinhada e mimada, como se as minhas necessidades fossem a 
nica coisa que interessasse.
 Pe-te  vontade. Dorme um pouco. Podes desfazer as malas mais tarde.
A sua voz  um murmrio distante. Enrosco o corpo e caio num sono profundo. No meu primeiro sonho de Hollywood o tempo  perfeito.
Quando acordo j  noite e estou sozinha na ilha branca. Tacteio at encontrar o interruptor do candeeiro que est ao lado da cama. Sinto-me tonta, a minha cabea 
est a girar e
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sinto formigas invisveis nas pernas. Olho para o telefone, perguntando-me se devo telefonar para casa. Com os dedos desenho a palavra na parede branca por cima 
da cama do meu pai como se a quisesse tornar real. Casa. Passado algum tempo volto a deitar-me no escuro, mas no h sonhos que me confortem. Quando o telefone 
toca, o susto  tal que dou um salto, pousando os ps no cho e esticando o brao tentando agarrar algo slido. Derrubo o candeeiro. No sei muito bem o que fazer. 
Talvez a minha me lhe telefone. E se  a voz dela ao telefone? O que direi? Como posso pronunciar palavras que nos voltem a juntar? O telefone toca dezenas de 
vezes, pra e depois volta a tocar. Finalmente levanto o auscultador.
 Estou?  pergunto no meio de um nevoeiro de sonolncia.
 Porque  que no atendeste da primeira vez?  pergunta a tia Merleen impaciente.
 No sabia se devia atender o telefone.  Sento-me na cama e conto os quadrados das portas de correr do armrio do meu pai. Quero dizer-lhe que tenho saudades, 
mas as palavras no me saem da boca.
 Onde est ele?  pergunta a tia Faith nervosamente do outro lado.
 Saiu.  Quero explicar-lhes como estou cansada.
 Ele deixou-te a sozinha?  A tia Merleen est furiosa.
 Ele j volta  grito, para a acalmar.
Cai um breve silncio durante o qual a tia Merleen passa a lngua pelos dentes.
 Diz-lhe para nos telefonar amanh. S queramos saber se tinhas chegado bem.  H uma chaga a abrir na voz da tia Faith.
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 Estou bem. Est tudo bem  respondo com mais suavidade.
 No lhe fales no dinheiro que te demos. Telefona se quiseres voltar para casa.  As suas vozes fundem-se.
 Sim, senhora  respondo, abrindo uma pequena caixinha de dor. Elas lembram-me que deixei uma coisa preciosa com elas. Agora tenho duas casas.  Obrigada  lembro-me 
de ser uma senhora. Elas educaram-me bem. Aprendi a no demonstrar os meus sentimentos, por isso tento no mostrar as saudades que tenho do nosso dia-a-dia juntas.
Horas depois, quando o Matisse regressa a casa, encontrame sentada na sala a ver televiso. Nunca tinha visto tantas horas de televiso seguidas e estou fascinada 
at com a publicidade. Ele senta-se ao meu lado e abraa-me como se fosse a primeira vez.
 Como est a minha menina? Dormiste bem?  pergunta com o brao  volta dos meus ombros.
 Bem  respondo, sentindo uma parede de vidro erguer-se  volta do meu medo. No  verdade, toda a felicidade que eu imaginei sentir neste momento no chegou, 
mas penso que bem era a palavra que ele queria ouvir. Digo isto para o descansar. Quero sentir-me parte de uma famlia, o que quer que isso signifique. Como se 
eu pertencesse ali, como se pertencssemos um ao outro. O meu corpo est rgido nos seus braos, ainda no o conheo.
 Bem. Est tudo bem  repito como se fosse uma orao.
Mas nada volta a ser como dantes. O som da chuva a cair faz-me chorar, tal como a palavra milho, o cheiro a sabonete, a cor de laranja e o sabor da comida mexicana. 
No falo mais
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alto que um murmrio. No conseguiria gritar mesmo que quisesse, e at tentei, mas dos meus lbios magoados s saem sons invisveis.
 Ests to calada  diz o meu pai durante o nosso primeiro jantar em famlia.
Tiro as tirinhas de pimento da minha fatia de pizza e ponho-as na borda do prato de papel.
 Queres comer outra coisa?
 No tenho muita fome  digo, contando as fatias de carne no meu prato.
 Amanh vamos a Redondo Beach. Gostas de marisco?
  fixe  respondo formando uma pirmide com as tiras de pimento.
 Diz-me de que  que gostas. Qualquer coisa. O que  que te davam de comer l no Sul para seres assim to calada? Po de milho e pernas de doninha?  Ri-se e recolhe 
os pratos de papel. Est a tentar amar-me, mas no consegue compreender a tristeza profunda que me assola a cada refeio.
A primeira vez que tomo banho na casa de banho cor-de--rosa dou por mim a trautear uma cano sob o esguicho de gua quente. Por isso no ouo o meu pai entrar, 
apenas vejo a sua sombra no lavatrio e o rudo de gua a correr. Abro a boca e esmago o meu corpo nu a um canto do chuveiro, tentando tapar-me.
 Eu saio j  diz ele sem cerimnia e comea a escovar os dentes. Sinto que comeou uma guerra dentro da casa de banho pequena e cheia de vapor. Tremo, sustendo 
a respirao com o corpo contra a parede. Os azulejos frios deixam
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sulcos nas minhas costas. Tenho medo que ele abra a porta de vidro embaciada e me deixe marcas que terei de apagar. Mas ele no faz nada. Continua a lavar os dentes, 
o rosto e as mos. Passada uma hora, ou pelo menos assim me pareceu, diz: - Hasta luego.  Depois deixa-me sozinha na casa de banho. 
Quando o meu pai est em casa no tomo banho muitas vezes. s vezes fico sem tomar banho durante vrios dias. Ele refila, mas no me importo.

J estamos juntos h duas semanas. Mantenho a distncia, mas quero saber tudo acerca dele. No fala muito e eu no sei como raspar a superfcie das suas respostas.
 Temos mais famlia?  pergunto, depois de termos comido o nosso jantar de comida rpida chinesa.
Limpa a boca delicadamente, um gesto que parece significar que est a reunir coragem para contar algo que o incomoda. Levanta-se da mesa e pe-se ao lado da janela 
que d para o beco nas traseiras do apartamento. Fala para a janela.
 Vivem em Seattle. O meu pai vive com a tua tia Corrina e a famlia dela. H anos que no os vejo. Desde que a minha me morreu.  A voz treme-lhe na palavra Me.
 Porqu?  Fico desapontada. Nas minhas fantasias imaginava uma grande famlia com dezenas de primos e reunies familiares na praia. Irmos e irms para me mimarem 
e para me lembrarem que nunca mais estarei sozinha no mundo.
 Sou a ovelha negra da famlia. O meu pai era um grande msico na dcada de quarenta. Tocava contrabaixo numa banda de jazz,  da que vem o teu talento musical.
 E ensinou-te a tocar?  pergunto.
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 Nunca estava em casa tempo suficiente para me ensinar nada a no ser a ler horrios de comboio para saber quando  que ele ia voltar para casa. O meu pai viajava 
com a banda e a minha me ficava em casa a tomar conta de ns. Eles queriam que os filhos tivessem uma profisso liberal. O meu pai  que queria, na verdade, queria 
que fssemos profissionais competentes, respeitados. Pensava que ficaria bem visto se nos tornssemos mdicos, professores ou engenheiros. A minha me s queria
que fssemos felizes. Eu sou uma grande desiluso para ele.  No consigo ver-lhe a cara, mas a sua voz  baixa e pesada.
 O que  que tu querias ser?  pergunto. Ele no hesita.
 No queria ser nada. S queria pintar.  Volta-se para olhar para mim. Tem os braos cruzados sobre o peito.
 O que  que queres fazer com a tua vida?  pergunta--me. No sei se posso confiar nele. Abro a boca para falar, mas  ridculo. Tocar violoncelo, escrever, viajar 
de avio. So coisas que quero fazer e no coisas que acredite poder fazer como profissional. No sei se  isso que ele quer que eu diga.
 Ainda no sei.  Encho a boca com outra garfada de arroz frito antes de ele fazer nova pergunta.
Diz-me que a minha tia Corrina  arquitecta. O marido dela  um agente imobilirio bem sucedido e tm duas filhas muito novas.
 Eu abandonei a escola quando tinha dezassete anos. Queria ser artista. Cheguei a San Francisco por volta de 1955. Vivi nas ruas durante um tempo. No h fascnio 
nenhum nisso. Para ganhar dinheiro arranjei emprego nas docas a carregar navios e, depois, comecei a pintar casas com um amigo. Aprendi por mim mesmo a pintar retratos. 
A tua me foi um
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dos meus primeiros modelos.  Calou-se e olhou-me nos olhos.  Conheces o artista francs Matisse?
Confirmo com a cabea.
Passei a usar o nome de Matisse, porque tinha de ser uma nova pessoa e no o filho do Joe El.  Fica em silncio por uns momentos, transformando o seu guardanapo
em farripas.
 Quero fazer palavras to deliciosas que as pessoas vo querer com-las  digo, decidindo confiar nele. Rimos. Parece ridculo, mas ele leva-me a srio.
 Tudo  possvel  olha novamente para o beco como se estivesse a recordar os seus prprios sonhos deliciosos.
 Encontrei um poema. Mandaste-o para a minha me  digo, quebrando o silncio.
 A Coral costumava dizer que lambia a tinta das minhas cartas at a lngua ficar azul, para memorizar os poemas na barriga. A tua me era uma verdadeira inveno. 
Lembras-te?
Lambo os lbios como se conseguisse sentir o amor palpitar entre eles. Sentir o sabor dos poemas que me tinham alimentado quando estava no seu ventre. Abano a cabea 
negativamente desejando ardentemente lembrar-me.
 Quando nos conhecemos no tinha muito a oferecer  Coral excepto amor, poemas e uma mo cheia de quadros. Na altura no acreditei que fosse o suficiente. Gostava 
que isso no tivesse tido importncia, mas era jovem e filho do meu pai. Queria tomar conta dela, como um homem deve cuidar da mulher que ama, mas no acreditei 
que pudesse fazer isso e ser tambm um artista. No podia deixar que uma mulher tomasse conta de mim, mas ela ofereceu-se.
Quero que ele me conte mais. Aproxima-se da mesa e
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puxa uma cadeira para perto de mim. Pousa a cabea na mesa e continua a falar.
 Depois de ela ter partido, pintei quadros dela todos os dias. Na nossa primeira noite juntos acordei com ela nua a andar  volta da cama recitando aquele poema 
Un rio depro-mesas... Encontrou uma coleco de poemas de Nicols Guilln numa livraria em La Brea. Ela queria aprender espanhol. Era to bela.
 Ela no est morta.
 Mas no est aqui.
 Talvez volte para ns.  Afago-lhe as costas para o confortar. Ele apoia a cabea nos braos em crculo e suspira.
 Talvez. Ela abriu-me da forma mais inesperada, como se tivesse uma lmina que retirasse de mim a realidade.  Levanta a cabea e olha para mim.  A tua me esteve 
em L.A. a fazer um estgio num hospital. Estava a pensar deixar o exrcito e viajar um pouco. Nesse aspecto ela era como eu, nenhum de ns queria uma vida convencional.
Pego-lhe na mo e seguro-a at a sala ficar to escura que parece meia-noite. Estamos a comear a sentir-nos um pouco como uma famlia.
Vivemos como solteires. Quando a escola comea em Setembro ele deixa-me todas as manhs na paragem do autocarro e vai pintar casas para o vale.  noite vai para 
o estdio. Na escola os midos so brancos e negros, asiticos e hispnicos, bem vestidos e espertos. A maioria das raparigas ignora-me e os rapazes lanam-me olhares 
perscrutadores, olhares a
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que no correspondo. Falo de maneira diferente, visto-me de maneira diferente e tambm no me encaixo aqui.
Enquanto fumo um cigarro proibido na casa de banho, durante a hora de almoo, duas raparigas convidam-me para participar na conversa que esto a ter acerca do combate 
entre o Muhammad Ali e o George Foreman. No percebo grande coisa de boxe, mas todas concordamos que o Ali  o maior pugilista e o mais giro do mundo. Sonho que 
o Muhammad Ali me ensina a combater e, como bnus, d-me lies de como beijar. A Candy e a Bertine so as nicas raparigas que falam comigo nos intervalos e encontramo-nos 
sempre antes das aulas para fumar. Elas tratam-me por Santos e ensinam-me palavres em espanhol. s vezes falam entre elas em espanhol, outras nem sequer falamos.
Depois das aulas ligo a televiso para ter companhia e deixo-a ligada toda a noite, e por vezes leio ou fao os trabalhos de casa com o som baixo. Vejo televiso 
para me educar. Aprendo a danar a ver Soul Train, a entender as relaes a ver The Young and the Restless, a ver como famlias de negros fazem piadas acerca 
das suas vidas em The Jeffersons, Good Times e Sanford and Son. Aprendo leis em Police Woman e a importncia da amizade em Laverne and Shirley. Vou  
biblioteca buscar cassetes para praticar a pronncia e livrar-me da minha pronncia sulista para que, quando levantar a mo para participar na aula, os professores 
me entendam. s vezes toco violoncelo at o Matisse chegar a casa, to tarde que o Johnny Carson est quase a terminar. A Rosemary  para mim uma enorme companhia 
em todas estas horas que passo sozinha. Criamos sons que me massajam os pulmes, o corao e a face interna das coxas. Sinto falta da poesia das
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palavras sulistas na minha boca e, por isso, planto algumas junto  arvore decorativa e rego-as ternamente... algures... tarte de batata doce... fazer momices... 
e, como sempre, planto tambm... doce... azul... msica... Mam. Em breve a planta comea a crescer, um pouco inclinada,  certo, e muito devagarinho, mas eu vejo 
o crescimento e todas as palavras que amo em cada folhinha verde.
O Matisse faz muitas vezes a sua prpria comida, pois o mdico diz que tem de fazer dieta por causa do ataque cardaco que sofreu no ano passado. Estava num restaurante 
chins a pintar um mural quando desmaiou. Acordou no hospital. Agora faz bifes grelhados, batatas assadas e saladas verdes temperadas com vinagre de arroz quase 
todos os dias. s vezes traz-me comida rpida. Pus por ordem alfabtica os menus de mais de vinte restaurantes de comida rpida num raio de sete quilmetros. Apesar 
de ser cuidadoso com a alimentao, desafia-me a experimentar coisas novas. De incio recusava-me a comer peixe cru, apesar de cada prato custar mais de vinte dlares. 
Mas ele subornava-me com promessas de idas ao oceano, filmes no centro comercial e compras na cidade japonesa. Aprendi a gostar de susbi, pezinhos da Califrnia, 
bok cboy cozinhado ao vapor, ch tailands com leite condensado, sopa de coco com raspa de limo, spanakopita e pizza com bacon e anans. Gosto destes novos sabores 
e s vezes fecho os olhos e escolho no menu um prato que nunca tinha experimentado.
A princpio fico com medo, quando ele sai  noite. No h luzes cor-de-rosa nem msica suave para me acalmarem. No h um ressonar suave ou tosse que viaje at 
mim do outro quarto para eu saber que no estou s. E se o homem
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que me persegue em sonhos voltar? E se eu no conseguir mat-lo com uma faca? E se ele no sangrar?
 No consigo dormir quando estou aqui sozinha  digo eu, encostada  parede do corredor a v-lo barbear-se ao espelho.
 J experimentaste contar carneiros?  Bate delicadamente com o pincel branco no queixo.
 So demasiado barulhentos.  Transfiro o peso de um p para o outro puxando a bainha da combinao cor-de-rosa da minha me.
 Experimentaste desligar a televiso e fechar os olhos?  Ele deixa a gua quente a correr embaciando o espelho.
 Estou a falar a srio. J tenho adormecido nas aulas. Podes ficar em casa hoje? Por favor?
 No posso, hoje no.  Molha uma toalha de rosto branca e comprime o calor hmido contra a face.
Sinto a dor perfurante da inveja. Pe um pouco de loo para depois de barbear. Vetiver. Cheira a lima fresca e a almscar. Excita-me. s vezes ponho um pouco no 
dedo e inalo at adormecer. Quero tocar no rosto do meu pai, pr os meus dedos nos seus lbios para testar a sua suavidade e ver o quanto eles so parecidos com 
os meus. O que ser que a minha me sentia quando o beijava? Sentiria um terramoto a percorrer-lhe o corpo?
De repente o meu pai parece reparar que tenho vestida a combinao da minha me. Aproxima-se e toca no cetim  volta da minha cintura. O meu corpo afasta-se como 
se fosse picado por uma agulha quente. Fujo para o corredor, para fora do seu alcance.
 Pareces-te tanto com a tua me  diz ele com os olhos
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sonhadores, a recordar.  Est um bocadinho justa, no est?  Ele desvia o olhar. Ambos nos apercebemos do nosso erro. Lembro-me sempre de vestir uma T-shirt por 
cima da combinao por mais calor que faa. Algumas das costuras abriram desde que o meu corpo a comeou a encher.
 Toma um destes.  D-me um comprimido pequeno e amarelo que tira de um frasco do armrio dos medicamentos.  Toma outra metade se o Joo Pestana no vier.
 O que  isso?  pergunto.
  Valium. Vai ajudar-te a relaxar.  Veste um fato de seda mbar-plido e deixa-me s no apartamento.  noite de sexta-feira. L em casa costumvamos jantar sempre 
as trs juntas. Depois de jantar tinha lio de piano enquanto a tia Merleen se sentava na sua cadeira a ler o jornal. Quando a lio terminava, comia uma fatia 
de torta ou bolo caseiro e lavava os pratos enquanto a tia Faith guardava a comida. Mais tarde dobava meadas para a tia Faith ou lia-lhes em voz alta. No Vero 
sentava-me no alpendre a ver desabrochar as flores da tia Merleen. O que ser que as famlias a srio, com me, pai, irmos e irms, fazem numa sexta-feira  noite? 
Fazem alguma coisa ou limitam-se a ficar sentados a amarem-se uns aos outros?
Tranco a porta depois de o Matisse sair e vou  cozinha buscar um copo de gua. Engulo um dos comprimidos amarelos e deito-me na cama com a luz acesa. Lembro-me 
de dezenas das palavras da minha me antes de adormecer.
Apressado pelos meus dedos, o tremor comea na parte mais recndita de mim mesma e alastra at todas as janelas azuis da minha imaginao estarem
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quebradas e o meu corpo estar livre e a flutuar em direco ao tecto. O meu corpo ergue-se na antecipao da msica. O doce tremor recomea na parte mais recndita 
de mim mesma. Os meus dedos pressionam a prega molhada e uma salsa entra a flutuar pela minha janela aberta.
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XI

Acordo no meio da escurido com o som de vidro a quebrar-se. Ainda estremunhada, com as pernas trmulas, corro para o quarto do Matisse, mas ele no est l. O 
cho est a mover-se, treme. Os quadros caem da parede. No consigo movimentar-me com rapidez suficiente. Esqueo tudo o que devo lembrar-me de fazer durante um 
terramoto. Corro a porta do armrio do quarto do Matisse e sento-me no meio da roupa e dos sapatos at tudo ficar calmo. Ouo uma sinfonia catica de alarmes contra 
ladres, sirenes e alarmes de incndio. Antes de conseguir sair do armrio um enorme projector de filmes e caixas redondas de metal caem da prateleira de cima aos 
meus ps.
Demoro algum tempo a perceber como, mas consigo montar o projector.  semelhante ao que existe na minha aula de biologia e que nos mostra a reproduo das rs. 
Sento-me, espantada, na cama do meu pai. Na parede branca por cima da cama cintilam imagens a preto e branco.  um circo de corpos nus em inmeras combinaes sexuais 
sobre a moblia de uma sala de estar dos subrbios. As imagens excitam-me e aterrorizam-me ao mesmo tempo.
H um tremor doce na parte mais recndita de mim...
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Meto a mo dentro do pijama e venho-me rpida e silenciosamente. Volto a colocar o projector e os filmes na prateleira do armrio. O silncio  tanto que consigo 
ouvir as pingas provenientes de uma das fugas da torneira do lavatrio a carem.
No armrio o fato branco caiu do cabide. Volto a entrar e fecho as portas. Na escurido sinto a textura spera do fato de linho e deixo os meus dedos acariciarem 
os botes frios, as costuras e o forro dos bolsos em seda. Enrolo as mangas  volta dos meus ombros e enterro o meu rosto nas lapelas. O seu cheiro  to semelhante 
ao dele. Cheiro o gancho das suas calas. Agacho-me a um canto do armrio e procuro os seus sapatos. Sapatos de pele macios feitos  mo em Itlia. Inalo profundamente 
as suas pegadas e suspiro.
A sua roupa interior, pelo menos uma dzia de conjuntos, toda branca, est cuidadosamente dobrada na segunda gaveta de uma cmoda em mogno aos ps da cama. Sou 
inundada por sentimentos que no compreendo. Cedo. Tiro a roupa, uma pea de cada vez, diante de trs espelhos. Dispo-me lenta e deliberadamente.
Quando fico nua, olho para o meu corpo atravs dos olhos dele. Durante horas olho para o meu corpo nos espelhos e  ento que, finalmente, algo acontece. Comeo 
a ver as suas mos a acariciarem os meus ombros por trs. No consigo afastar os olhos das suas mos. Sentem o peso dos meus seios, passam fugazmente pelos meus 
mamilos, desenham a curva da minha cintura at s minhas coxas e, depois, abrem os lbios entre as minhas pernas. Fico paralizada de medo, expectativa e desejo. 
E to subitamente como apareceram, desaparecem.
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Fecho os olhos e volto a abri-los lentamente, mas elas no reaparecem. Continuo s.
As cuecas do meu pai so frias e ficam-me largas nas coxas. As camisolas interiores so apertadas e esmagam-me os seios. Calo as meias de seda e enfio o linho 
spero nas minhas coxas. Depois a camisa branca engomada com os seus botes macios. Encontro um par de botes de punho em ouro. A gravata enfio-a pela cabea e 
dou facilmente o n, tal como ele me mostrou. Coloco os suspensrios amarelos e fecho-os com os polegares. O casaco  confortvel e largo. Os sapatos assentam-me 
como uma luva.
Olho para o meu reflexo e sinto-me satisfeita. A tia Mer-leen devia saber que me ficavam bem quando me deu aquelas roupas de rapaz, h muito tempo atrs. No me 
sinto vulnervel nestas roupas. Sinto-me forte, poderosa e excitada. Passo vezes sem conta pelos espelhos fazendo pose. Vagueio pela casa com a roupa do meu pai 
at amanhecer.
Volto a despir-me, pendurando o fato do meu pai no respectivo lugar. Mantenho a camisa branca para me proteger no meu sonho. Engulo dois Valiums com uma boca cheia 
de gua. Espero que o meu pai esteja seguro e volte depressa. Ser que a terra se abriu e engoliu metade da cidade? Para ter a certeza vejo televiso durante um 
bocado. Tenho medo de dormir perto da janela panormica da sala, pois pode bater e perturbar-me o sono. Vou para o quarto do meu pai e deito--me na sua cama enorme 
entre os lenis frios de algodo branco. Parece que dormi durante dias a fios sem sonhar. Quando acordo, o meu pai est junto da cama a observar-me.
 Ests bem?  pergunta.
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 Estou... Esqueci-me do que se deve fazer durante um terramoto.  Mal consigo manter os olhos abertos.
 Porque  que ests com a minha camisa vestida?  Ele senta-se na cama.
 Esqueci-me... Estou acordada... estou bem.  Sei que no estou a ser coerente. O meu crebro est lento.
 Volta a dormir, querida. Deves estar cansada. Se quiseres podes faltar  escola - diz ele. - E leva a minha camisa  lavandaria quando acordares.  Sorri para 
mim.
 Tive tanto medo - murmuro, e volto a fechar os olhos agradecida.
Ele cobre os meus ombros com o lenol e beija-me a testa. Volto a cair num sono profundo.  hora de almoo quando acordo. Ele encomenda uma pizza grande que comemos 
no
cho da sala.
O Matisse est estendido no cho, com a cabea apoiada na mo. As suas calas largas e a t-shirt cinzenta esto manchadas de tinta cor-de-laranja.
 Arranjei emprego a pintar um baloio de jardim. Esta semana pago eu a pizza. - Abre a caixa e d-me outra fatia com pimentos e pedaos de alcachofra. Age como 
se esta fosse uma segunda-feira como outra qualquer.
 O terramoto de ontem foi bastante forte  digo, encostando melhor as costas  cabeceira da cama por fazer.
 Foi de apenas quatro vrgula dois, nada de preocupan-te.  Deita pimenta vermelha na sua fatia.
 Mas para os meus nervos foi bastante forte. A pizza tem um sabor estranho, demasiado salgado. Fao uma careta quando descubro que por debaixo dos pimentos h 
anchovas.
 A maior parte das pessoas nem sequer acorda.
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Pergunto-me se ficarei a dormir quando houver o prximo.
 Quantos Valiums tomaste ontem?
 Dois ou trs... No me lembro. Tive medo.
 Toma cuidado. Um deve ser o suficiente para dormires.  Aproxima-se e toca no meu cabelo despenteado com a sua mo dura.
 A tua tia Corrina telefonou h uns dias. Ela e as filhas querem conhecer-te. Queres passar alguns dias em Seattle? Podes ir s compras ou coisa assim.  Tira 
as anchovas do meu prato e mete-as na boca.
 Detesto ir s compras.  A minha resposta  rpida e mordaz.
 Pensei que quisesses fazer coisas de rapariga.  Ele finge no reparar na minha mudana de humor. Ainda no me sinto preparada para o partilhar ou para viajar. 
Quero conhec-lo melhor.
 Queres ir? Sentes saudades do teu pai?  pergunto.
 No costumo pensar muito nisso.  No acredito nele.  Nunca tinha reparado em como me sentia s antes de tu chegares.
 Eu tambm me sentia s.
 Agora no te vou deixar  diz ele. Tento acreditar, uma parte de mim acredita.
Ele sorri e beija-me as costas da mo. O sangue sobe-me ao rosto. Pego-lhe na sua e esfrego-a contra a minha face como se fosse um gato carinhoso. Subitamente, 
ele afasta-se de mim. Olho para as suas costas enquanto caminha em direco ao quarto e fecha a porta. Fico deitada no cho durante muito tempo a pensar nos filmes 
que esto no quarto. Comeo a
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notar como o corpo dele se mexe dentro da roupa. Pergunto-me como eu ficaria se tivesse um fato de linho meu.
Uma manh fao um teste ao meu pai.
 No me sinto muito bem  digo, fazendo com que a minha voz parea fraca.
 O que se passa?
 Di-me a cabea.
 Deixa-me tirar-te a temperatura.  Pe-me o termmetro debaixo da lngua e encosta a mo  minha testa. Mantenho os olhos fechados e concentro-me no toque quente 
da sua mo. s vezes gosto que ele me toque, me pegue na mo ou me segure nos seus braos. Sinto-me a sua menina. Invento doenas e aulas canceladas e anseio por 
dias passados com ele. Quando finjo estar doente, ele mima-me, compra-me ginger ale e fica em casa a segurar-me na mo, mesmo depois de saber que no estou doente. 
Penso que ele gosta secretamente destes dias em que ficamos juntos.
s vezes conta-me histrias de quando era filho de Joe El.
 O meu pai tinha tanto orgulho em mim. Quando eu tinha quatro ou cinco anos, s vezes levava-me com ele para os concertos. Sentava-me em cima do piano em bares 
fuma-rentos e deixava-me bebericar dos seus copos sem fundo de usque escocs. O Joe El dizia a quem quisesse ouvir que, um dia, o filho seria um advogado muito 
rico. Parti o corao do meu pai.
Quando o Matisse me conta histrias acerca do seu pai, percebo que isso o entristece. Quando est triste, vai para o estdio pintar e eu fico para trs. s vezes 
vejo os seus filmes
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erticos enquanto agarro na minha doce Rosemary e tento criar uma banda sonora.
Todas as noites que o meu pai me deixa sozinha tomo um Valium, s vezes dois.
Um dia o meu pai ensina-me a ver.
 De que cor  a relva?  pergunta, enquanto passeamos de brao dado por Griffith Park.
 Verde.  Estou a saborear a proximidade dele.
 Que tonalidade de verde?  e aperta-me ligeiramente o brao.
Perscruto o meu vocabulrio em busca de uma palavra que defina a cor do luar que incide na relva hmida.
 Esmeralda.
Ele recompensa-me com um beijo no pescoo mesmo por baixo da orelha. O beijo deixa-me os dedos dos ps e o pescoo a arder.
 Olha para o observatrio. V como a luz se curva. Sigo o arco de luz que o seu dedo traa no cu obscurecido.
 Agora dobra-te e olha para ele por entre as pernas.
Fao o que ele diz e o mundo modifica-se. O sangue corre-me para a cabea e comeo a rir tanto que caio no cho. O Matisse ajuda-me a levantar e pe os braos  
minha volta num abrao forte, como de quem quase me tivesse perdido.
 Ouve a noite  diz ele, inclinando-se sobre o gradeamento do observatrio a ver as luzes da cidade espraiando-se por baixo de ns como um prato de diamantes. 
O vento deixa-me gelada e abre dentro de mim um lugar que recorda a
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lmina gelada nas minhas coxas e a quietude da noite num campo de milho no Texas. Fecho os olhos e ouo a msica triste da noite como se o som tivesse enrolado 
os seus braos  minha volta. Est frio e choro nos braos do meu pai. Ele abraa-me como se eu fosse s dele e todas as noites fossem nossas.
 Pronto. Vai correr tudo bem. O pap est aqui.  No me pergunta porque choro.
O Matisse ensina-me a perspectiva, ensina-me a olhar para os objectos antes de lhes atribuir um valor. Quando estamos a olhar para os quadros do Museu de Arte Contempornea 
pergunta-me se gosto de algum em particular e, depois, pergunta-me porqu. Faz-me dar nome aos meus sentimentos. Olho para o mundo com os olhos novos que o Matisse 
me deu. Estou to embriagada com os conhecimentos que verteu na minha mente que comeo a esquecer coisas.
Telefono s minhas tias todos os domingos do telefone da cozinha. Sento-me na mesa da sala com o fio enrolado no brao. E todos os domingos a tia Faith me faz as 
mesmas perguntas.
 Mariah, encontraste uma igreja onde possas ir?
 Ainda no  respondo, apertando o fio  volta do dedo.
A tia Merleen, menos preocupada com a minha alma, pergunta:  Ele trata-te bem?  A sua voz  estridente e pouco natural.
 Sim, est tudo bem   o que respondo sempre. Apercebo-me de que, quando vivia com elas, havia sempre
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algum por perto e acostumei-me a isso. Sinto a falta do seu cheiro, da proximidade dos seus corpos ao meu lado na missa de domingo. Sinto preocupao nas suas 
perguntas, algum receio no momento que antecede a minha resposta, medo de termos todos cometido um grande erro.
Provavelmente as minhas tias contaram ao meu pai tudo a meu respeito, a respeito dos problemas que lhes causei no fim, pois passado algumas semanas ele quis saber
tudo:
Quando tenho o perodo. Todos os vinte e dois dias, certa como um relgio. Nas minhas primeiras semanas em L.A. dei socos a mim prpria na barriga por vrias vezes
at sarem das minhas pernas cogulos de sangue escuros e espessos e no um beb de cabelo grisalho com cara de av.
De que professores gosto. A Mrs. Oyama, a professora de geografia,  bonita e sorri-me muitas vezes. Tem uns olhos amendoados cor de fumo que desaparecem quando
se ri, como os da minha me. Depois das aulas levo-lhe pequenos presentes  uma laranja perfeita, um abacate, uma taa de limes e, um dia, uma rosa amarela.
Com quem me dou na escola. A Candy e a Bertine, pois tm ambas fortes pronncias e no fazem pouco da minha. A Candy  da Nicargua e a Bertine da zona oriental
de L.A.. Fumam cigarros comigo na casa de banho antes de as aulas comearem. s vezes falam espanhol entre elas como se eu no estivesse l. Falam dos rapazes giros 
da equipa de basquetebol, quem beija melhor e qual  o mais agressivo no banco traseiro de um carro. Ouo apenas estas conversas. No estou interessada em ir para 
o banco de trs com nenhum rapaz. s vezes penso em beijar a Bertine, mas no digo nada Penso em como beijava a Joy e isso faz-me desejar ser adulta
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Para beijar qualquer pessoa. O cheiro dos rapazes que passam por mim nos corredores desperta em mim uma vontade homicida. Nunca fui a um jogo de basquetebol por 
se realizarem depois da escola,  tarde e  noite, e o meu pai diz que devo voltar para casa  tarde, trancar a porta e no a abrir a ningum por ser perigoso fazer 
tal coisa em L.A.. Ele diz que qualquer pessoa pode fazer parte de um bando. O meu pai quer que leve todos os meus amigos l a casa para os poder examinar, mas 
eu quero manter algumas coisas s para mim. Em breve a Candy e a Bertine deixaro de ser minhas amigas. Uma manh, depois de ter fumado um cigarro na casa de banho, 
a Candy tira uma caixa de charutos da mochila.
 O meu irmo acabou de chegar do Havai.  Abre a caixa e mostra um saco de plstico cheio do que ela diz ser Kona Gol.
 O teu irmo deu-te isso tudo?  pergunta a Bertine, assobiando pela falha que tem nos dentes em sinal de espanto.
 No, pendejal Ele tinha uma mala cheia. No vai dar pela falta.
A Candy pousa a caixa no parapeito da janela, tira um pacote de mortalhas e ensina-nos a enrolar um charro. Parece fcil nos seus dedos rpidos e morenos. Antes 
de termos tempo de o acender, ouvimos algum num dos sanitrios. A Bertine pega no charro j enrolado e a Candy mete o resto da droga na mochila. Samos da casa 
de banho e dirigimo-nos para a nossa primeira aula.
 At logo  digo eu.
 At logo  repetem elas em unssono. Logo vamos fumar um charro de droga havaiana e vamos ficar a flutuar para o resto das nossas vidas.
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Estou sentada na aula de geografia da Mrs. Oyama quando, duas horas depois, entra o subdirector, o Mr. Martinez, que se dirige  secretria da Mrs. Oyama. Soltam 
um suspiro breve e depois chamam pelo meu nome.
 Mariah Santos, pega nos teus livros e vai com Mr. Martinez.  Olha-me com gravidade. Reno as minhas coisas e sigo-o pelo corredor fora. Tenho o corao na boca. 
O Mr. Martinez no me dirige a palavra. No sei o que se passa. Na sala de espera vejo a Candy e a Bertine afastadas uma da outra e enterradas nas cadeiras. Ambas 
me olham gelidamente quando passo. Um agente da polcia est sentado entre as duas a folhear uma revista. Sou levada ao gabinete do director onde me esperam dois 
agentes, um homem e uma mulher.
 A Candeia Vega e a Bertine Ramos vo ser expulsas. Sabes porqu?  pergunta-me o subdirector. Finjo desinteresse na resposta, seja ela qual for.
 Tu tambm sers expulsa se descobrirmos que estiveste envolvida em algum tipo de drogas.  Revistam-me o saco e pedem-me para relatar todos os meus movimentos 
desde que cheguei  escola nessa manh. Repito vrias vezes que fumei um cigarro na casa de banho com a Candy e a Bertine mesmo sabendo que estava a infringir as 
regras, mas no sabia nada acerca de drogas. Eu sabia pela televiso que uma confisso poderia ficar registada no meu cadastro e que sem provas ou testemunhas eles 
no me podiam tocar; alm disso ramos menores; eu conheo os meus direitos. Ao fim de duas horas assino uma declarao. Informam-me de que fui suspensa por trs 
dias e que s poderei voltar  escola com uma carta assinada por um dos meus pais. Arrumo os livros e saio. A Candy e a Bertine esto a ser levadas pela polcia.
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Quando tento telefonar para casa delas dizem-me que elas no podem falar comigo.
Aps este incidente a Mrs. Oyama d mostras de um interesse especial por mim. Por ter faltado a um teste importante diz-me que tenho de ir ao gabinete dela durante 
a hora de estudo para recuperar. Ela parece sincera na sua preocupao. Reparo nos seus olhos, na cor do seu vestido e no perfume de jasmim que exala quando passa 
por mim. Observo os seus gestos e parecem-me familiares. Est sempre a deixar cair coisas e eu sempre a apanh-las para poder ver o fumo dos seus olhos e o sorriso 
que parece nascer s para mim.
Ele gosta de pensar que lhe conto tudo, mas no o fao. Eu tenho os meus segredos.
Sem amigas os dias passam devagar. A Candy e a Bertine so expulsas da escola e ficam em regime de liberdade condicional. Na escola pregam-me um sermo acerca dos 
perigos da droga. Quando chego a casa, o Matisse est a fazer a mala. Vai muito convenientemente para Nova Orlees por alguns dias para ajudar a pintar a casa de 
um amigo a quem deve um favor.
 Tens a certeza que no vais ter medo de ficar aqui sozinha?
 Vai correr tudo bem.  Certifiquei-me de que haveria uma quantidade suficiente das pequenas plulas amarelas no armrio.
 Precisas de alguma coisa? Alguma coisa que eu possa fazer?  diz ele, quase implorando.
 Leva-me contigo.
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 Desta vez no.  Olha para mim e pisca-me o olho.
Fao-me forte, mas pergunto a mim mesma se ele ir voltar. Passo o fim de semana a ver televiso, a encomendar comida chinesa e a p-la no carto American Express 
do Matisse. O meu pai leva-me de carro para todo o lado. o nico stio para onde vamos a p  at  banca de cachorros na esquina, e  lavandaria, duas portas acima. 
Aqui o meu mundo centra-se dentro de casa. Telefono  Bertine, mas so as suas irms que atendem o telefone e dizem que ela est no Dakota do Norte. Depois de horas 
a praticar a assinatura do meu pai, assino a carta da minha suspenso da escola e dobro-a cuidadosamente no envelope endereado ao vice-director. QUando no estou 
a ver televiso, estou a dormir. Dois Valums e um copo de gua mineral apagam-me totalmente.
No dia em que regresso  escola o Mr. O'Farrell, o professor de ingls, fala sobre a histria das palavras. Explica que a mais antiga forma de escrita conhecida 
d pelo nome de hierglifos. A prpria palavra significa impresso sagrada. Conta-nos como a Pedra Rosetta foi encontrada em 1799 por membros da expedio napolenica 
ao Egipto, e traduzida por um linguista francs em 1822. O Mr. OTarrell faz a histria parecer um lugar onde se gostaria de viver.
Subitamente deixo de me conseguir concentrar na pgina. Sou perseguida pela tinta colada por baixo das minhas unhas. Sinto comicho nas palmas das mos. Durante 
o intervalo roubo do armrio da sala de desenho um marcador preto grosso, tinta vermelha e giz cor-de-rosa. Aperto o vestido  volta da cintura e rastejo com os 
joelhos nus enquanto escrevo palavras cor-de-rosa no passeio e palavras negras no fundo da parede at ao refeitrio. Escrevo da direita para a esquerda e
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depois da esquerda para a direita, como uma cobra a deslocar-se em guas estagnadas. As palavras so sagradas, ilegveis, indizveis, mas necessrias. Compreendo-as, 
mas no vou traduzir. Pinto a palavra me de vermelho. A nica palavra que no consigo perceber. A palavra que se recusa a desaparecer. A vigilante, uma rapariga 
mexicana muito magra, com longas tranas negras e uma boina cor-de-rosa na cabea, tem na mo um lpis e um bloco para apontar os nomes dos que ficam pelos corredores, 
dos que falam alto e dos que causam distrbios. Mal me v, comea a gritar.
 Ests metida num grande sarilho  diz ela, como se isto me fizesse parar. As suas pernas longas e muito magras fogem de mim.
Tenho tinta vermelha no rosto, p de giz na garganta e dores lancinantes nas mos. Os joelhos esto arranhados e manchados de um vermelho profundo, mas continuo 
a escrever, rastejando pelo passeio at estar com o nariz colado aos sapatos de camura castanha do Mr. Martinez. Ele levanta-me pelo colarinho da camisa e acorda-me 
de um sonho.
Abro os olhos numa viso. As palavras que escrevi no corredor estreito no se assemelham a palavras. So desenhos, linhas sorridentes, fios entrelaados de cor. 
Est em cdigo. No me lembro da sua traduo. Sou obrigada a limpar as paredes e o passeio depois das aulas. A Mrs. Oyama vai supervisionar.
 So to bonitas. Detesto ter de te obrigar a apag-las  diz ela, com as mos na cintura, mordendo o lbio inferior, tal como faz nas aulas quando procura a palavra 
ideal para descrever um lugar que s viu nos livros.
 Parecem oraes rabes  diz. No meio das linhas e
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crculos, pontos e traos, consigo discernir oraes para que o meu pai nunca me deixe e a minha me volte para ns. A Mrs. Oyama pergunta-me se j tinha ouvido 
falar do Nommo, o conceito africano do poder da palavra.
 Tens de aprender a usar o flego, a voz e o papel (com-pletamente fora de moda) para exprimires as tuas ideias.  Pousa a sua mo quente na minha garganta. Como 
parte do castigo tenho de escrever um pedido de desculpas  escola. Escreverei a carta na minha prpria linguagem para que ningum a compreenda.
A Mrs. Oyama senta-se numa mesa do recreio a corrigir testes e a olhar para mim de vez em quando, para se certificar de que estou a lavar a parede com a escova 
que me deram. Os meus olhos ficam irritados por causa do sabo forte e do amonaco. A Mrs. Oyama aproxima-se de mim e pousa-me a mo no ombro.
 Ests triste?
A sua voz  como um par de tesouras que se me espetam nos olhos. Enrolo-me no passeio, numa cama macia de palavras que no podem ser apagadas. Deito-me de costas 
e olho o cu molhado como se isso a fosse mandar embora a ela e  dor no centro do meu corpo.
Ela ajoelha-se ao meu lado e pega-me na mo. Estou quase a contar-lhe tudo. Sinto o rosto do av na ponta da lngua, mas azeda-me logo na garganta. A paz e o silncio 
so demasiado grandes para abrir uma porta to perigosa. Conto--lhe outras coisas. Ela vai acenando com a cabea como se compreendesse as palavras que me jorram 
da boca como letras retorcidas. Passa o cabelo por trs das orelhas e pega-me na mo. Estou-lhe eternamente grata por este pequeno
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sinal de ternura. Quero estar sempre com ela. Perto do seu aroma de jasmim, tocando o seu cabelo escuro e espesso, olhando para os seus olhos de fumo. O seu rosto 
ilumina-se quando sorri e os olhos quase desaparecem.  uma mulher pequena, compacta, com traos africanos e asiticos. Usa vestidos compridos que lhe chegam quase 
aos tornozelos. H sempre rendas a cobrir-lhe o peito. Imagino que h limes por debaixo da renda. Limes pequeninos, duros e sumarentos.
 Onde moras?  pergunta a Mrs. Oyama.
 Na zona ocidental de Hollywood.
 Deixa-me levar-te a casa. Gostava de conhecer o teu pai.  Endireita a gola de renda.
 Ele no est  respondo, mexendo nos arranhes que
tenho nos joelhos.
 A que horas sai do trabalho?  A sua mo est pousada no meu ombro.
Pergunto-me se poderei confiar nela. Decido que sim quando me lembro do modo como me pegou na mo e me limpou o rosto com um leno fresco.
 Na quarta-feira.
Mrs. Oyama leva-me para casa dela. Vamos no seu pequeno Volkswagen que percorre a estrada como uma tartaruga com tosse. Mora no Valley. Numa casinha caiada numa 
rua sem sada. No quintal h uma pequena rvore de abacates e uma samambaia brava. Abre a porta de casa e diz-me para fazer de conta que estou em minha casa. No 
percebo o que ela quer dizer com isto e, por isso, sento-me com o mximo de compostura no seu sof de cabedal preto. O aroma de
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comida condimentada paira no ar. Ela parece dar tambm por ele. Vejo-a a andar na cozinha por trs do balco do pequeno almoo. Abre as janelas e somos recompensadas 
com uma brisa fresca. Do sof observo a sala repleta de objectos. Sempre imaginei que a sua casa fosse assim, pequena e asseada. A casa est cheia de objectos que 
parecem ter vida prpria. Leques e jarras orientais, mscaras africanas, estatuetas e paninhos de renda, fantoches, bonecas de porcelana e tapetes artesanais, bandejas 
com frutos de madeira, taas com flores secas a boiar em gua turva, e livros, amontoados por toda a parte, com papelinhos a sarem em todas as direces
 A sua casa parece um museu  digo; enquanto os olhos vo saltando de um objecto para outro. pego numa bela taa azul com uma racha longa e fina que lhe passa 
pelo centro.
 Colecciono coisas. A minha me diz que  lixo. O meu pai diz que so artigos de coleco. Eu digo que so memrias. Encontrei essa taa rachada numa praia na 
Grcia. As cores lembram-me uma taa que a minha av usava para servir o arroz quando a amos visitar.  Abre a porta do frigorfico e enche um copo com vinho branco.
 Queres um sumo?
 Sim, obrigada.  Deita sumo de laranja num copo de p alto como o dela.
Sentamo-nos viradas uma para a outra em lados opostos do sof. Ela faz-me perguntas acerca da minha vida na Gergia e deixa-me falar, sem me interromper, durante 
muito tempo. Falo-lhe da minha me, das minhas tias e da minha melhor amiga, a Joy. Falo-lhe do meu pai e de como me sinto s em Los Angeles. Ouve-me, bebericando, 
murmurando e concordando. Deixamos as paredes falar. Fazemos jogos de
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palavras com duplo significado para aprofundar a nossa conversa. Rimo-nos como duas crianas e comemos os intragveis ovos estrelados todos secos que ela faz para 
o jantar e as fatias de pra abacate polvilhadas com acar amarelo. Depois de beber dois copos de vinho, a Mrs. Oyama comea a contar-me coisas como se eu fosse 
uma adulta. Faz-me confidncias. Depois de trs copos diz-me para a tratar por ris e percebo que este  o nosso segredo. Depois de jantar vai ao quarto e volta 
com uma camisa de noite curta e florida e umas calas de pijama brancas e muito largas. Faz um ch verde.
 De onde ?  disparo, sem saber como hei-de perguntar-lhe onde arranjou aqueles olhos asiticos, o nariz indiano, a boca africana, o cabelo meio encarapinhado 
e a sua estranha maneira de cozinhar.
 Nasci em San Francisco.  Senta-se no cho ao p do sof, bebe um gole de ch verde e prende o cabelo atrs das orelhas.
 O que eu queria dizer era de que raa ?  negra?  Pergunto isto, porque na Gergia s se podia ser branco ou negro.
 A minha me  negra.  uma poetisa da Carolina do Norte. O meu pai  um jornalista japons oriundo de uma pequena vila nos arredores de Tquio. Conheceram-se 
na universidade e passados quarenta e cinco anos ainda esto juntos.  Ri, bebendo mais um pouco de ch, com o vapor a nublar-lhe um meio sorriso.  Ningum lhes 
dava mais de um fim-de-semana.
 No tem medo de ficar aqui sozinha?  pergunto.
Ela assusta-se com a brusquido da minha pergunta. Pousa a chvena cuidadosamente ao lado do prato e comea a
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cortar as suas fatias de pra abacate em quadradinhos, mastigando-os demoradamente. D por mim a olh-la atentamente.
 No quero ser me de ningum.  Pousa o garfo. Fala como se conseguisse ler-me a mente.
Na minha cabea somos me e filha. Marido e mulher. Noiva e noivo. Amante e amada. Sou um rapaz e um velho. Um beb e um pirata que descobriu a Pedra Rosetta. Se 
quiser, posso seduzi-la com as roupas do meu pai, to suavemente que ela nem vai perceber que estou a fingir.
 Eu tenho me  digo.  Do que eu preciso  de uma amiga.
Parece aliviada. Comea a falar muito depressa para disfarar o nervosismo. As palavras saem-lhe to depressa da boca que parecem envoltas num espesso nevoeiro.
 No estive sempre s. Casei com o meu melhor amigo para o salvar dos servios de imigrao. Era aluno do meu pai. Um homem muito doce. Era de Osaka. Nem sequer 
chegmos a dar as mos. E, de repente, depois do casamento, quis reclamar os seus direitos de marido. Nunca tinha dormido com um homem e fiquei chocada com a sua 
falta de sensibilidade. Engravidei passado pouco tempo de casada. Decidi tentar construir uma vida com ele. Um Vero o meu marido regressou a casa para visitar 
a av, que estava doente, e levou com ele o nosso filho de trs anos. Nunca mais voltaram.  Estica os braos por cima da cabea e boceja. Quando se encosta ao 
sof a camisa de noite sobe e deixa ver as estrias que tem na barriga. Cobras longas e plidas percorrem-lhe a barriga e marcam-lhe a pele como verges de chicote.
 Desapareceram  diz.
Parece ter ficado embaraada, como se no tivesse inteno
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de me dizer estas coisas, e agora est em silncio e eu desejo ardentemente ouvir o som da sua voz. Salta para o cho, vertendo ch no tapete.
 Podes dormir no sof.  A sua voz  dura. Empresta-me uma T-shirt do sobrinho, um jogador de futebol americano na USC.
Fazemos a cama no sof com lenis perfumados de jasmim.
 Boa noite.  Toca-me no brao de um modo estranho. Estico os braos para tentar abra-la. Primeiro o seu corpo enrijece, mas depois relaxa, aperta-me rapidamente 
as costas e liberta-se do meu abrao. Sinto falta deste tipo de toque. Quando as luzes se apagam, imagino que estou em casa e que eu e a Mrs. Oyama pertencemos 
a este lugar. Quando acho que j est a dormir, percorro o corredor at ao seu quarto. Deixou a porta aberta. Sento-me no cho do corredor e observo-a enquanto 
dorme. Fecho os olhos e ouo o som da sua respirao. Deito-me com os tubares e sonho.
A minha me est morta, mas no sinto tristeza. Retiro o doce sabor da gua do meu poo de memrias, o poo fundo de um beijo da alma que se espalha pelo meu corpo 
como mel quente. Os seios da minha me parecem nuvens nas minhas mos pequenas, o seu mamilo  um conforto para a minha boca e agarro-me a ele.
Na manh seguinte a Mrs. Oyama encontra-me a dormir  porta do seu quarto.
 Tiveste medo?  pergunta, ajoelhando-se a meu lado.
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 No. A senhora teve?  pergunto, recordando como ela se mexeu durante o sono. Quando, por acidente, lhe toco, a sua pele  macia e hmida. A camisa de noite cola-se 
ao seu corpo.
 s muito bonita. Tens uns olhos lindssimos  diz ela. Afasto o olhar dos seus olhos de fumo, embaraada e fascinada. Ela fala sem parar enquanto prepara um pequeno-almoo 
de croquetes de salmo com wasabi, papas de aveia grumosas e torradas queimadas.
 Procurou-os?  pergunto.  O seu marido e o seu menino.  Os olhos toldam-se-lhe.
 Desapareceram. Mariah, no fiques  espera que o vento te beije  diz, como se soubesse algo que eu no sei. Mordo as suas palavras.  Agarra as rdeas da tua 
vida.  Volta a ser a minha professora de geografia. Samos da sua casa e estamos na auto-estrada. Transporto o meu corpo de aula para aula apesar de no me lembrar 
de como l cheguei.
Abro a porta do apartamento na quarta-feira depois das aulas e o Matisse est a dormir na cama desfeita. Acorda assustado.
 Onde estiveste? Quase enlouqueci de preocupao, quando cheguei a casa ontem  noite e no te encontrei.  O Matisse obriga-me a lev-lo a casa da Mrs. Oyama. 
No acredita que eu tenha estado com ela. No me dirige a palavra durante toda a viagem.
Quando a Mrs. Oyama abre a porta, olha primeiro para mim e depois para o meu pai. Os seus olhos examinam-no. Comeam a brilhar.
 Desculpe incomod-la, mas a Mariah disse que esteve
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consigo enquanto eu estive fora. Quando cheguei a casa e no a encontrei quase chamei a polcia.
 Entre Mr. Santos. Ainda bem que o conheci. Fico feliz por ter vindo. Acho que devemos conversar.  A sua voz  diferente. Parece que canta. O seu corpo pequeno 
parece ainda menor na presena dele. O meu pai manda-me esperar no carro enquanto se senta no sof de pele preto da Mrs. Oyama. Sei que ela est a contar-lhe tudo 
o que sabe a meu respeito. Ouo msica no rdio e acompanho as msicas que conheo. O Matisse parece triste quando sai.
 Queria fazer-te feliz  diz ele.
 Eu sou feliz  respondo, desejando que isso fosse verdade. Ele leva-me ao Griffith Park e caminhamos com o brao  volta da cintura um do outro, perdidos nos 
nossos pensamentos, como amantes distantes.
Estou parada em frente aporta da Mrs. Oyama com o fato branco do meu pai. Quando ela abre a porta, olha-me como se tivesse visto um fantasma.
 Pareces mesmo o teu pai diz, convidando--mepara tomar um ch quente e verde.
A Mrs. ris Oyama apresenta-me o mundo da geografia. Ensina-me a ler mapas. Mapas de lugares onde nunca estive esto espalhados  minha frente como uma refeio. 
Ela marca as quatro direces no mapa do meu corao e lembro-me que quando nos sentimos perdidos devemos seguir a pessoa que amamos e ir para onde o amor nos levar.
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XII

Quando era menino corria atrs de todos os Cadillacs brancos com rabo de peixe que via. Pensava que o meu pai era a nica pessoa que tinha um. O dele era o nico 
com estofos cor de vinho debruados a amarelo.  O Matisse manobra o Renault pelo meio de um trnsito catico, esgueirando-se por entre os carros. Gosto quando ele 
fala do pai apesar de ele no gostar. O seu rosto transforma-se numa janela aberta atravs da qual vejo as suas mgoas.
 Costumvamos trat-lo por Popi. Parecia que estava sempre a viajar e eu sempre  espera dele. Depois de jantar sentava-me no alpendre, s escuras, at a minha 
me me obrigar a entrar e ir para a cama. Prometia levar-nos, a mim e a minha irm, a jogos de beisebol e a ver os fantoches no parque se obedecssemos  me e 
fssemos bons alunos. Ao contrrio da minha irm, eu era um aluno de 5, mas apesar de ser bom aluno e bom filho, ramos sempre ignorados. Quando o Popi voltava 
das suas viagens, eu tinha sempre coisas para lhe contar, desenhos para lhe mostrar, mas ele estava sempre demasiado cansado, demasiado ressacado ou dema-siado 
ocupado a tocar em clubes locais para nos dar ateno. A no ser quando nos exibia aos seus amigos da banda. 
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Demorei algum tempo, mas finalmente decidi fazer apenas o que queria.
Finalmente o Matisse est a levar-me ao seu estdio, situado num parque industrial em South Central, onde ele passa a maior parte das noites. No sei porque se 
mostrou to relutante em trazer-me aqui. Talvez seja pela mesma razo por que no gosta de falar do pai. Em L.A. est outro daqueles dias de sol, com cu azul, 
e at as casas de cores fortes com lixeiras protegidas com grades de ao parecem bonitas.
A antiga fbrica de doces no tem um cheiro nada doce, mas sim um odor a caf estragado, aguarrs e tinta fresca. H telas amontoadas junto  parede das traseiras. 
O seu estdio, um dos quatro existentes no prdio,  comprido e estreito, com o tecto alto. Os raios de luz deslizam ao longo de uma parede de cimento esborratada 
de tinta. H janelas rudimentarmente rasgadas ao cimo da parede oposta. Consigo ver o cu e algumas nuvens juntando-se em redemoinhos de algodo doce azul-claro.
 Encosta-te quela parede. Ao canto.  Depois pega num grande bloco de desenho e num pedao de carvo.
 Queres que pose?  Ponho uma mo no cs das calas de ganga no que penso ser uma atitude glamorosa.
 S tu mesma.  Senta-se numa ponta de um velho sof verde e comea a desenhar-me. Encosto-me  parede e observo as nuvens que flutuam no cu enquanto o Matisse 
trabalha em silncio. Passado algum tempo olho para ele. A sua mo j no se move atravs da folha; o pedao de carvo que segura est pousado no papel, mas no 
se mexe. Est a olhar para mim como se me tivesse transformado num pssaro, com asas e tudo.
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 J beijaste um rapaz?  pergunta.
Afasto-me do seu olhar, dou vrios passos pela sala. Passo pelas suas telas vendo apenas cores.
 Pensei que precisssemos de ter uma conversa. Sobre... sexo.  Est to estranho que quase sinto pena dele, mas continuo a evitar os seus olhos, enterro as mos 
nos bolsos das calas e deambulo pela sala como se estivesse na horta da tia Merleen a inspeccionar a sua plantao de tomates. Algo cresce entre ns. Ele observa-me 
e espera. Deixo-o sofrer.
 Podes contar-me tudo... pergunta-me tudo que quiseres.  Faz uma pausa.  Sei que vs os filmes que esto no armrio...
No quero ouvir mais nada. Deixo cair os braos ao longo do corpo e saio do estdio com os olhos a varrer o cho sujo de cimento, tendo o cuidado de fechar a porta 
atrs de mim. No rdio tocam quatro canes antes de ele sair. No quero olhar para ele. Estou envolta numa nuvem de vergonha. Dirigimo-nos para casa divididos 
por uma parede de silncio que se torna familiar  medida que iniciamos uma viagem para territrio perigoso.
Naquela primeira vez no ficmos muito tempo, mas o estdio de Matisse deixou uma marca em mim. Agora consigo v-lo. Quando sai  noite, consigo imagin-lo, despido 
at  cintura, a aplicar tinta azul na tela com os dedos enquanto a minha me jaz nua no cho. Espero que ele no volte a mencionar os filmes do armrio, pois se 
o fizer encherei os ouvidos de cimento e selarei os olhos com mel frio.
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Passou-se um ano desde que vi as estaes a mudar. Todos os dias o cu est perfeito e azul ou cinzento da poluio ou molhado pela chuva. Num dia quente de Vero, 
um dia azul e perfeito, batem  porta. Estou sozinha em casa. Quando pergunto quem , responde-me uma voz de mulher:   a Corinna. A irm do Joe El Jr.. Ele est?
Nunca tinha ouvido ningum tratar o meu pai assim. Abro a porta.  porta est uma mulher de sapatos escuros de salto alto, meias claras e fato azul-marinho. Tem 
um leno cor de limo elegantemente amarrado ao pescoo. O cabelo est apanhado para trs numa trana solta. O seu rosto  uma mscara perfeita de maquilhagem. 
 como se o meu pai voltasse para casa vestido de mulher.
 Tu deves ser a Mariah  diz ela, passando por mim e entrando no apartamento. Pra no meio da sala, tira um cigarro da carteira e detm-se alguns segundos como 
se tivesse  espera que algum lho acendesse. Tira um pequeno isqueiro de ouro e uma chama devora a ponta do cigarro longo e fino. Expele o fumo por entre os lbios 
pintados de cor de tijolo e observa a sala. Sigo-a enquanto ela faz uma visita completa  casa.
 A tua me era uma rapariga muito bonita  diz, endireitando um dos quadros do Matisse na parede.
 Ainda .  Encontrei a minha lngua, mas no a coragem para lhe perguntar de que  que ela est  procura.
 Ah, ento tens notcias da Coral?  Pra e encara-me no corredor estreito.
 O que eu queria dizer  que ela no morreu.  Sinto--me encurralada naquele espao exguo.
 O nosso pai queria que o Joe El casasse com ela. Essa
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tinha sido a melhor coisa para o prender  terra. Ele j arranjou um emprego estvel ou ainda est a desempenhar o papel de artista lutador?  Entra no quarto dele 
e dirige-se para a janela. Sobe as persianas e olha para a rua movimentada.
 Ele  um artista. E dos bons.  No gosto dela.  fria e distante mas tenta fingir que estamos a ter uma conversa. Sento-me no cho ao lado da cama do meu pai 
e puxo fios da carpete. Sinto necessidade de o proteger.
 Onde dormes?  Ela apanha-me desprevenida.
Aponto em direco ao outro quarto. Um esgar de surpresa seguido por um olhar de desaprovao atravessa o seu rosto. Ela dirige-se para a sala. Levanto-me e sigo-a.
 Quando  que Joe El volta?  Os seus passos so nervosos.
Encolho os ombros. No sei o que fazer com as mos e, por isso, vou para o meio da sala e, fixando as costas dela, comeo a puxar as cutculas, roendo o excesso.
 Volta esta noite?
Volto a encolher os ombros.
 Amanh?
Repito o gesto, sugando o polegar.
 s vezes dorme no estdio.  Os meus dedos comeam a sangrar.
 No faas isso, vais infectar os dedos. Gostas de L.A.?  Atira a cinza para a arvorezinha decorativa e volta-se para mim.
 No  m.  Quem me dera poder mand-la embora.
 Talvez pudesses ir para Seattle e ficar connosco durante algum tempo. As minhas filhas esto para o acampamento, mas voltam dentro de algumas semanas. O que  
que tens feito durante o Vero?
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Nesse momento o Matisse entra no apartamento. Fico aliviada, mas quando v a irm recua como se quisesse fugir.
 Estvamos preocupados contigo  diz ela, aproximando-se dele. Abraam-se e parecem esquecer que estou na sala. Ele afasta-se dela e encosta-se  porta de entrada.
 No  por isso que ests aqui.  Olha-a com um olhar vazio,  espera.
 O Popi morreu.  As palavras enrolam-se-lhe na garganta.
A expresso do meu pai no muda.
 Quando?  pergunta. H um soldado na sua voz.
 Ontem  noite. Tentmos falar contigo.  As suas lgrimas arruinam-lhe a maquilhagem. O meu pai aproxima-se para a abraar.
Por sugesto da tia Corinna vamos jantar e ela fala e fuma o tempo todo. Fala dos planos que tem para me levar com ela para Seattle e para arranjar um emprego para 
o Matisse na sua empresa. No consigo habituar-me a ouvi-la a trat-lo por Joe El.
 O tio Jimmy telefonou-me. Disse que lhe pediste muito dinheiro emprestado.  Exala uma nuvem de fumo que d ao seu rosto um ar fantasmagrico.
 Isso  entre mim e ele.  O meu pai beberica o seu usque escocs e finge ouvir o que ela est a dizer. Aproveito a deixa e como a comida que est  minha frente, 
falando apenas quando a minha tia me faz alguma pergunta, o que  raro. Olho em volta, para o restaurante, e vejo que h brancos e negros, asiticos e mexicanos 
a comerem juntos, e apercebo-me de que, na Gergia, isto no seria prenncio de uma noite calma. Mistura de raas seria motivo suficiente para um motim.
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 Por que  que no nos contaste o que estava a acontecer?  Ela apunhala a comida furiosamente.
 Para qu? Para que o Popi pudesse dizer-me que eu era um vagabundo? Estou ptimo. Foi s um problema temporrio. O tio Jimmy no tinha o direito de te contar 
nada.  O meu pai bebe o resto do usque como se fosse gua.
 Ele estava preocupado, Joe El. O problema j no se resume a ti. Agora tens a Mariah contigo.  O meu pai fica calado. Mantenho os olhos no prato de esparguete 
meio comido, desejando poder desaparecer. Ela fala de mim como se eu no estivesse na mesa. Olho para a pedra de lpis lazli do seu brinco esquerdo e comeo a 
ouvir jazz nos ouvidos at ela parar de falar. O Matisse pede outro usque e bebe-o ainda mais rapidamente do que o primeiro.
Quando chega a conta, o meu pai no discute, deixa-a pagar com o seu carto dourado American Express. L fora  noite. O Hollywood Boulevard est repleto de actividade. 
Matisse ajuda a tia Corinna a vestir o casaco.
 Sinto muito pelo Popi, mas ainda no tenho motivos para voltar a Seattle.
Antes de a tia Corinna ter tempo para dizer alguma coisa, o empregado chega com o Mercedes prateado alugado. O Matisse d-me o brao e afastamo-nos da sua irm. 
Deixamo--la parada no passeio de boca aberta, com um cigarro aceso na mo.
Alguns quarteires mais acima o Matisse abre a porta do carro e senta-se ao volante. Depois de uns momentos a tentar meter as chaves na ignio, passa para o lugar 
do passageiro e faz-me sinal para entrar pelo outro lado.
 Conduz tu  diz, de maxilar cerrado.
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Entro e ponho o cinto. Ligo o carro e respiro fundo algumas vezes antes de entrar cuidadosamente no caudal de trnsito.
 Vira  esquerda depois do semforo, vamos entrar na via rpida.  A sua voz  dura.
Tremem-me as mos. Nunca tinha conduzido em auto--estrada. Agarro o volante e sigo as suas instrues. Para no me afastar dos outros carros tenho de conduzir depressa 
e em breve comeo a sentir-me bem. Gosto da sensao de estar no controlo da situao. Mantenho os olhos na estrada, mas de vez em quando olho para o Matisse para 
ver se ele me diz o que devo fazer a seguir. Ele diz-me quando devo meter outra mudana e em que sada devo virar. Na realidade no controlo a situao, estou apenas 
a conduzir. No paro de conduzir at chegarmos ao deserto. O Matisse est a dormir ao meu lado, com a mo esquerda pousada na minha coxa. Numa faixa da auto-estrada 
deserta sinto que o carro e eu somos um ser uno a voar por cima da terra antes de entrarmos no cu nocturno.
 Sinto muito pelo teu pai  digo.  O av.  As palavras soam estranhas na minha boca.
Paramos numa estao de servio na orla do deserto. Gostava de ter palavras para o confortar.
 Amo-te, Pap.
 E eu amo-te ainda mais.  Abraa-me com fora durante muito tempo. Cheira vagamente a jasmim. Sinto-me segura nos seus braos. Completamente.
O meu pai chora mansamente, com a cabea encostada ao meu ombro e a mo esquerda pousada na minha coxa.
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Passo o meu brao  volta do seu ombro e acaricio-lhe o cabelo. A nossa respirao sobe e desce em unssono.
Ele podia ter-me mandado embora ou at ter-me abandonado, mas escolheu ficar e eu tambm o escolhi. Estamos ss no mundo e quero dar-lhe tudo. Quero absorver a 
tristeza que sente por ter perdido o pai, elimin-la para que possamos ser uma famlia feliz. Por ele faria tudo.
 Vamos voltar para trs.  Indica-me o caminho de volta  cidade, para a fbrica de doces em South Central. Sai do carro, abre-me a porta e entramos para o estdio.
Estou cansada e ensonada. Doem-me os ombros de conduzir com a sua cabea encostada a mim. Ele avana devagar com os ombros vergados. Sentamo-nos em lugares opostos 
do sof verde. Passado um bocado levanta-se e enche um copo de usque. Vai para um canto do estdio e volta a sentar-se ao meu lado. Abre uma pasta cheia de desenhos 
da minha me... nua... dobrada... sentada... de p... encostada... estendida... a danar... a dormir. Mostra-me uma dezena de pequenos quadros dela em cores trreas. 
Ela parece to perto.
Sei o que ele quer e estou disposta a faz-lo. Tiro o casaco e sento-me em frente a ele no banco.
Ele senta-se no sof a olhar para mim. O carvo escorrega
lentamente pela pgina.
 Tira os sapatos  diz, olhando para os meus ps. Desaperto as sapatilhas e meto-lhes as meias dentro. Ele est a desenhar os meus ps nus, mas parece que os est
a segurar nas mos. Todo o meu corpo est quente. Ele pra. Os seus olhos vermelhos abrem-me um buraco na roupa. Parece estar  espera. Desabotoo a camisa e atiro-a
para o cho. Desaperto
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o soutien e deixo-o cair. Abro as calas de ganga e empurro-as juntamente com as cuecas para fora das minhas pernas.
Tiro uma almofada do sof e coloco-a no banco. Volto para o meu lugar e sento-me com ambas as mos pousadas no colo, as pernas cruzadas, as costas direitas e os 
olhos voltados para o cu da manh.
Consigo ouvir as suas mos a moverem-se rapidamente numa nova pgina do seu caderno de esboos. No me sinto nua. Sinto-me como se j fosse um quadro, um objecto, 
uma taa de fruta, qualquer coisa til que apaga a sua tristeza. Sinto-me perto dele.
Durante todo o Vero estou nua para o meu pai.
O Matisse comea a deixar na minha almofada pequenos quadros coloridos. No verso escreve frases tiradas de poemas romnticos em lnguas obscuras. Conforto-o de 
todas as formas que conheo. Cozinho para ele, levo as suas roupas  lavandaria e espero por ele como uma mulher preocupada. Seja qual for a hora a que volta d-me 
sempre um beijo na testa. s vezes traz o cheiro da Mrs. Oyarna. No lhe pergunto porqu. Gosto que tambm eles sejam amigos.
No estdio do Matisse o meu corpo nu flutua em gua azul, dana envolto em luz azul e salta  corda sob uma lua azul. Est fascinado pelo meu corpo e pela cor azul. 
E, mesmo estando os rostos escondidos do olhar, so meus os corpos nus na parede do seu estdio. No estou apenas nua, os meus pensamentos mais ntimos parecem 
visveis sob a superfcie
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da minha pele. Agora pede-me para posar nua nas posies mais vulnerveis. s vezes faz-me ficar horas a fio com as costas coladas  parede do seu estdio, o peito 
projectado para a frente e os braos a cobrirem-me o rosto. s vezes choro com dores por estar parada na mesma posio durante tanto tempo, mas ele no parece reparar. 
Raramente falamos durante estas sesses em que ele olha para mim e eu olho para o cu ou para as fatias de lua. Depois oferece-me algo bonito. Uma vez comprou-me 
um anel em forma de corao. Outras foi um chapu de veludo azul, um frasco antigo de perfume, uma dzia de rosas amarelas. A nica coisa que quero  que ele seja 
meu pai. Ele diz que quer ser meu amigo.
Desde que a Candy e a Bertine foram expulsas fiz uma nova amiga na escola. A minha nova amiga, a Song,  uma rapariga dura, coreana, cujos pais adoptivos so antigos 
hippies brancos que a levam aos fins de semana a manifestaes anti-nucleares e marchas a favor da paz. O seu cabelo curto  preto e brilhante e a sua cara redonda 
est sempre sria at me ver. Ento sorri e bate-me suavemente no ombro. Fumamos na casa de banho antes das aulas e faltamos s aulas para irmos fazer compras no 
centro comercial. Falamos da forma como iremos mudar o mundo quando formos adultas, mas para j a Song est preocupada com a nossa vida social.
 Vais ao baile de finalistas?  pergunta, enquanto passamos pelas lojas.
 Ningum me convidou.
 Tambm no fui convidada, mas vou na mesma. Podamos vestir-nos de vaqueiras ou coisa assim.
 Preciso de um motivo mais forte.
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- Podamos convencer o meu irmo a levar-nos a uma discoteca depois do baile e apanhvamos uma bebedeira para celebrarmos esta merda de mundo em que vamos entrar 
depois da formatura. Anda l, vai ser divertido. Um amigo do meu irmo, o David, vem este fim de semana do estado de San Francisco. Podamos ir os quatro juntos. 
Que dizes. A Song  to convincente.

As cores que ele usa so ricas, os corpos que pinta so carnudos voluptuosos, bomios. Pede-me para posar sempre que est inspirado, o que pode ser a qualquer hora 
do dia ou da noite alguns minutos ou algumas horas. Os seus quadros so inspirados nos do seu homnimo, nos murais de Diego Rivera e nas colagens de Romare Bearden. 
Perco-me nos seus loucos rios de cor.
Estou determinada a quebrar os longos silncios obscuros que existem entre ns.                                                   - Qual  a coisa de que melhor 
te lembras da minha me? - pergunto, enquanto ele se concentra com os olhos no meu peito. 
- Lembro-me de tudo - diz. - No te mexas. - O pincel brinca com a tela que est  sua frente.
 Conta-me.                                                       
- Conto-te? - repete, distrado e bebe mais um gole do seu usque escocs. 
- Todos os detalhes. Disseste que no devamos ter segredos. Conta-me tudo o que sabes. - Estou disposta a implorar por uma recordao apenas. 
Ele namorisca comigo como se no nos conhecssemos.
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Coro Estou sentada num sof, com o peito nu e um pano africano enrolado  cintura, olhando para um cu sem nuvens atravs das enormes janelas.
- Se eu lhe contar os meus segredos, senorita, conta-me tambm os seus?  Pisca-me o olho.
Quase lhe conto o que se passou no Texas, mas tenho medo que se zangue comigo.
 Ela falou-me de ti  digo, coando-me discretamente. __ O que  que ela te disse de mim?  Subitamente, fica alerta.
 Que quando se conheceram era Inverno-Primavera-Vero e Outono. Disse que tinha havido um furaco-tempestade-terramoto na lua onde se conheceram. Contou-me muitas 
histrias a teu respeito. No sabia em quais acreditar.
_ A tua me gostava de contar histrias. Tinha uma ... - procura a palavra  ...imaginao muito frtil.
- Ela no est morta.
 Eu no disse...
- Ela disse que eras um bom pintor.
-  assim que conto as minhas histrias. S conheci a tua me durante algumas semanas, mas ela est aqui. Estar sempre aqui - diz, apontando para o peito. Respira 
fundo e esboa um sorriso triste.
Esta  a histria que o Matisse me conta sobre a minha me.                                                                         
- A primeira vez que vi a Coral ela estava vestida de branco da cabea aos ps. Pensei que era um anjo at me aperceber de que estava num hospital. Lambi os lbios 
quando a vi. Tinha as mos mais gentis que j vi e uma adorvel pronncia sulista que a fazia parecer estar sempre a cantar.
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Esqueci-me que ca da escada. Esqueci a dor na cabea. Quando ficmos sozinhos na sala de observaes, e antes de conseguir pensar em algo para lhe dizer, beijei-a 
nos lbios. Ela afastou-me e fez-me festas como se eu fosse o seu novo cachorrinho. Limpou-me o golpe da cabea e ps-me uma ligadura. Disse-me para ir para casa 
e descansar, mas esperei seis horas, at ela terminar o turno, para lhe oferecer boleia para casa. Passmos as semanas seguintes trancados no meu apartamento a 
amarmo-nos mutuamente. Depois ela partiu e pensei ter sonhado.
 Porque  que ela se foi embora?  pergunto.
 Tinha de se apresentar no hospital militar do Kansas.
 No tentaram ver-se novamente?
 Ela apaixonou-se por outra pessoa e nunca mais voltei a v-la. Escreveu-me a dizer que te tinha deixado com as tias dela na Gergia, porque estava doente. Nunca 
mais soube nada dela.  Pega-me na mo e acaricia-a.
 Sinto que ningum me queria realmente.
 Agora vou amar-te.  Beija-me as faces. Lgrimas frias molham-me a cara.
 Chora  vontade  diz ele.  O pap est aqui.  Toma-me nos braos. As suas mos quentes desenham crculos nas minhas costas.
No digo ao Matisse que o que quero realmente  danar com a Mrs. Oyama vestida com um fato branco de linho, bei jar a Song nos lbios e dormir toda a noite no 
aconchego dos seus braos.
A Song diz que o irmo concordou em me levar ao baile.
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O Matisse no fica impressionado por o irmo da Song ser caloiro na Universidade da Califrnia em Los Angeles.
 s demasiado nova para sair com rapazes  diz.
 Tenho quase dezassete anos. Alm disso ele no  meu namorado nem nada.
 No  diz ele, e recusa-se a voltar a falar no assunto. Uma semana antes do baile de finalistas o Matisse sente
remorsos por no me deixar ir e decide convidar-me para um programa especial. Ir jantar fora e danar. A Mrs. Oyama ajuda-me a escolher um vestido comprido de malha 
preto decotado, sandlias prateadas com pouco salto e um colar de prata em forma de corao a condizer com o anel. O Matisse est vestido com um smoking alugado 
e com os botes de punho em prata que eu lhe comprei com o dinheiro que as minhas tias me deram.  a primeira vez que saio com o meu pai e estou nervosa. Antes 
de sairmos do apartamento o Matisse beija-me no rosto.
 Ests linda  diz.  Pareces-te tanto com a tua me. Coro e endireito-lhe a gravata. Tira o carro da garagem e
espera por mim  porta do prdio. Flutuo pelas escadas abaixo. Felicidade no  uma palavra, mas sim o mundo em que vivo enquanto navegamos pelas ruas na nossa 
carruagem. Estou rodeada por luzinhas prateadas cintilantes. Rimos e acompanhamos as canes que tocam no rdio. No hotel da baixa da cidade onde vamos jantar o 
empregado estaciona o nosso carro enquanto o Matisse me d o brao e me conduz pela passadeira vermelha, por baixo do elegante toldo branco, at ao trio do hotel 
repleto de lustres e grupos de mulheres carregadas de jias com vestidos cintilantes, exalando odores perfumados, com os rostos cobertos de maquilhagem. Os seus
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homens usam culos e parecem aborrecidos e desconfortveis nos seus fatos e smokings. Sinto que todos olham para ns por o meu pai ser to bonito e eu me sentir 
to bela. Quando entramos no salo de baile, sinto-me a rapariga de sandlias prateadas mais feliz do mundo. Fico surpreendida quando vejo a Mrs. Oyama ao p do 
bar com um vestido cai-cai de um branco resplandecente.
O meu pai arrasta-me pela sala fora em direco ao bar. Larga-me o brao para beijar a mo da Mrs. Oyama.
 Mariah, pareces to crescida. s uma linda rapariga  diz, abrindo um grande sorriso. Depois olha para os olhos sorridentes do meu pai.
 Que tal bebidas para as duas mulheres mais belas desta sala? pergunta o Matisse, com os olhos pregados nos seios pequenos da Mrs. Oyama.
 Que tal um Pink Lady, Mariah?  pergunta ela, piscando-me o olho.
 Prefiro um usque com soda  respondo. A Mrs. Oyama parece uma estrela de cinema. Encosto-me ao bar e bebo--a com os olhos. Flores desabrocham no ar  sua volta. 
Jasmins.
 Hoje no, querida. Que tal um refrigerante?  pergunta o meu pai, distrado, e depois convida a Mrs. Oyama para danar. Passa-lhe o brao  volta dos ombros e 
ela sorri-lhe.
 Quero um usque com soda  insisto, olhando para eles. A inveja  uma cobra que me morde.
 Nem penses, Mariah.  Consigo ver que ele est a comear a perder a pacincia comigo.
 Ento no quero nada.  Afasto-me deles para ir atirar-me ao empregado que limpa o bar atrs de ns. Pisco o
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olho ao velho e aceno-lhe. Quando ele se aproxima sussurro-lhe suficientemente alto para que o Matisse me oua:  Um usque com soda.
 Mariah, o que  que se passa contigo?   a primeira vez que o meu pai grita comigo. Comeo a afastar-me deles, atravessando a pista de dana, mas ele agarra-me 
pelo brao e puxa-me para si.
 Qual  o teu problema?  Sussurra duramente. Liberto-me da sua mo e fujo. Ele entra no elevador ao mesmo tempo que eu. Samos no vigsimo terceiro andar e ele 
segue-me atravs do labirinto de corredores. Agacho-me  porta de um armrio a chorar.
 O que  que se passa, querida?  Ajoelha-se ao meu lado.  Ests aborrecida por causa da ris? Pedi para ela vir connosco porque pensei que gostasses dela.
 Queria ser a primeira a danar contigo.
Pega-me na mo e no a larga durante muito tempo. Entramos no elevador e descemos at ao salo de baile. A Mrs. Oyama est sentada no bar. Parece preocupada. O 
Matisse deixa-nos por uns momentos em frente  casa de banho das senhoras. Sussurra-lhe qualquer coisa ao ouvido e depois d-lhe dinheiro para o txi e acompanha-a 
at  porta. Ela volta-se para me dizer adeus. Eu respondo ao gesto. No h ressentimentos. Quando o Matisse volta agimos como se fssemos namorados em frias. 
Depois de um jantar elegante no restaurante do hotel, vamos para uma discoteca em Hollywood Boulevard e danamos ao som de msica disco, salsa e baladas como se 
fssemos as nicas pessoas no mundo. Mais ningum importa.
Mais tarde nessa mesma noite, quando pensa que estou a
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dormir, deixa-me s outra vez. Vejo-o afastar-se antes de montar o projector. Depois de me masturbar tomo trs Valiums e adormeo na cama dele.
Neste momento o meu corpo concentra-se na promessa de um orgasmo. Abro uma gaveta repleta de desgostos e cada um deles transforma-se numa lgrima que se derrete 
e desliza pelo meu rosto. Primeiro abro a mam. Palavras azuis, bonitas. Leno tigrado. Camisa de cetim cor-de-rosa. Perfume de bergamota e barulho de saltos altos 
a danar num cho de madeira. Depois aparecem a tia Merleen e a tia Faith. O ltimo desgosto que abro  o Matisse. Uma onda de dor eprazer abate-se sobre mim.
Quando acordo, o Matisse est deitado ao meu lado por baixo dos cobertores. H quanto tempo estar ele aqui? Estarei a sonhar?
 Tiveste medo de ficar sozinha?  sussurra.
 No. Estava a dormir. No pensei que voltasses esta noite.  Volto-me de costas para ele. Nascem flores na escurido.
Sinto a sua ereco na parte de trs da minha coxa. Afasto-me do calor do seu corpo. Tenho medo da sua voz sussurrante. Fecho os olhos e vejo a cara do meu av. 
Sinto os olhos do meu pai em mim e entro em pnico. Ele conquista o espao branco que nos separa e comea a acariciar-me o cabelo, os ombros e a parte de trs da 
camisa cor-de-rosa da mam. Instintivamente transformo o meu corpo numa bola. O homem, o meu pai, aproxima-se. O meu corpo endurece e
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torna-se glido  medida que os seus braos se enrolam na minha cintura. Procura na minha voz uma palavra para o deter.
 Pap?  sussurro.  Por favor no me faas mal.  O seu brao afasta-se.
 Desculpa, querida. Eu no ia fazer nada. No tenhas medo de mim. No te vou fazer mal. Desculpa. Amo-te  diz, desesperado.
Acordo a gritar. O meu pai no est. Estou sozinha na cama. Estou a suar e a tremer de medo.
Nunca mais volto a adormecer na cama dele, por mais medo que tenha. Volto a evitar os olhos do meu pai. Tenho vergonha dos meus pensamentos acerca dele. Ser que 
ele se apercebe disso? A mam ensinou-me que os sonhos no mentem.
s vezes encontro garrafas de usque vazias ao lado da sua cama. Discutimos por causa de eu usar a sua lmina para rapar as pernas e as axilas. Discutimos por causa 
dos pratos deixados no lava-loia durante a noite. Na realidade no estamos a discutir por causa dessas coisas, mas algo mais profundo veio  tona. Ele est triste 
por ter perdido o pai e assustado por s vezes esquecer que sou sua filha.
 Ests bem, pap?  pergunto.
 Est tudo bem  responde, mas eu no acredito.
A rvore que reguei e cuidei cresceu. As palavras comearam a despontar da terra. Ainda no consigo l-las, mas elas esto l. Apesar de tentar manter-me longe 
dele, estou suficientemente perto para saber que o meu pai sofre. Ele veste a
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sua tristeza como se fossem roupas velhas. s vezes chega a casa a meio da noite, senta-se no cho ao lado da minha cama e fica a olhar para mim enquanto durmo.
Comeo a coleccionar palavras. O seu significado no importa. Quero saborear vogais deliciosamente longas e consoantes doces, ouvir o som da sua msica e comer 
as letras proteicas da memria como um bolo. Transparente... atraente. .. vicissitudes... definhar... Colecciono palavras estrangeiras. Amore... bisous... habibi... 
querencia... Palavras com cor, intensidade, tom, textura, forma, cheiro. Meto-as no meu livro de sonhos e escondo-as debaixo do colcho. Cozo-as, asso-as, frito-as 
em gordura quente e alimento-me delas, tentando compreender a vida que vivo com o meu pai e sem a minha me. Quero voltar para junto da tia Faith e da tia Merleen. 
L  que  o meu lugar, mas no quero abandonar o Matisse.
A Mrs. Oyama  a pessoa que me encoraja a permanecer na escola. Quem me dera que ela fosse a minha me, pois sentir-me-ia em casa sempre que ela me abraa e beija 
o meu cabelo. Ela convida-me para ir para sua casa alguns fins de semana que o meu pai est para fora. Gosto de estar sozinha com ela. Ser que ela faz companhia 
ao meu pai  noite?
 Ama o meu pai?
A Mrs. Oyama pra de lavar os pratos e vem sentar-se ao meu lado na mesa do pequeno-almoo.
 Mariah, o teu pai  um homem bom, mas para ele o amor no  suficiente. Ele precisa de algo que nenhuma de ns lhe pode dar.
 No sei o que fazer.
 Salva-te.  Abre a boca para falar, mas decide ir por outro caminho.  Tens sonhos, objectivos?  Parte limes
numa taa de esmalte vermelha numa mesa baixa colocada  nossa frente.
 Quero encontrar palavras para contar histrias que gostaria de saber.
 Inventa-as, escreve finais felizes, leva esperana a onde ela no existe.  Est convencida de que poderei faz-lo, mas no tenho a certeza de nada. Quando me 
for embora no lhe direi adeus. Esgueirar-me-ei durante a noite e pensarei nela tal como a minha me pensa em mim, onde quer que esteja. Rezarei pelo meu pai, inventarei 
rituais para o curar. Mas primeiro tenho de me salvar.
A tia Faith telefona. A sua voz  dbil como se estivesse a falar debaixo de gua.
 A tua tia Merleen faleceu ontem  noite.  Com estas palavras abrem-se os pontos no meu corao partido.
Agora tenho um morto para chorar. O meu corpo sente um estranho alvio, mas no posso ser confortada. O Matisse no sabe o que fazer. O seu desgosto  acalmado 
quando ele chega ao fim de uma garrafa de usque. A tia Merleen morreu de uma hemorragia cerebral. Com o punho abro um buraco na parede do apartamento. Parto o 
dedo mindinho da mo esquerda. Mas a dor no  suficiente para me distrair da minha perda. Porque  que passou tanto tempo?
 Sinto muito. Sei o que ela significava para ti  diz ele do outro lado da sala.
 Posso ficar sozinha por algum tempo?
 Claro, querida. Sei o que ests a sentir.
 S quero dormir.
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Ele traz-me um Valium e um copo pequeno com gua. Adormeo no cho ao lado da rvore que parece estar a definhar e a morrer diante dos meus olhos.
No dia seguinte o Matisse diz que no quer que eu volte para a Gergia, pois tem medo de me perder, mas eu tenho medo do que poder acontecer se ficar. Gritamos 
um com o outro e ele deixa-me sozinha outra vez. Deito-me na minha cama com a televiso ligada para me fazer companhia. Quero navegar rumo a sonhos agradveis, 
mas no consigo relaxar. Tomo mais dois Valiums e comeo a ver um filme antigo. A determinada altura ouo uma voz tranquilizadora a fazer-me perguntas.
 Precisa de algum para falar? Est s? Triste? Precisa de ajuda?  Aquela voz de mulher -me familiar.
 Sim  respondo, com os olhos fechados.
 Ligue-me  diz a voz dentro do televisor, e eu marco os nmeros.
Quando um homem atende peo para falar com a voz da televiso. Ele pergunta se pode ajudar-me e eu respondo:  Ningum me pode ajudar. S ela.  A voz dela  igual 
 da minha me.
 Estou. Fala Ava, qual  o seu nome?  pergunta uma mulher suavemente.
 s a minha me?  pergunto.
 No, no sou a tua me. Como te chamas?  Parece estar to longe.
 Podes ajudar-me?
 Estiveste a beber ou a consumir drogas?
 Eu s queria dormir.
 O que  que tomaste?

 Ela est morta.
 Morreu-te algum, no foi? Sinto muito. Onde ests?
 Ela ensinou-me a conduzir  lembrei-me onde ela guardava a sua doura.
 Quero ajudar-te, mas tens de me dizer onde ests. Subitamente apercebo-me de que no  a minha me que
est do outro lado da linha. Desligo e caio num sono pesado e sem sonhos. Quando acordo na manh seguinte est nevoeiro l fora. Uma luz cinzenta entra pelas cortinas. 
Estou deitada no meio do cho quando o Matisse entra no apartamento. Olha-me tal como a minha me o deve ter olhado em sonhos, com o rosto e os braos salpicados 
de tinta azul. Tresanda a usque e a suor. No toma banho h dias.
 Quero ir para casa.  Disparo as palavras como setas. E elas encontram o alvo.
 Tens a certeza?
 Tenho.
 Vamos telefonar  tua tia Faith para a avisar de que vais voltar  diz tristemente. Senta-se no cho ao lado da rvore morta.
 Querida, sinto muito se te decepcionei. Quero ser um bom pai para ti. Escreve-me, est bem? E telefona, se precisares de alguma coisa. Estou sempre pronto para 
te receber.  Tenho pena, ele est a partir-me o corao.
Quando estou sozinha fao uma tatuagem em mim prpria com uma agulha e fio preto. Subitamente tenho poder sobre a dor. Pesco debaixo da minha pele, criando um cdigo 
que no pode ser descoberto. Cada vez que furo a minha pele  como se libertasse um pedacinho de dor e em breve estarei vazia e no sentirei nada. Tenho esperana 
de que isso acontea.
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Levanto a camisa e toco nas pequenas linhas pretas ensanguentadas inscritas na minha coxa. Toco-lhes para me lembrar de que no preciso de sentir a dor dos outros, 
j tenho em mim dor suficiente. Tanjo na Rosemary uma faixa solitria de auto-estrada e ela chora comigo lgrimas de sangue.
 Porque me chamaste?  pergunto.
 Porque queria conhecer-te. Porque achava que era a atitude certa a tomar. Achava que ia resultar.
Na estao abrao o meu pai de um modo estranho. Ele fica parado a olhar a camioneta at esta desaparecer.
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XIII

Quando a camioneta chega  estao est a chover intensamente, uma chuva to intensa que me arranca lgrimas dos olhos. No consigo ver claramente atravs da janela, 
mas reconheo o tecido verde-escuro da gabardina da tia Faith a danar  volta das suas pernas impelida pela brisa. Ela est debaixo do toldo de metal, ao lado 
do grande carro azul, protegendo os olhos da chuva. Engordou. O seu chapelinho de veludo verde est  banda como se ela tivesse esbarrado nalguma coisa. O seu rosto 
 um clice de dor. Traz um vestido de andar por casa verde-plido com folhas pintadas.  uma mulher enorme. Doce como um bolo. Abraamo-nos e beija-mo-nos. Tudo 
est molhado.
 Sentimos a tua falta  diz a tia Faith esmagando-se por trs do volante e pondo a chave na ignio. Nem acredito que a tia Faith esteja a conduzir. Ela costumava 
ter tanto medo. Agora tem mais de setenta anos e o que parecia impossvel est a acontecer ali mesmo, diante dos meus olhos. Subitamente sinto algo a crescer-me 
no peito, acho que  orgulho. Espero ser to corajosa como ela quando for tambm uma mulher velha e sozinha no mundo.
 Senti tanto a sua falta  digo tocando-lhe no ombro.
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O carro avana em direco  estrada.  Nem posso acreditar que ela esteja a conduzir.
 Eu tinha-te dito que no iria passar toda a minha vida a ser motorista suplente, mas no consigo falar e conduzir ao mesmo tempo  diz rapidamente, enquanto se 
debrua sobre o enorme volante tentando concentrar-se para no sair da faixa de rodagem.
 Temos muito tempo para conversar  digo eu. Quero contar-lhe do medo que tive quando o Matisse, me deixou conduzir o carro na auto-estrada. Quero contar-lhe tantas 
coisas, mas temos muito tempo. Comeo a sentir razes a crescer sob os meus ps. A calma apodera-se de mim enquanto percorro milhas de uma estrada incerta.
A tia Faith conduz lentamente pela Fourth Avenue enquanto o trnsito passa por ns. Carros buzinam e ultrapassam-nos enquanto ela conduz com o p no travo. Parece 
nervosa. Depois de passarmos outro quarteiro, comea a suar fortemente. Finalmente encosta o carro ao passeio e desliga o motor. A sua respirao  to esforada 
que tenho medo que possa perder a conscincia.
 Sabes conduzir, querida?  pergunta, olhando para os lenis de chuva que se abatem sobre o pra-brisas.
 A tia Merleen ensinou-me.
 Ento leva-nos para casa. Os meus olhos j no so o que eram.  Trocamos de lugar. Sou a adulta e ela a menina assustada. J no conduzo h algum tempo, mas
lembro-me das coisas mais importantes. Parece que consigo ouvir a voz dura da tia Merleen a dar-me instrues.
Carrega no acelerador com o p direito. Olha para os espelhos. Chave na ignio. P no travo. Travo de mo para
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baixo. Luzes ligadas. Mete a mudana. Liga o pisca da esquerda. Volta a olhar pelos espelhos. Olha rapidamente por cima do teu ombro esquerdo. Mantm as duas mos 
no volante. P no acelerador. Olhos na estrada. Mantm-te dentro dos traos. Vermelho para parar. Verde para avanar. Amarelo para acelerar. Tu consegues.
No tenho qualquer problema a navegar por aquelas ruas to familiares at chegar  casa grande e branca do outro lado da linha. Temos de parar na linha frrea para 
deixar passar um comboio de mercadorias. Os comboios de passageiros j no passam aqui. Costumava pensar em apanhar o comboio para ir ter com a minha me, mas esse 
pensamento j no me ocorre. Ela  que ter de vir ter comigo para explicar todos os minutos que tive de passar sem ela. Guardei um milhar de boas-noites para lhe 
dar. Manhattan, no Kansas, parece um lugar inventado.
Subitamente a chuva pra e o sol desponta por entre as nuvens escuras. Abro a janela e sorvo o ar fresco e hmido.
 As coisas mudaram desde que te foste embora  diz a tia Faith, dobrando e desdobrando o leno de renda branca que est pousado no seu colo. Atravesso a linha 
depois de o comboio passar. Quando estamos apenas a alguns quarteires da casa percebo o que ela queria dizer. Um pequeno prdio de tijolo branco foi construdo 
no stio onde era o Masterson's. Grades pretas barram as janelas de uma lavandaria e de uma loja de msica. Os bancos de madeira esto decorados com raparigas sentadas 
em jornais, a empurrar carrinhos de beb ou a danar com rapazes ao som da msica estridente que sai das colunas colocadas na fachada do edifcio. Quase me vejo 
junto deles a empurrar um beb com olhos de mel. Um gemido
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abafado leva-me de volta para trs do volante do grande carro azul. A tia Faith est a chorar.
 Sente-se bem?  pergunto, sabendo que ela no est bem.
 Entrou-me qualquer coisa para o olho.  Esfrega os olhos. O caminho para casa est repleto de recordaes.
Est tudo como eu me lembrava. A escola de tijolo vermelho, a biblioteca, a loja de bebidas, a fila de casas sulistas, as casas do Bairro da Previdncia e a casa 
branca que  o meu lar. Subo o passeio e estaciono o carro, puxo o travo de mo e desligo o motor. A tia Faith limpa o suor debaixo do queixo com os seus dedos 
rolios. Tem de lutar contra a fora da gravidade para conseguir sair do carro. Ajudo-a a subir as escadas e a entrar em casa. Uma vez l dentro, aromas familiares 
envolvem-me e puxam-me. Estou sempre h espera de ouvir os passos tempestuosos da tia Merleen nas escadas ou um tema de blues sussurrado na sua garganta. Mas no, 
a casa est silenciosa.
A tia Faith comea a desvanecer-se no papel de parede florido.  como um esprito enorme libertado sem uma finalidade. O seu amor desapareceu, retirado do seu corpo 
como sangue. Perder a Merleen  como perder um dos nossos sentidos. Queremo-la de volta. Tentamos confortar-nos uma  outra, mas este tipo de desgosto no  fcil 
de apaziguar. A tia Faith e eu encontramos uma nova rotina, contornar os buracos deixados pela tia Merleen.
  preciso ir arrancar as ervas daninhas do jardim  diz a tia Faith, olhando da janela da cozinha.
 Eu trato disso depois de a levar  consulta.  Descasco
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batatas para o jantar. A dormncia que sinto nos membros cresce a cada dia que passa. Tento esvaziar a mente.
Tomo conta da tia Faith cuja diabetes, segundo o mdico, est a piorar. Bebe vrias latas de Coca-Cola por dia e queixa--se por ter de fazer xixi de cinco em cinco 
minutos. A sua pele est seca apesar de a ajudar, todas as manhs depois do banho, a passar manteiga de cacau na pele. Mesmo assim ela est sempre a coar os braos. 
Consigo ver as sombras a apoderarem-se dos seus olhos. O mdico diz que a tia Faith tem de ser operada s cataratas que esto a toldar-lhe a viso, mas ela recusa-se. 
As suas recordaes do hospital esto repletas de dor, perda e sofrimento. Por isso no a pressiono. Na sua mente ainda consegue ver as coisas importantes. A sua 
linguagem est repleta de imagens visuais. s vezes engana-me fazendo-me crer que consegue ver o azul na minha camisa ou uma mancha num copo de gua.
Acha que devo manter a mente ocupada e sugere que me matricule num curso de Vero. Concordo, pois s preciso de fazer trs disciplinas para acabar o liceu e, assim, 
no tenho de ficar mais um ano na escola. Inscrevo-me em matemtica, ingls e dactilografia.
 J pensaste para que universidade gostavas de ir?  pergunta a tia Faith no carro a caminho da nossa ida semanal ao supermercado.
 No.  Ainda no pensei no que vou fazer da minha vida para alm do catlogo mundano de dias de Vero quentes e hmidos que passam devagar entre ns duas.
 Que tal a Clark ou a Spelman para poderes ficar perto de casa? Sabes que poupmos algum dinheiro. A Merleen achava que darias uma boa professora. Ou talvez uma 
enfermeira,
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como a tua me.  A tia Faith pe-me a mo no ombro e aperta-o ligeiramente.
A universidade parece-me to distante. A tia Faith precisa tanto de mim. Se fosse para auniversidade, iria para letras. Talvez desenvolva o gosto pelas viagens 
que a minha me tinha. Podia descascar a superfcie das palavras e olhar para o seu interior para compreender o seu significado mais profundo. Talvez me alimente 
do que encontrar e me torne em algum irreconhecvel.
 Vou pensar nisso  respondo, e estaciono o carro em frente ao A&P por baixo de uma magnlia em flor.
Aos domingos de manh vamos  missa. As mes da igreja ainda caem nos corredores e rezam a Deus para que nos salve e nos perdoe os pecados presentes e futuros. 
S me apercebo de quanto senti a falta da msica quando reparo que os meus ps seguem os ritmos africanos dos seus cnticos.
 Aqui no podes estalar os dedos  sussurra a tia Faith, tocando-me na coxa com o seu leque de renda a cheirar a lavanda. Sorrio e estalo os dedos na minha mente. 
A msica faz--me sentir feliz. Sinto-me cheia do esprito como as velhas senhoras que gritam do canto dos beatos, mas no quero que ningum saiba e por isso abano 
as minhas pernas ao ritmo da msica e tento encontrar uma maneira de rezar que faa sentido na minha mente. Rezo pelo meu pai e pela sade da tia Faith. No quero 
ficar s no mundo.
Eu e a tia Faith vamos ao lar no domingo  tarde para visitar a av Gert, que por vezes se recusa a falar connosco. A tia Faith j no tem medo da lngua afiada 
da irm, est apenas a cumprir uma promessa que fez de a visitar todas as semanas. Mas eu no fiz promessa nenhuma para ter de suportar os
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seus olhares lancinantes e os seus insultos verbais. Para a minha av eu no existo, o que para mim  ptimo. Depois de deixar a tia Faith com uma das enfermeiras 
na recepo volto para o carro e ouo msica soul at ela estar pronta para ir para casa. Para mim a msica  um comboio em que viajo, agarrada ao seu ritmo, como 
se a melodia amena me levasse.
Um domingo estou sentada no carro azul a ouvir James Brown quando vejo um rapaz alto e magro com um bon de beisebol, um casaco vermelho e bege e calas de ganga. 
Est a empurrar uma cadeira de rodas cheia de livros amarrados ao assento. Empurra-a em direco ao parque de estacionamento, na minha direco. Anda de uma maneira 
funky, balanando-se de um lado para o outro como se conseguisse ouvir a msica que est a tocar no rdio atravs dos vidros fechados.  medida que se aproxima 
posso ver que sorri. Certifico-me de que as portas esto fechadas e procuro o martelo que a tia Merleen guardava debaixo do banco para uma emergncia.
 Parece que te vou morder  disse. Quase caio para o lado quando percebo que  a meia irm do Morto, a Tree. Abro o vidro.
 Pensei que eras um rapaz  digo sem conseguir evitar o espanto.
 s vezes bem gostaria de ser.  Tira o bon de base-bol.  Mas continuo a ser eu.
O seu cabelo est to curto que quase consigo ver-lhe os pensamentos. Mesmo de perto continua a parecer um rapaz. Coro e desvio os olhos.
 O que ests a fazer aqui sozinha?  pergunta, debruando-se sobre o carro como se quisesse sentir o meu cheiro.
 Estou  espera da minha tia. Ela foi visitar a minha
203
av.  Respiro fundo. Ela tem um cheiro fresco e limpo como se tivesse acabado de tomar banho e passado p de talco no corpo.
 Quem  a tua av?  Os seus olhos perscrutam o interior do carro.
 A Gertrude Rains.  O nome parece uma pedra na minha garganta.
 A tua av  a Gertrude Rains? No leves a mal, mas ela  a pior mulher que conheci na vida. Na semana passada mordeu uma enfermeira na anca e chamou-lhe cabra 
com cara de sapo. Tiveram de a amarrar.  A Tree treme de riso, mas o sorriso esmorece quando v a dureza da minha expresso.
 Acho que tenho sorte, ela nem fala comigo.  Agarro o volante com fora com as duas mos.
 Parece muito triste. Sempre a perguntar quando  que a filha a vem visitar.  a tua me?
 .  Cresce um silncio estranho.
 Viste a Joy?  Tamborilo com os dedos no volante e abano a cabea.
 Vivemos juntas.
 Tu e a Joy?  pergunto, e ela sorri ante a minha surpresa.
 Sim. Ela teve um beb do meu irmo, tu lembras-te do Morto? Est preso outra vez. A irm dela, a Nicky, casou e ela teve de sair da caravana. E ento veio para 
nossa casa h uns meses. Devias vir visitar-nos. Apartamento 419 D virado para o parque. A Joy est sempre a falar em ti.  A Tree sorri. Os seus lbios esto to 
prximos que, se quisesse, podia beij--la. Ser que o campo de beisebol est aberto para ela poder vir assistir comigo ao jogo do prximo domingo?
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 Agora s a rapariga de Hollywood. s famosa l em casa. A Joy tem o postal que lhe enviaste colado no frigorfico  diz ela.  Vou dar-te o nosso nmero de telefone.
O nico postal que mandei de L.A. foi para a Joy. Era um postal com uma fotografia do Sunset Boulevard. Procuro uma caneta no porta-luvas.
Depois de ela ter escrito o nmero, olho para os seus dedos longos encostados  porta do carro.
 Telefona quando quiseres. E se precisares de cortar o cabelo, eu trabalho na barbearia Deacon Long, ao lado do Cut and Curl.  No digo nada pois estou s a pensar 
nos seus dedos no meu cabelo.
  melhor ir andando, as velhinhas esto  minha espera.  Comea a afastar-se do carro.
 Vens c todos os domingos?  Quero mant-la sob o meu olhar por mais alguns minutos.
 No, a minha prima  que trabalha aqui. Pediu-me para ler para algumas senhoras da sua ala.  Agora parece estar a ficar envergonhada e comea a empurrar o carrinho 
em direco ao edifcio que est atrs de ns.
 Pode ser que nos voltemos a encontrar. Diz  Joy que vou telefonar-lhe.  Aceno, mas sinto-me ridcula e cubro a minha boca envergonhada. Ela pisca-me o olho.
 Adeus  diz ela, e afasta-se. Olha por cima do ombro e sorri. E fico a olhar para as costas do seu casaco vermelho at desaparecer no edifcio.
Aos domingos  tarde, mesmo antes do pr-do-sol, eu e a tia Faith visitamos a tia Merleen no cemitrio de Pine View. Conduzo devagar, tendo o cuidado de parar quando 
o semforo
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passa a vermelho no cruzamento entre o Boulevard e a Bridge Street.
 Podias ter passado  diz a tia Faith no seu papel de segunda condutora. Sorrio e continuo ao meu prprio ritmo em direco ao fresco campo verde e relvado dos 
parentes mortos. A tia Merleen  uma memria doce, mas est na boca da tia Faith to certo como haver sete dias na semana. Levo duas cadeiras desdobrveis na mo 
esquerda e ofereo o brao direito  tia Faith, conduzindo-a atravs da colina relvada e para debaixo do velho carvalho.
s vezes esquece-se que estou l e as duas tm conversas que explicam o que  que as uniu durante todos estes anos como pginas de um livro. A tia Faith senta-se 
na cadeira desdobrvel com as mos unidas como numa orao. s vezes entra numa espcie de sonolncia. Outras vezes fala como se a tia Merleen estivesse ali parada 
 nossa frente no quadrado de terra.
 Tens razo, minha irm. S nos temos uma  outra, por isso no vamos discutir mais. Vamos mas  plantar os tomates antes de virem as chuvas. Sabes que os tomates 
crescem juntos, to entrelaados que nada os consegue separar. Tal como ns.  E a tia Faith entrelaa os dedos.  No tnhamos de esconder nem apressar o nosso 
amor. Parecia crescer a cada estao que passava. Quando se planta doura  certo que esta ir florescer. s to boa para mim. O que seria de mim sem ti? Para onde 
teria ido? s uma bno. s uma verdadeira bno.  A tia Faith contorna a rvore lentamente, a coxear, com os braos cruzados  altura da cintura, como se estivesse 
a carregar o seu peso nos braos. Caminha como se a tia Merleen estivesse a caminhar a seu lado. Sento-me
206
e observo-a, ouo e espero que a tia Faith me diga que est na hora de partir.
A ligao entre elas parece-me to natural como o crescimento da relva na campa da tia Merleen e to certa como o cu ser azul. Ter assistido s suas vidas por 
dentro faz-me acreditar que  possvel viver no abrigo acolhedor do amor eterno.
 Vamos para casa  diz a tia Faith.  Estou cansada.
Dou-lhe o brao e regressamos ao carro azul.
A tia Faith comea a assimilar gestos que pertenciam a Merleen. O seu riso torna-se sonoro, comea a cantar blues e a sentar-se no jardim da casa branca a ouvir 
crescer as flores da Merleen.
A Faith est a perder a viso, mas os seus outros sentidos esto mais fortes. As suas mos repletas de veias grossas, cada dedo preenchido por um anel de ouro ou 
prata, cada pulso uma cano de contas prateadas, testa o ar em busca de obstculos com a sua bengala de bano em forma de serpente. Ela ensina-me a ver sem olhos. 
Ensina-me a testar o cho que piso, a ver memrias obscuras e a navegar atravs do meu rio de dor. A tia Faith no v, mas consegue sentir-se bem e ensina-me como.

Os meus dedos tremem quando marco o nmero da Tree. A Joy atende e grita o meu nome quando ouve a minha voz.
 A Tree disse-me que te viu h um ms no lar. Por onde tens andado?
 Num curso de Vero.
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 Porqu?
 A tia Faith quer que eu v para a universidade para o ano que vem.
 No vais para fora, pois no? Acabaste agora mesmo de chegar.
 Ainda no sei.
 V l se no te enterras naquela casa velha. Vem visitar-nos. A Tree no sabia quando  que virias.  Nesse momento decido ir ver a Joy.
Quando conto  tia Faith que vou ao Bairro da Previdncia visitar a Joy ela no responde logo.
 Ouviu o que eu disse, tia Faith? Vou visitar a Joy.
Ela olha para mim do seu lugar ao p da porta das traseiras e acena com a cabea a confirmar que me tinha ouvido. Parece que entro num outro mundo quando atravesso 
a rua e percorro metade do quarteiro pelo passeio esburacado. Cores berrantes esvoaam nos estendais, vozes sonoras re-nem-se em alpendres e das janelas sai msica 
aos berros. A Joy e a Tree esto sentadas no alpendre. A Joy est ao telefone, mas levanta-se com as suas calas de ganga curtas e top de prender ao pescoo e acena-me.
 Queres beber alguma coisa?  pergunta a Tree. Est com um fato de macaco azul de mecnico, demasiado grande para ela. Fico surpreendida quando vejo as suas unhas 
dos ps pintadas de cor-de-rosa. Ela v-me a olhar e aponta na direco da Joy, que faz caretas e gesticula para dizer que est a tentar terminar a conversa.
 No. S passei para dizer ol.  Sento-me no degrau e olho para os dedos cor-de-rosa da Tree. A Joy desliga o telefone com um suspiro sonoro e abraa-me pelas 
costas. Age
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como se eu tivesse morrido e tivesse ressuscitado diante dos seus olhos.  como se o tempo no tivesse passado; continua a minha amiga de sempre.
Quando no est a gritar com o filho mais velho para parar de comer terra, a Joy fala dos homens, de como sente falta do Morto quando se deita  noite. Conta-me 
que o Morto foi preso novamente por tentar que os trabalhadores do A&P formassem um sindicato. Ela fica  espera de ouvir um som vindo do bero, onde est o filho 
do Morto, colocado atrs da porta de rede.
Visito a Tree e a Joy algumas vezes. Bebemos cerveja e recordamos os velhos tempos. Torna-se hbito sentarmo-nos  noite no alpendre da Joy a ver as crianas a 
brincar, a ouvir a estao de msica soul e a pentearmo-nos umas s outras. Nem eu nem a Tree falamos muito. No consigo entend-la. s vezes est to calada como 
se estivesse a tomar notas ou coisa do gnero. Deita-se cedo e acorda tarde para ir para o barbeiro cortar cabelos. A Joy toma conta das crianas, v telenovelas 
e cozinha para Tree e para as crianas. Vemos passarem por ns homens vestidos com calas de ganga justas, fatos de trabalho largos e fato completo. Falamos dos 
seus cabelos, olhos e corpos. Com o mesmo olhar perscrutador observamos as mulheres jovens que passam e, subitamente, o mundo parece encher-se de possibilidades 
para o amor, sexo e felicidade em cada par de sapatos de salto alto ou botas de trabalho que passam.
A Joy diz que no  assim to mau esperar pelo Morto, ao menos sabe que um dia ele voltar. E tem o filho dele com ela.
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 Um filho vale tudo no mundo  diz, embalando o menino nos braos.
Um dia a Joy pergunta-me sobre a minha me, quebrando a regra silenciosa que tnhamos de no abordar este assunto. Transformo-me numa tartaruga em busca de abrigo 
na casca dura das feridas antigas.
 No quero falar dela  digo, um pouco depressa de mais.
 S queria saber se tinhas tido notcias  diz a Joy.
 Passou muito tempo, no foi?  pergunta Tree.
 Ela volta quando puder. No quero falar dela.  Elevo demasiado a voz, mas no peo desculpa. Afasto-me delas e atravesso a rua em direco  segurana da grande 
casa branca.
 Era capaz de comer um bolo de veludo vermelho sozinha  diz a tia Faith, esfregando o estmago ruidoso com as grandes mos artrticas, quando entra na cozinha 
com as velhas pantufas de pele da tia Merleen. Parece que s diz estas coisas para me irritar.
 No pode comer acar.
 Aquele rapaz... o mdico... disse que eu podia comer quase tudo moderadamente.  Est a testar a minha pacincia.
Ignoro-a. Se eu disser alguma coisa, ela diz que estou a responder torto e que, no final das contas, ela ainda  a nica adulta l de casa. Estou sentada  mesa 
da cozinha a tentar ler as instrues do seu frasco de insulina. Vai comear a vir uma enfermeira para me ensinar a dar as injeces  tia Faith. Ela
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diz que posso praticar com laranjas. As agulhas so aguadas e as minhas mos tremem quando me lembro de como a minha me me dava as injeces quando eu estava 
com gripe. Chorava, mas ela obrigava-me a deitar de barriga para baixo e a fechar os olhos.
 Pensa numa palavra bonita  dizia ela antes de a agulha penetrar na minha carne. Tenho medo de magoar a tia Faith ou acabar por dar a injeco a mim prpria. 
Ela nunca se queixa da dor. Estou a habituar-me a tratar dela. No tenho tempo para pensar na minha prpria vida.
 Esse era o bolo preferido da tua me  diz ela, como se eu no tivesse dito nada. Depois d-me a folha com a receita.
Bolo de Veludo Vermelho
1-1/2 chvena de leo ou uma fatia de manteiga
sem sal
1 colher de ch de vinagre 3 ovos 1 frasco de corante alimentar vermelho
1 colher de ch de baunilha 1-1/2 de leite
2 chvenas de farinha 2 chvenas de acar
1/2 chvena de cacau em p sem acar
2 colheres de ch de fermento em p
2 colheres de ch de bicarbonato de sdio
1/2 colher de ch de sal
1 caixa de rebuados vermelhos
Misturar os ingredientes secos. Adicionar os restantes ingredientes deixando os ovos para o fim. Bater
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cuidadosamente com a batedeira a baixa velocidade. Dividir a massa por duas formas e levar ao forno a 350 graus durante 25-30 minutos ou at espetar um palito e 
este sair seco. Deixar arrefecer. Cobrir com creme de manteiga. Decorar com os rebuados vermelhos.
Creme de Manteiga para Cobertura
3 chvenas de acar em p peneirado duas vezes
2 colheres de sopa de leite
1/3 de chvena de manteiga sem sal  temperatura ambiente 
1 colher de ch de extracto de baunilha
Misturar o acar e a manteiga. Adicionar o leite e a baunilha, mexendo com a batedeira a baixa velocidade.
 A tua me tinha uma bela voz para a leitura. Enquanto o bolo estava a cozer costumava ler-me extractos do seu livro de sonhos.
 Que livro de sonhos?  Os meus ouvidos ficam subitamente alerta.
 Ela inventava as mais belas histrias. Costumava inventar sonhos e transcrev-los para um pequeno caderno de apontamentos azul que cabia no bolso do vestido. 
Aquela mida tinha uma imaginao to frtil! Contava que nos sonhos era perseguida por palavras grandes e que, quando as
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apunhalava, elas no sangravam. Imagina  diz a tia Faith, comeando a baloiar-se agarrada ao estmago como se tivesse um beb nos braos. Pe-se a recordar durante 
algum tempo. O seu estmago ruge, quebrando o silncio.
 Podia utilizar-se adoante no bolo em vez de acar. Provavelmente nem se dava pela diferena  diz ela. Lambe os lbios como se pudesse sentir o sabor dos rebuados 
vermelhos na lngua, a cobertura de manteiga a derreter-se nos lbios.
Parece uma menina a falar. No consigo resistir. Decido imediatamente que, em breve, vou fazer um bolo de veludo vermelho e decor-lo com rebuados vermelhos em 
forma de corao para lhe dizer que a amo, e amo-a realmente.
213

XIV

O Matisse telefona-me algumas vezes depois de eu ter regressado  Gergia, mas o som do seu sofrimento  como mau tempo para os meus ouvidos. Tenho medo de falar 
com ele, pois ainda no sei o que responder quando me pede para voltar. Esfrego a tatuagem caseira que tenho na coxa para que traga lgrimas aos meus olhos. Penso 
que deveria estar triste, mas no estou.
Vejo o sobrescrito cor de marfim, comprido e largo, pousado na mesa da sala de jantar. A sua letra selvagem transforma o meu nome em iniciais abstractas. Ele nunca 
escreve cartas, diz que o trairo. As pinturas que me envia contam a histria. Os seus sentimentos por mim so transparentes. O seu amor  como uma chaga aberta. 
Abro o sobrescrito e retiro o quadro protegido entre dois pesados pedaos de carto. Guardo-o na caixa de sapatos que tenho debaixo da cama, juntamente com os outros. 
Tento esquecer, mas no consigo. Sinto os seus olhos e as suas carcias silenciosas, e a lembrana faz-me comicho na frente da camisa de cetim.
A porta da casa branca est aberta, o corredor vazio, mas
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pesado com o perfume dos lilases. Saio do calor da luz forte de Vero para  sala e sou engolida por sombras cor de vinho, profundas, ricas e espessas.
 Quem est a?  A tia Faith est parada  porta como uma rvore.
 Sou eu, a Mariah.
Aproxima-se de mim apoiada na bengala. Quando fico to prxima que consigo sentir o seu hlito a hortel-pimenta, as suas mos voam em direco ao meu rosto e os 
seus olhos cegos e nublados olham para os meus olhos assustados. Toco--lhe na mo e ela aproxima-se. Ficamos com as barrigas encostadas. Ela emoldura a minha cara 
com as suas mos grandes e suaves e percorre lentamente todas as estradas do meu rosto e do meu corpo.
 s saudvel. Pele macia. Braos fortes. Ancas largas.  Bate-me levemente no rabo. Est a agir como minha me. Quero ser mais parecida com uma filha. Enrolo os 
braos  volta do seu centro volumoso e afundo-me no seu corpo convidativo.
 Irs fazer um homem muito feliz na tua noite de npcias.  Ri-se. Rio-me tambm, pois sei que, tal como ela, nunca casarei.
Nessa noite ouo msica e o barulho de dedos a estalar. Deso as escadas na ponta dos ps e sento-me no primeiro degrau. A tia Faith est na sala a cantar e a estalar 
os dedos ao som de Pinetop Perkins.
 Entra, estamos a dar uma festa  diz ela, sentada na grande cadeira de baloio vermelha a estalar os dedos e a bater com os ps.
S eu e a tia Faith. Vou busc-la e danamos o hootchie-
-cootchie, o twist and shout, o bumpe o cakewalk at o suor nos arder nos olhos. Ela  uma mulher jovem e magra vestida com um vestido amarelo e eu sou o seu belo 
acompanhante, excitado por estar na presena de uma rapariga bonita mergulhando as suas ancas estreitas quase at ao cho.
Down to the river/ Down to the river Fm bound /My girl needs a man to go down /Down to the river for a drink of honey wine.
Cantamos e deixamos que sejam os nossos corpos a marcar o compasso.
A tia Faith lembra-me para usar um chapu quando estiver frio, para levar o guarda-chuva quando os seus joelhos lhe dizem que vai chover. Reza por mim, pe discos 
a tocar para mim quando estou triste. Toma conta de mim, trata-me como se eu fosse dela e eu gosto. Habituei-me ao seu amor. Leio-lhe em voz alta livros de escritores 
negros  Ann Petry, Alice Walker, Toni Morrison, James Baldwin e Toni Cade Bambara
 que descobri na biblioteca da escola. Nem sempre gosta do que lhe leio, mas fica sempre agradecida. Espera pacientemente que eu acabe de ler o que escolhi antes 
de me pedir para terminar a leitura de uma passagem de um livro com histrias bblicas que a me dela lhe lia quando era criana.
A tia Faith faz-me perguntas acerca das cartas que recebo do meu pai todas as semanas. s vezes duvido que a minha vida com o Matisse tenha existido na realidade. 
Evito as suas perguntas e revelo o mnimo possvel.
Um dia o Matisse telefona-me a dizer que tinha vendido dois quadros.
 No prximo ms vou entrar numa exposio colectiva
 diz, tentando parecer feliz.
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 Isso  bom.  No sei o que mais dizer. Durante algum tempo reina o silncio. Penso perguntar-lhe como est o tempo em Los Angeles, mas sei que est sempre igual.
 Tens visto a Mrs. Oyama?
 No. Nunca mais a vi.  Faz uma pausa.  Quando  que voltas?  pergunta, apanhando-me desprevenida.
 A tia Faith est doente.
 Podamos ser uma famlia.  Parece ter esquecido que falhmos redondamente.
 Que quadros vendeste?  pergunto, espremendo uma borbulha no brao e tentando que ela sangre. Durante algum tempo ele no diz nada. Consigo sentir a sua respirao 
entrecortada. No tenho coragem para lho dizer, mas nunca voltarei.  demasiado perigoso voltar a percorrer aquela estrada.
 Amo-te  diz ele. Depois desliga o telefone.
O tempo passa devagar. As semanas transformam-se em meses de dormir e beber desgostos com uma colher pouco usada. Um dia encontro uma garrafa de usque poeirenta 
num canto do balco da cozinha e uma receita para apagar a memria.
H uma janela de Outubro no quarto. Uma cortina de renda velha e manchada com ch filtra o esforo do sol. Atravs das persianas sujas e amarelas vejo o verdadeiro 
azul do cu cheio de nuvens e de pontas de rvores em chama. As folhas de Outono danam no ar como desejos. O Matisse est apintar--me as coxas com a lngua e eu 
estou a vir-me em sonhos.
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Arrumo a caixa de quadros, pinturas e expresses obsessivas de amor que o meu pai me mandou ao longo das semanas que estivemos afastados e envio-lhe tudo de volta 
com um bilhete: Pap, amas-me de mais. Mariah.
Cada imagem  uma ferida aberta no meu corao, cada enigmtico poema revela a sua devoo pela minha me desaparecida e a fenda que existe no meu corao partido 
aumenta cada vez que o carteiro chega com um pacote manchado de lgrimas. Quando olho para a fotografia do Matisse posando frente ao oceano de tronco nu, vejo o 
meu pai, mas quando me lembro de como ele era  noite, vejo um homem cujas necessidades so demasiado grandes. Conheo o meu corpo e na escurido envergonho-me 
dos meus pensamentos. Os meus sonhos no mentem.
Quando o Matisse me telefona passada uma semana o seu desespero  visvel. A tia Faith est a dormir a sesta e eu estou em frente ao frigorfico a pensar no que 
hei-de fazer para o jantar. O telefone toca trs vezes antes de eu atender.
 Estou?  pergunto. Silncio.  Quem fala?  Um suspiro pesado assemelha-se a um vento estranho no meu ouvido.
 Quero ser um bom pai para ti  afirma determinado. No silncio desenho crculos na parede com o dedo.
 Tens razo.  de mais. Desculpa...  Ele espera por uma resposta minha, mas eu no ajudo.  Qual  a coisa que mais queres? Se pudesses ter tudo?  pergunta.
Respiro para o auscultador, mas no consigo falar.
 Quero fazer-te feliz. Farei tudo para te ver feliz  diz, com as palavras entaladas na garganta. Custa-me ouvi-lo
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chorar.  Telefona se precisares de alguma coisa. Estarei sempre aqui para te ajudar.  Faz uma pausa e diz:  Amo--te.  Desligamos ao mesmo tempo.
Talvez quando voltarmos a ser dois desconhecidos nos compreendamos melhor.
Nessa noite sonho com a minha me.
deixar partir; quando deixo, fico su no cair.
Solo suenos. Estou apenas a sonhar. Solo suenos.
Levanto as cortinas da janela para a vera olhar para mim. O seu cabelo africano, curto e louro, os seus olhos amendoados delineados a prata. Tornou-se mais rolia, 
mais frgil do que eu me recordava. Traz um vestido de cetim azul-marinho sem alas que parece ter sido cosido ao seu corpo. Est parada no alpendre de ps descalos, 
com os sapatos poeirentos a balanar na mo esquerda. Uma pequena mala preta est pousada atrs dela. Abro aporta e percorro o corredor perguntando-me se a devo 
deixar entrar. Fecho os olhos para conter as lgrimas e encosto a mo  boca para evitar um grito.
 A ests tu  diz ela.
A sua voz  suave, triste e doce como cada uma das minhas memrias. O som da voz da minha me  como mel para os meus ouvidos. Os meus olhos sedentos bebem-na, 
incham e chovem. Ela d um passo em frente e oferece-me uma palavra. Hesito, mas a imensido da minha espera faz-me cair nos seus braos. Ela  quente e cheira 
como o interior de uma flor. Nos seus braos vou ficando sonolenta. Os meus braos esto cansados, mas tenho medo de a 
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deixar partir; quando deixo, fico surpreendida por no cair. 
Solo sueos. Estou  apenas a sonhar. 
Solo sueos.
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XV

Os feios edifcios brancos e modernos da universidade esto reunidos em vrios hectares de terra verde como blocos habitacionais abandonados, mas a biblioteca  
uma estrutura slida de dois andares de tijolo vermelho que parece ser a casa de algum.  como uma ilha orgulhosa no centro do campus, provocadoramente vestida 
de cortinados grossos verde-escuros, persianas brancas e um telhado de ardsia cinzenta. No meu primeiro ano na universidade, a dez quilmetros da grande casa branca, 
consigo o emprego perfeito a arrumar livros nas prateleiras. A bibliotecria  uma senhora amvel, na casa dos sessenta, chamada Mrs. Walters, que usa uma fita 
preta no cabelo louro e se veste de modo pouco adequado a uma bibliotecria, cores garridas e sapatos de pele de salto baixo. Caminha em bicos de ps para no fazer 
barulho quando atravessa a sala.
 Lembro-me de quando os negros no podiam frequentar as aulas de ingls nem de engenharia. No era coisa que se dissesse abertamente, mas a verdade  que eram 
desencorajados. Espero que frequentes todas as aulas que te interessem, querida. Estou feliz por ter visto tantas mudanas acontecerem durante a minha vida.  Fala 
comigo como se no esperasse
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resposta. Por isso continuo a pr os livros nas prateleiras. A maioria das vezes deixa-me s para usufruir dos meus prazeres secretos.
Estando a trabalhar na biblioteca da universidade, esguei-ro-me por entre as pginas dos livros como se estivesse nua e eles me amaciassem a carne. Cada dia que 
passa colecciono mais palavras de livros to novos que sou eu a primeira a partir a lombada, e de livros to velhos que o seu papel delicado fica colado s minhas 
impresses digitais.  noite escrevo palavras novas na parede do meu quarto, unindo-as em pirmides, rvores e tribos, inventando uma nova forma de gerir a linguagem 
e uma nova vida dentro da poesia do ritmo e da rima, linhas rectas e linhas que se enrolam em expresses na palma da minha mo. Em breve as palavras comeam a escapar-se 
das paredes, tornndo-se maiores e mais ousadas, esticando-se em direco ao tecto. Comeo a escrever poesia num bloco de apontamentos azul que me cabe no bolso.
Inscrevo-me nas aulas de francs. Monpre est un homme triste. O meu pai  um homem triste. Tenho saudades dele. Crtica Musical. Brahms  uma cano de embalar 
que acalma os meus gritos antes de dormir. Os meus sonhos perturbam-me. Histria. Todos os dias me sento ao lado de raparigas brancas que pedem para ver os meus 
apontamentos e rapazes brancos que me pedem o nmero de telefone. As raparigas negras desconfiam das minhas boas maneiras e das minhas atitudes. Os rapazes negros 
tratam-me por irm e convidam-me a ir com eles a encontros polticos. Ignoro-os a todos, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, me faro perguntas s quais no posso 
responder. Divirto-me. Toro palavras longas
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e difceis em cordas de seda brilhante que  noite uso  volta da cintura.
Estudo estes novos temas  luz de um dos candeeiros esculpidos  mo da tia Merleen, bebendo de tempos a tempos canecas de ch cheias de usque americano e mel. 
Sozinha na minha cama, apresento as minhas mos ao meu corpo. s escuras, quando j no ouo os dedos a estalar, desabotoo a camisa de noite e abro as coxas contra 
a madeira escura e fria. A Rosemary amacia as arestas afiadas do usque. Tocamos as nossas melodias silenciosas at adormecer no seu abrao. Os meus sonhos esto 
codificados, apenas recordo sensaes, no imagens. A maior parte das vezes acordo com a sensao de ter sido sugada e atirada fora como um copo vazio.
 ento que um dia, depois de j ter dobrado mais uma esquina da estrada, a tia Faith vem lembrar-me que a morte est sempre por perto.
 A tua av Gert morreu esta manh  diz do outro lado da mesa da cozinha decorada com copos medidores e colheres, farinha, ovos, acar, taas de cermica e uma 
lata de tinta vermelha.
O meu primeiro sentimento  de alvio por no ter de voltar ao lar depois da missa de domingo. O pensamento seguinte faz-me esquecer as trs palavras novas que 
tenho de escrever na parede;  possvel que a minha me venha ao funeral.
 Como  que a Mam vai saber? Acha que ela volta para casa?
 Telefonei a algum que sabe onde a pode encontrar. Disseram-me que vem ao funeral  diz a tia Faith, como se
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me estivesse a dar uma notcia ainda pior.  Dentro de um ou dois dias.
No quero acreditar. Quem me dera no o desejar to ardentemente. Tiro o avental e desligo o forno. O bolo de veludo vermelho da tia Faith ter de esperar. Caminho 
pelo corredor tal como fiz todas as vezes que tinha tido notcias dela ao longo de todos estes anos. Sento-me e olho para a luz filtrada pelas cortinas finas da 
janela ao p da porta e tento avanar no tempo at  parte onde ela me abraa e me beija pela centsima vez. Apesar de j ser maior de idade e saber que ela errou 
ao abandonar-me, parece que no consigo afastar-me do fundo das escadas onde esperei por ela todos estes anos.
Levo a tia Faith at ao lar para ir buscar os pertences da av Gert. Pela primeira vez desde que voltei, entro com ela encostada a mim, deixando que a guie atravs 
das pesadas portas de vidro e ao longo do comprido corredor branco at ao quarto onde a Gert deve ter, indubitavelmente, gasto o ltimo suspiro a amaldioar algum. 
Todos os seus pertences cabem num grande saco de plstico verde. Uma camisa de noite roxa nova, cinco vestidos floridos com Gertrude Rains escrito no colarinho 
com um marcador preto, uma pequena pilha de roupa interior, uma pequena caixa de bijutaria e um par de roupes. Quando vou fechar a gaveta da sua mesa de cabeceira, 
vejo uma fotografia presa ao fundo da gaveta.  uma fotografia da minha me quando era pequena sentada ao colo da minha av. Ambas sorriem. Guardo a fotografia 
no bolso e volto a levar Faith para o carro.
Levo a tia Faith at  casa funerria onde, mecanicamente, trato dos preparativos para o funeral. A responsvel pela cerimnia  uma mulher de meia-idade vestida 
com um fato
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azul-escuro, que brinca com a argola de ouro que tem na orelha direita e segura uma bblia branca em miniatura na mo esquerda. Afaga-me as costas e tenta confortar-me.
 A sua tia teve muita sorte em ter uma sobrinha to dedicada. Isto deve ser horrivelmente difcil para si.
A tia Faith senta-se num canto a chorar. Tento concentrar--me nos documentos do seguro, tipos de caixo e arranjos florais, apesar de estas coisas no me interessarem. 
Por mim, a senhora simptica at podia met-la numa caixa de carto, transform-la em churrasco e deitar foguetes. A minha me pesa-me na mente.
Mais tarde, nessa mesma noite, para me manter ocupada, para acalmar a dor da tia Faith e para dar as boas vindas  minha me, volto a preparar um bolo de veludo 
vermelho. Ligo o forno. A tia Faith  a cozinheira suplente, dando-me instrues verbais de como mexer, bater, e cozinhar, e quando as vrias etapas esto finalmente 
cumpridas deixamo-lo a arrefecer perto da janela. Fao a cobertura do bolo de duas camadas enquanto a tia Faith passa os dedos na beira da tigela. Cubro a terceira 
parte do bolo para podermos passar ao teste de degustao. A tia Faith come delicadamente pedacinhos do bolo de veludo vermelho com as duas mos a caminharem em 
direco  boca, e lambe os dedos em sinal de aprovao.
Quase deixo cair o bolo ao cho quando o telefone toca. Corro para o atender no corredor, esperando reconhecer a voz. Reconheo-a,  a voz da Tree. Consigo ouvir 
os bebs da Joy a chorar do outro lado.
 Sinto muito pelo que aconteceu  tua av  grita a Tree tentando sobrepor-se ao barulho de fundo.
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 Obrigado por teres telefonado  digo automaticamente. Neste momento no quero falar com ela nem com ningum, por isso despacho-a rapidamente.
A minha me no vem ao funeral. Estou sedenta por um gole de algo que me queime da garganta at  barriga.
S uma enfermeira do lar, uma enfermeira nova, comparece na capela. Seguimos o cortejo at ao cemitrio. A tia Faith chora com se a sua irm Gertrude Rains no 
fosse a pessoa mais odiosa, m e mesquinha que existia. No compreendo o seu desgosto at me lembrar que no foi assim h tanto tempo que ela teve de fazer o mesmo 
pela Merleen. Chorei por elas nessa altura, mas este desgosto recente  pela minha me. As lgrimas comeam a fluir dos meus olhos como pedaos de vidro partido 
enquanto conduzo a tia Faith para fora do caminho, para l da campa da av Gert, passando por lpides cobertas de ervas daninhas ou decoradas com flores de plstico 
e citaes floreadas. O nosso falecido pai. Irm e amiga. Me amantssima est escrito com belas letras grandes numa lpide de mrmore rosa junto ao grande porto 
preto que rodeia o cemitrio. Subitamente desato a arrancar os cabelos e a enfermeira tem de me segurar as mos e afast-las da destruio.
A minha me pode muito bem estar morta. Os seus olhos e rgos transformados em p. No sei se hei-de correr ou esconder-me, estou paralizada. Estou irritvel, 
no vou s aulas nem ao meu emprego na biblioteca e deixo de pentear o cabelo.
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Digo coisas horrveis  tia Faith, mas ignoro-a a maior parte do tempo.
 Ests to parada. O que se passa, Mariah?
 Tem de se passar alguma coisa? S no me apetece falar de insignificncias.  Sei que feri os seus sentimentos, mas no me importo. A sua voz lembra-me que estou 
viva. As palavras comeam a pingar do tecto e a cair-me na cabea. Palavras grandes, frases pesadas e pginas de jornal velhas caem-me no rosto e derretem-se como 
chuva. Ganho medo de sair de casa. Tenho medo de que, se sair para a luz, possa perder a vida, medo de que possa perder a voz no meio das rvores, medo de os meus 
olhos serem comidos por pequenos insectos que andam no ar, medo de que a minha boca seja rasgada pelos dedos que tentam alcanar os carros que passam. Tenho medo 
de que, se sair, os gritos voem da minha garganta e caiam como rvores ocas num vale de ecos. Tenho medo de tudo. Nada  real. Nada  aquilo que parece ser. Recuso-me 
a sair do meu quarto. Quando acaba o mel que adoa a bebida, bebo o resto do usque directamente da garrafa at esta estar vazia.
Atravs das almofadas de nevoeiro cinzento cerrado ouo um leve bater na minha porta.  irritante. Quero dormir para sempre.
 Mariah?  chama a tia Faith. No respondo, mas ela continua a bater.
 Mariah? Querida, abre a porta.  A sua voz  irritante, furando as densas camadas de nuvens.
Cubro a cabea com os cobertores e viro-me no emaranhado de lenis. Tapo os ouvidos com as mos. A porta abre-se, depois as cortinas, as janelas abrem-se de par 
em par.
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A luz do sol no me derrete a pele, o ar fresco no queima. A tia Faith entra no quarto e deixa que o seu peso enorme esmague o colcho com um suspiro.
 Fala com a tua tia Faith. Fala comigo, querida.
Quero responder-lhe, mas no consigo encontrar a lngua, que parece estar perdida na boca. Sinto as mos da tia Faith nas minhas costas. Os seus dedos sobem-me 
pelo brao at  face. Ela puxa o meu corpo para o dela at o meu rosto estar encostado ao seu peito pesado, perfumado de hortel--pimenta.
H paz no vale... Canta hinos ao meu ouvido.
Era uma vez, h muito muito tempo, quando era filha de um ferrovirio... Respira para o meu peito as palavras de uma histria.
Got my mojo working... Ela estala os dedos ao som de Muddy Waters.
 gua  sussurro.  gua.
A tia Faith empurra a cama, arrastando-me com ela. Com a bengala numa mo e eu na outra, arrasta-nos pelo corredor at  casa de banho. Arrasta metade do meu corpo 
para o lavatrio no canto da divisria. Abre a torneira. Parece um rio a correr. Junto as mos debaixo do rio de gua fria e bebo um oceano. O sabor doce da gua 
mata-me a sede. Lgrimas caem da ponta dos meus dedos, do cabelo, da dobra do brao, dos joelhos e dos dedos dos ps. A tia Faith segura-me.
Depois leva-me para o seu quarto e senta-me na sua cama. Algodo frio e suave. Ouo um rio. A sua mo despe--me. Quando fico nua, leva-me para a banheira. A gua 
est quente. A minha pele treme  medida que o meu corpo  engolido pela banheira comprida e funda. A tia Faith deita
uma mo cheia de ervas na gua, ptalas de rosa e uma colher de ch cheia de mel. Cheira deliciosamente. Trauteia uma melodia de blues muito antiga enquanto me 
esfrega sal grosso nas costas e nos ombros. Estou a nadar numa sopa saborosa.
Acende uma vela branca e esperamos. Exausta, senta-se numa cadeira virada para mim. Descansa as mos sobre a grande barriga e olha-me com os seus olhos nublados. 
Est a ouvir-me.
Antes de perceber o que est a acontecer, a minha boca comea a derramar palavras como se fossem cobras. As palavras voam-me da garganta como pssaros. Cuspo todos 
os detalhes como se fossem veneno. No deixo nada de fora.
As coisas de que tenho saudades
Os seios da minha me... o peso da mo da tia Merleen na minha...
As coisas que perdi
A minha inocncia...
As coisas que quero...
Amor... Braos em que possa confiar para me abraarem...
Sozinha no meu quarto naquela noite, escrevo a ltima palavra que a minha me me deu. gua. Levo o papel aos lbios e bebo-a da pgina, engulo-a em trs longas 
slabas at ela chegar ao stio que est a arder. Sinto-me como se me tivessem tirado uma tonelada de pedras do peito. Sinto-me leve como a pgina de um livro em 
branco. Sinto-me vazia, mas completa. A minha boca abre-se e falo s pessoas que se lembram de mim e sado os desconhecidos com um sorriso.
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O sol desponta e a relva volta a ser verde e o gosto da gua  doce. Escrevo poemas e desenho mapas de linguagem.
A minha me ainda telefona de tempos a tempos e fala com a tia Faith, mas eu j no deixo de mexer as panelas, dobrar os lenis ou escrever poemas para ficar 
porta  espera que ela chegue. Decidi no o fazer.
Quando ela passar por aquela porta, beb-la-ei com goles sedentos. Lembro-me de cada palavra que a minha me me deu e saboreio o sabor dos seus beijos da alma.
Doce Msica Azul
Sussurros
gua de Sonho
Lgrimas Enferrujadas pela Chuva
A minha sede  insacivel, o poo no tem fundo, mas h amor  minha volta, agora estou certa disso.

AGRADECIMENTOS

A minha gratido e o meu muito obrigada:
 famlia Yaddo por me terem dado um lugar  mesa e um quarto s para mim; a Charis Books & More, de Atlanta, por me terem encorajado a tornar-me escritora e por
sempre terem apoiado as minhas iniciativas; ao Gabinete de Assuntos Culturais da cidade de Atlanta pelo Prmio Literrio Municipal; ao Concelho das Artes da Gergia
e  Fundao Astraea pelas generosas bolsas de estudo que me deram o precioso dom do tempo.
 minha agente Sandy Dijkstra e  fantstica equipa da Agncia Literria Dijkstra, especialmente a Debra Ginsberg, por terem acreditado no potencial de algumas
sementes;  minha editora Julie Grau, cuja confiana e talento editorial foram inestimveis; e a Nicole Wan, a sua paciente assessora.
A Ann Khaddar e Eric Broudy por terem deixado a poesia entrar no local de trabalho;  Cantina da Universidade de Brown por ter alimentado o meu corpo e a minha
alma com pequenos e grandes actos de bondade; a Irene Zahava por ter revisto generosamente e com infinito cuidado uma primeira verso do manuscrito; a Daniel Alexander
Jones pelos seus luminosos beijos da alma; a Marj Salvodon pelas suas mensagens electrnicas
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regulares e edificantes;  minha assistente Nina Shope pelo seu espantoso sentido de oportunidade; e s minhas Irms da Alma  a Salon Divas, a Kate Rushin, a Carleasa
Coates, a Rebecca Johnson, a Patrcia Powell e a Meredith Woods, pelo poder das suas palavras.
Esta obra no teria sido possvel sem o apoio de inmeros amigos e familiares de Atlanta, Boston, Havai, Londres, Los Angeles, Minneapolis / St. Paul, Nova Iorque,
Paris, Providen-ce, San Francisco, Universidade de Brown e Wheaton College.
Bem hajam. Muito obrigada a todos, por tudo.

ACERCA DA AUTORA
Shay Youngblood nasceu em Columbus, na Gergia, licenciou-se na Universidade Clark, em Atlanta, e fez um mestrado na Brown University.  autora das peas Shakin'
the Mess Outta Misery e Talking Bons, e de The Big Mama Stories, uma colectnea de contos, um dos quais foi galardoado com o Prmio Pushcart.
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Este livro foi composto em caracteres Garamond por
Maria da Graa Samagaio, Porto,
e impresso e acabado por
GRAFIASA,
Rua D. Afonso Henriques, 742 - 4435-006 Rio Tinto PORTUGAL


Digitalizao e correco de

Carla Maria Ferreira dos Mrtires
Jos Alberto Canelas

2004/02/20
